Na Finlândia de 1962, Olli Mäki (Jarkko Lahti), um padeiro que participava de lutas amadoras no cenário underground da pequena cidade de Helsinque, é convidado para se juntar ao time de pugilistas consagrados, na final do campeonato mundial de boxe, sob a categoria peso-pena. Olli enfrentaria o campeão Davey Moore (John Bosco Jr.); e a vitória em tal luta o elevaria ao status de campeão mundial, prêmio inédito, tanto para o país, quanto na vida do lutador.

Assim sendo, O dia mais feliz na vida de Olli Mäki” (Hymyilevä mies) – que tem estreia prevista para o dia 03 de agosto – poderia ser uma obra que traz mais do mesmo, de um tema recorrente, como as clássicas composições estilo Rocky Balboa. No entanto, a proposta do diretor Juho Kuosmanen, faz com que o filme fuja dos padrões comuns pertinentes ao tema.

A começar pelo enredo, que até visa mostrar toda essa preparação – técnica e psicológica – dos lutadores. Mas o fato é que o script vai muito além desses pormenores; Kuosmanen retira a glamourização que gira ao redor das lutas e dos pugilistas, e passa a mostrar como as coisas funcionam por trás desses mecanismos que visam angariar um apresso mais popular quando o assunto é o boxe.

E nesse cenário, encontramos Olli Mäki. Vindo de uma vida simples e com desejos tão simples quanto ele, Olli é pego de surpresa quando recebe o convite. Sua timidez faz com que não saiba reagir a isso, e a essa gama de novidades que agora o cercam. Os treinos, as entrevistas, as coletivas de imprensa e as festas que tem que participar para poder fazer-se notar nesse novo metiê, fazem parte de um campo totalmente novo e inexplorado do protagonista.

Ao seu lado temos duas figuras centrais e completamente dispares entre si. Raija (Oona Airola) é seu braço direito e seu grande amor. Mulher de personalidade forte – sem perder a maneira moleca de ser – ela o acompanha em um primeiro momento nessa fase de novidades, fazendo-se único elo entre sua vida nova e aquela que ele acabou de deixar para trás.

Já seu técnico/treinador/empresário é o oposto de Raija (Oona Airola). Ele sonha para Olli, além da vitória (claro!), uma vida de glamour, fama e sucesso. Quer fazer do pugilista um marco na história de Helsinque e não mede esforços para que isso aconteça. Elis (Eero Milonoff) passaria facilmente por um vilão, se cá fossemos fazer essa distinção entre mocinhos e heróis. Mas o que acontece no seu caso – e em quase todo o enredo – é que ele cumpre o seu papel de empresário que quer ser bem-sucedido. Deseja tornar Olli um campeão e acredita que qualquer coisa ou pessoa que venha desvirtuá-lo desse caminho seja uma ameaça.

E assim, temos o primeiro impasse no filme quando Olli se muda para casa de Elis com a finalidade de deixar-se ser treinado 24 horas por dia, sete dias na semana. O que Elis não esperava, é que o pugilista levasse à tira colo a amada Raija. Uma distração consideravelmente perigosa aos olhos do empresário.

A direção de Kuosmanen ateve-se a detalhes curiosos para construir o cenário que cercava a vida do pugilista. A começar pela fotografia que é toda em preto em branco. Sim! Não há detalhes coloridos em nenhum momento desse desenlace. A década de 1960 nos é retratada como um movimento típico do Novelle Vague francês.

Raija, por exemplo, tem uma elegância peculiar da época proposital dos clássicos nesse estilo. Usa colares de pérolas e tem um “brancor” atípico no sorriso. Seu figurino é sempre formado de vestidos mais recatados e floridos, o que contrasta diretamente com sua forma de pensar. Uma mulher de época, mas com a cabeça muito à frente do seu tempo. É ela também, que traz ares mais modernos.

Ainda nesse contexto sobre a fotografia, o filme é todo nos apresentado em primeiro plano. Tudo de importante que acontece, ocorre em closes que fazem os rostos dos atores preencherem a tela do cinema. Com isso, o plano de fundo está sempre desfocado. Não há distrações desnecessárias e o expectador não se perde com o passar das cenas. Cenas, estas, que também não se estendem para além do recado que pretendem passar. É tudo muito conciso, e isso definitivamente é um detalhe que conta a favor da obra.

A trilha sonora de Miika Snåre e Laura Airola é algo curioso a ser mencionado: apesar das semelhanças com Rocky Balboa se aterem somente à temática da obra, logo no começo do filme, ainda nas primeiras cenas, no qual não há falas e somente uma apresentação prévia dos personagens, a música Häävalssi tem uma melodia que talvez nos entregue que sim, senhores… é um filme sobre boxe.

“O dia mais feliz na vida de Olli Mäki” é um longa Finlandês, Alemão e Sueco. E retrata como uma pessoa simples, apesar das mudanças que a vida lhe proporciona, consegue manter-se fiel aos seus preceitos. Constrói o amor de maneira muito singular, pura, sutil e ingênua. Olli tem prazer em jogar pedrinhas no lago para ver quantos quiques ela vai dar até afundar. Joga dados porque isso diverte Raija e a faz sorri. Mostra que o dia mais feliz na vida de alguém é aquele em que ela consegue entrar em comunhão consigo mesma.

Para quem desejar desmitificar todo o fascínio e elegância que existe por traz das lutas de boxe. Para quem anseia conhecer o cenário em que tudo isso é montado e para quem acredita que amor é o único que nos faz ganhar nocautes que ainda valem a pena; bem, fica a Woo! dica para o próximo dia 03 de agosto.

Crítica: O dia mais feliz na vida de Olli Mäki
6Valor Total
Votação do Leitor 0 Votos
0.0