Foto: Marco dos Anjos / Divulgação

Singelo… Essa é uma boa palavra para introduzir o novo trabalho da Trupe do Experimento. O espetáculo teatral ” O alfaiate de palavras “ traz à cena de forma realmente singela questões familiares com ar lúdico e bem-humorado.

Pensar em laços familiares sempre pode trazer à tona as melhores vivências dos confins da memória. No entanto, pequenos desentendimentos e mal-entendidos são capazes de transformar estas boas recordações em um mar de saudades e amargura. Nesses momentos fala alto o orgulho que, por vezes, supera o desejo do reencontro. E assim, dias se tornam meses, meses viram anos… e lá se foi um tempo sem volta. Tratar dessas situações delicadas em ambientes familiares requerem tato, especialmente quando o diálogo se dá com os pequenos.

Entender a saudade e seus efeitos, bem como o orgulho e suas consequências são saberes que permeiam o universo dos jovens e adultos. Questionar o mundo, por outro lado, é uma característica do olhar curioso das crianças. Nós, adultos, ao depararmo-nos com certas situações delicadas simplesmente evitamos questionar… Certas atitudes (ou a falta delas) passam a ser aceitas com certo conformismo, levando a vazios que só fazem crescer. Não questionar as próprias atitudes, sim, é coisa de adulto – que se enrijece para evitar sofrer.

O encontro entre esses dois universos é ludicamente tratado em “O alfaiate de palavras”, um espetáculo que trata de amor, saudade e família. Nos idos anos 50, Hildebrando mora sozinho em sua casa onde trabalha como alfaiate. Viúvo, tem em seus dias somente a companhia de seu rádio e do carteiro (por alguns minutinhos). Ranzinza e reclamão, Hildebrando amarga em seu peito a solidão de ter perdido o contato com seu filho que vive em Portugal e de quem não tem notícias há anos. Eis que um dia recebe em sua casa uma grande e pesada caixa sem remetente, mas endereçada a ele. Dentro desta caixa está Teca: Uma boneca de pano que anda e fala (e como fala!). Questionadora e intrometida, Teca coloca o velho alfaiate a questionar as próprias escolhas e decisões. Trazendo consigo a linda mensagem de como é importante deixar nossa criança interior tomar as rédeas de certas situações, para enfim encontrar alento.

Foto: Marco dos Anjos / Divulgação

O espetáculo dirigido por Marco dos Anjos traz elementos que fogem ao padrão, tornando-o mais especial. O uso de bonecos com uma iluminação precisa criam uma atmosfera encantada, que consegue transmitir com poesia a essência de personagens não representados por atores. Outra sacada interessante é inserir na cena os radialistas que todos os dias movimentam o dia de Hildebrando com a radio novela. Esses atores/cantores não só encenam tudo que Astolfo (o rádio) transmite, como também realizam a sonoplastia do que acontece em cena, transportando a plateia para as produções da década de 50.

O figurino e o visagismo de Leo Thurler ajudam a reforçar a ludicidade impressa em todo o trabalho: Com exageros na medida, reforçam a personalidade dos personagens em cena. O trabalho dos atores, mesmo que sem grandes ápices, é bonito e bem direcionado ao público infantil (assim como as piadas e tudo mais presente no texto escrito pelo diretor em parceria com Aline Marosa).

A Trupe do Experimento é um grupo que desenvolve trabalhos autorais voltados para crianças e jovens. Com mais e 10 anos de estrada, já traz na bagagem outros 7 espetáculos (entre eles: “Sofia embaixo da cama”, “No embalo das Cores”, “Pequeno autor” e “#Qfase”). A proposta do grupo é o desenvolvimento de trabalhos que possam reunir a família no teatro. E fazem isso com muito tato e sensibilidade.

O espetáculo fica em cartaz no teatro do Centro Cultural da Justiça Federal (CCJF) até o dia 30 de julho (exceto nos dias 24 de junho e 29 de julho) nos finais de semana às 16 horas.

Crítica: O Alfaiate de Palavras
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