Crítica: O Amor No Divã

Uma boa surpresa
 

 

amor-no-diva-cartaz2016 vem sendo um generoso ano para produção audiovisual brasileira. Além de ter lançado bons filmes, o cinema nacional abraçou novos gêneros e pode expor trabalhos de novos cineastas que, cada um à sua maneira, conquistou o público. A comédia romântica, enfim, se tornou um gênero efetivo para o mercado nacional e vem desenvolvendo trabalhos tão bons quanto os que Hollywood nos apresenta.

O primeiro filme do diretor teatral Alexandre Reinecke, “O Amor No Divã”, é mais um prazeroso exemplar. Nele, Malka Stein (Zezé Polessa) é uma terapeuta de casais que está vivendo uma crise em seu próprio casamento com José (Daniel Dantas), que acaba de se aposentar. Paralelo a isso, Miguel (Paulo Vilhena) sofre com o distanciamento de Roberta (Fernanda Paes Leme), que anda mais preocupada com a carreira do que com a relação. Um dia, o jovem casal procura Malka, mas ao longo das sessões os dilemas se cruzam e a terapeuta passa a analisar o que acontece em seu próprio relacionamento de acordo com que o jovem casal retrata em sua terapia.

O roteiro escrito por Juliana Rosenthal K, é baseado em seu próprio livro “Terapia de Casal”, que já foi um espetáculo teatral de mesmo nome. Ela, que já assinou a dramaturgia dos mais diversos produtos de entretenimento, de quadros de programas à espetáculos, usou de seus conhecimentos para criar uma narrativa palpável, de fácil reconhecimento, independe de estar casado ou solteiro e com bons pontos cômicos que são apresentados com leveza ao espectador. Embora a “resolução” dos problemas dos casais seja muito rápida, dada as circunstâncias em que acontecem, esse fato, embora insustentável, não é um problema explícito para a obra, podendo passar despercebido para um público mais desatento e menos questionador.

Reinecke por sua vez consegue juntar pessoas completamente diferentes, como casais e como atores, para uma formação interessante. Mesmo tendo um enorme currículo como diretor teatral, ele consegue abaixar o tom da interpretação e faz o cinema ser “cinema”, coisa que diretores experientes dentro do audiovisual não conseguem e fazem do filme uma obra televisiva. Outro importante feito, foi conseguir extrair uma boa atuação de um elenco que não necessariamente já realizou grandes feitos na dramaturgia.

Nesse caso estamos falando de Fernanda Paes Leme e Paulo Vilhena, que, com exceção do personagem Salvador, de Paulo, na novela “Império”, há anos acompanhamos seus os trabalhos e nunca se destacaram, nem renderam boas atuações. A química entre eles segue um ritmo jovial, descontraído e interessante. Miguel e Roberta vem como retrato bem atual e dinâmico sobre as relações mais jovens estabelecidas sobre um processo de autoconhecimento como pessoas e como um casal.

Paralelo a isso temos Zezé Polessa e Daniel Dantas numa relação de 30 anos, que já passaram por diferentes tipos de conflitos, já tiveram filhos que seguiram seus caminhos, mas ainda enfrentam dificuldades em lidar com as adversidades quando se chega a uma determinada idade. Embora ambos estejam excelentes em seus personagens, com uma química inquestionável, afinal já foram casados na vida real, a Malka de Zezé se destaca, por exercer uma dinâmica entre a mulher autossuficiente e a necessidade de afeto de seu amado. Diga-se de passagem, aos 63 anos, Zezé Polessa, em suas cenas de lingerie, se mostra mais sensual e, grosseiramente falando, é mais gostosa que muita “novinha” de vinte e poucos.

Vale destacar também a trilha sonora, de Sergio Fouad e Otavio de Moraes, que vem como um jogo dinâmico à sensibilidade do público. As vezes apresenta-se com uma nuance latina, dada aos “desencontros” cômicos dos personagens, enquanto em outros momentos surge numa sinfonia amedrontadora como uma forma prever os inevitáveis conflitos. Além disso, as canções originais compostas por Zeca Baleiro, interpretadas por ele e pela atriz e cantora Alessandra Maestrini, são de uma doce comicidade ímpar. “Que Amor é Esse?”, que já foi divulgada, é uma dinâmica sinopse sobre a própria obra, com exemplificações recorrentes das discussões entre casais.

“O Amor No Divã” é uma boa pedida para casados e solteiros, para ir em um date ou sozinhos. O fato é que o longa veio como uma boa surpresa para o final do ano e vale conferir o projeto. Embora tenha alguns errinhos, ele é tão bom, ou melhor, quanto muitos filmes internacionais que eu e você já pagamos para assistir.

Fotos: Aline Arruda.

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