O cinema sul-coreano está vivendo o seu melhor momento. Desde os anos 2000, a quantidade de filmes produzidos no país vem aumentando, conquistando o mercado nacional e também caindo nas graças no público internacional, principalmente através de sua constante participação em festivais como Cannes e Veneza. Um dos nomes notáveis desse cenário, apesar de não ser tão bem sucedido comercialmente, é Hong Sang-soo, um diretor conhecido por seu estilo único e naturalista. Em 2017, Sang-soo dirigiu e lançou três filmes, sendo o último deles “O Dia Depois”.

A trama segue Kim Bong-wan (Kwon Hae-hyo), um escritor e dono de uma editora que está traindo sua esposa (Jo Yoon-hee) com sua ex-secretária (Kim Sae-byeok). No dia em que ele contrata uma nova assistente, Song Ah-reum (Kim Min-hee), sua mulher descobre do caso e, ao chegar na editora, confunde a novata com a amante.

A premissa básica pode parecer a de uma comédia sitcom, mas o roteiro, escrito também por Sang-soo, a trata com seriedade e até com um pouco de melancolia. O foco do longa é em estabelecer a personalidade do protagonista e a sua relação com as três mulheres, e isso é realizado principalmente através do diálogo, com as ações sendo apenas uma causa ou consequência do mesmo. Seguindo o estilo do diretor, essas conversas emulam o modo como a situação se desenrolaria na realidade, sem exageros.

Esse realismo também é muito bem representado pela direção, que se mantém minimalista. Ao contrário da “norma” da montagem dramática, que priorizam close-ups para mostrar a reação dos atores, “O Dia Depois” prefere usar planos mais abertos, quase sempre com mais de um personagem visível, passando a emoção da cena como um todo.

Mas o principal recurso do diretor para transmitir a ideia de realidade são seus planos longos e cenas sem cortes, com algumas chegando a ultrapassar os 10 minutos. Além disso, a movimentação da câmera também é mínima, usando bastante de zooms e panorâmicas, mas nunca saindo do lugar. Essa estética acaba colocando o telespectador quase como em um ponto de vista subjetivo de alguém que estaria, por exemplo, sentado na mesa junto com os personagens.

Essa naturalidade também é alcançada graças à atuação, que dizem tanto com o seu silêncio quanto com suas falas. A falta de cortes evidencia bastante as pausas nos diálogos e o modo como os atores portam seus personagens, principalmente em meio a discussões sobre vida, morte e filosofia. Combinando tudo isso com uma bela fotografia em preto e branco, a produção cria um tom melancólico que encaixa perfeitamente com o roteiro.

Porém, se a produção acerta em todos esses aspectos, ela peca na montagem. No inicio, cenas de flashback são intercaladas com cenas do presente, porém, sem nenhum indicativo de que se passam em tempos diferentes, resultando em uma sequencia que é mais provável de deixar o telespectador confuso do que curioso. Também é duvidosa a escolha de não usar trilha sonora em quase nenhuma parte do filme, mas colocar uma música triste padrão de sintetizadores toda vez que algum personagem começa a chorar. Esse uso da faixa, semelhante ao que fazem em novelas, torna trechos sérios do longa em não intencionalmente cômicos.

Recentemente, Hong Sang-soo admitiu que traia a sua esposa com a atriz Kim Min-hee. Com isso em consideração, a temática de infidelidade do filme, ainda mais com a história ilustrando a perspectiva do homem adúltero, deixa a produção com um ar de “autoficção”, com a figura de Bong-wan representando indiretamente o próprio diretor, mas que não é pretensioso ou apologético.

No fim, “O Dia Depois” é mais uma produção sul-coreana certeira, que demonstra muito bem o estilo e a estética de Sang-soo (o “Woody Allen coreano”, por assim dizer), e, enquanto provavelmente não vai ser o sucesso que o botará no mainstream, é um filme sólido que afirma sua posição no cinema “cult”.

Crítica: O Dia Depois
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