A volta de quem nunca se foi

Dizem que todo escritor/autor/roteirista coloca mais de si em uma história do que ele mesmo consegue perceber. Seja escrito em primeira ou terceira pessoa, as obras costumam retratar situações que passam em sua mente e alimentam sua escrita. Elas podem e quase sempre costumam ser impregnadas de características pessoais ligadas direta e/ou indiretamente ao seu criador. Bom, pelo menos, é o que costumam dizer. É exatamente o foi retratado em “O Cidadão Ilustre” (El Ciudadano Ilustre). Exibido em vários festivais pelo mundo, premiado e escolhido pela Argentina a concorrer ao Oscar 2017, o longa chega esse mês aos cinemas nacionais.

A trama nos apresenta o premiado escritor, Nobel de Literatura, Daniel Mantovani (Oscar Martínez). Morando na Europa há 5 anos, não escreve uma nova obra, mas tem uma agenda cheia de compromissos. Certo dia, ele recebe uma carta convidando-o para retornar a sua cidade natal para receber o título de “Cidadão Ilustre”. Há 4 décadas sem voltar à Salas, no interior da Argentina, ele inicialmente declina o convite, mas acabada decidindo ir. Ao chegar, ele começa a perceber que várias coisas mudaram, menos o comportamento provinciano das pessoas, no qual repudia. Além de ser perseguido diariamente pelos cidadãos, ele reencontra seu amigo Antonio (Dady Brieva), que hoje é casado com sua paixão da adolescência, Irene (Andrea Frigerino). O reencontro, junto a outras ocasionalidades, fará de seu retorno uma grande “saia justa” que não havia cogitado passar.

A trama roteirizada por Andrés Duprat (“O Homem Ao Lado” – 2009) é rico em referências e situações constrangedoras. Numa retratação peculiar, mas verdadeira, ele consegue transparecer perfeitamente a identidade de muitas cidades interioranas. Praticamente parada no tempo, a cidade continua machista, nepotista, oligarca e de mentalidade provinciana. Mas esse retrato parnasiano junto à construção dos personagens fazem do filme uma obra sutilmente questionadora. E tal fato se dá por ter construído um escritor que foi premiado por sua literatura de contos naturalistas, supostamente ficcionais, que falam sobre suas memórias da sociedade local. Seus diálogos trazem um humor sutil, cheio de ironias e conflitos que se tornam uma das melhores coisas da obra.

A direção compartilhada de Mariano Cohn e Gastón Duprat é uma faca de dois gumes. Também diretores de “O Homem ao lado” (2009), eles utilizam uma linguagem documental com pouca variedade de planos. A linguagem fortalecida pela crua, mas bem estruturada direção de fotografia dos próprios diretores, deixa o filme com ar jornalístico. Retratando o dia a dia do escritor em sua rápida volta, há inserções de moradores locais e a bucólica paisagem de Salas. Eles fazem a obra ser um retrato vivo que peca pelo ritmo, tornando-se monótono e cansativo ao longo das quase 2h de filme. Se não fosse o trabalho desenvolvido com o elenco, além de um bom roteiro, muito provavelmente, a obra poderia ser facilmente esquecida.

Com exceção de Oscar Martínez, o Sr. Mantovani, todos os outros personagens são meras passagens ilustrativas, mas alguns merecem destaque. Seja para o bem ou para o mal. Começando pela atriz Andrea Frigerino que nos dá uma Irene submissa e sofrida, mas não necessariamente bem construída. Podemos perceber que ela poderia nos entregar muito mais se ousasse a fugir um pouco do texto e usasse mais o contexto. Dady Brieva vem canastro, mas cheio de detalhes para a brutalidade psicológica de Antonio, que exibe a dualidade entre o que aparenta e o que de fato é. Belén Chavanne, vivendo a jovem Julia, tem uma passagem ousada, mas foi pouco aproveitada dentro da trama. Manuel Vicente é o El Intendente, o prefeito, atual da cidade, que esboça traços de boa vontade alinhada ao falso carisma político que precisa atender as necessidades sociais, não necessárias, dos mais “providos” de Salas. E por fim temos o escritor, o Sr. Mantovani de Martínez com o esgotamento criativo e a monotonia da vida pessoal. Seu trabalho no longa, segue uma linha naturalista e necessária, palpável e extremamente bem pontuada nas nuances físicas e psicológicas de sua persona.

Embora tenhamos poucas passagens relatando os escritos do protagonista não é difícil de perceber o quão incômodo e rico Salas foi para seu trabalho. Como um todo, “El Ciudadano Ilustre” (título original do filme) não é um longa memorável, mas se torna interessante. Sua consistência vem mais pelas construtivas críticas político-sócio-econômicas do que como um drama em si. Alinhar uma visão documental, numa estrutura visual jornalistica, com a ficção é um trabalho complicado, mas a ousadia em fazê-lo também merece seu mérito.

Crítica: O Cidadão Ilustre
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