Os caminhos entregues pelo destino ou A contínua transformação da vida

Assistir “O céu de Tóquio à noite é sempre do mais denso tom de azul” e não se emocionar do início ao fim é uma improvável tarefa. Não por excessos de dramas caricaturais e/ou cenas romantizadas que nos arrastam para determinadas relações. Mas, sim, pela a leveza e suavidade em que o filme foi construído. Uma obra simples, sem muito requinte ou orçamento. Seria possível dizer que até sem muito aparato técnico, mas com uma capacidade voraz de te roubar até a última e significativa cena.

A trama se passa em Tóquio, no Japão, e é desenvolvida em harmonia a partir de dois olhares. Uma dualidade que expõe forças opostas ao mesmo tempo que complementares. Através dessa, somos apresentados a duas pessoas: A desiludida Mika e o esperançoso Shinji, que se conhecem em um dia sem muitas pretenções. Contudo, acabam caindo nas armadilhas do destino e as dúvidas que surgem no caminho. Ele trabalha o dia inteiro em uma construção civil, se equilibrando entre as loucuras trazidas pela globalização e a esperança que carrega firmemente consigo. Enquanto ela se desdobra em dois empregos para se manter e ainda ajudar a família: de dia se empenha como enfermeira e a noite trabalha como anfitriã de um “Girlie bar”**. Um paralelo poético de duas vidas ordinárias que descobrem ter muito em comum.

O diretor e roteirista Yûya Ishii, conhecido por seu trabalho em “The Great Passage”, nos descreve uma história sincera, com um ar bucólico, pincelada com certa visceralidade. Sua narrativa não traz enfeites, é concebida de forma homogênea com certos aspectos rudimentares. Regado a metáforas, o enredo é prazeroso em relação aos diálogos e suas personagens.

A direção de Ishii segue pelo mesmo caminho descomplicado. Sua câmera em constante movimento floresce ainda mais as ideias traçadas a partir de um duplo seguimento. A escolha por planos e ângulos que trazem um tom reflexivo as cenas, propõe uma perspectiva filosófica que se intensifica com o uso do zoom que nos aproxima daquelas figuras isoladas do mundo e o profundo trabalho em cima do som ou da falta desse. Sem falar do excepcional uso do slow motion, tão mal utilizado ultimamente.

A fotografia brinca com a estética das cores e a conexão existente entre as luzes. Não um simples jogo, mas sim uma comunicação fundamental para apresentar de forma pura e inquestionável cada persona aprofundada, seus demônios e amores. Na mesma vertente se encontram a autêntica direção e o “simpático” figurino, que não busca sobressair à cena.

O pequen e considerável elenco faz bonito em um todo, porém a trama gira mesmo em torno de Shizuka Ishibashi, que encarna com perfeição a insegura e ansiosa Mika, e Sosuke Ikematsu. Esse, se entrega de forma convincente ao inocente Shinji e o seu problema em um dos olhos. E representa muito bem essa completude de olhares, bem como acaba causando um incomodo necessário no espectador.

Seguindo curiosamente os conceitos encontrados no Yin e Yang, uma tradição chinesa derivada do Taoismo, “O céu de Tóquio à noite é sempre do mais denso tom de azul” brinca com sensatez com o nosso emocional e psicológico, nos levando a considerar cada corte de cena ao mesmo tempo que sua insubstituível trilha sonora. Um filme para ver, rever, e a cada vez que isso acontecer, refletir sobre a vida, seus caminhos e necessárias transformações.

* Filme assistido durante o Festival do Rio 2017. Ainda sem data de estreia, a produção não possui trailer e nem poster com título em português.

** Girlie Bar: Espécie de bar onde trabalham garotas que servem de companhia para homens que lhe pagam drinques. Essas mesmas garotas também são oferecidas para situações além de uma simples conversa, caso seja acordado entre ambas as partes. Para tirar a garota do bar, basta o homem pagar uma multa.

Crítica: O céu de Tóquio à noite é sempre do mais denso tom azul
9Valor Total
Produção9
Roteiro9.4
Direção 9.5
Fotografia8.8
Design de produção 9.2
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