Crítica: O Labirinto do Fauno

Fábulas são sempre um mistério que muita gente não entende ou compreende. As pessoas podem gostar ou achar bonitinho, mesmo não tendo a total visão do que elas representam. E “O Labirinto do Fauno” está exatamente nesse contexto.

O filme, de 2006, está registrado no momento histórico de 1944, depois do fim da 2ª Guerra Mundial, porém, enquanto a Espanha ainda tentava controlar uma guerra civil dentro do país. Ele acompanha a menina Ofélia e sua mãe, que viajam até onde está o novo padrasto da menina, poderoso capitão do exército, que tenta com métodos violentos dominar os rebeldes que ainda persistiam em uma região mais afastada.

Enquanto Capitão Vidal, o padrasto, aterrorizava a todos, incluindo a própria Ofélia, ela entrava em uma fantástica aventura para salvar a vida da mãe e provar que era a princesa que havia fugido de um reino encantado, através de testes que o mundo fantástico impunha a ela, e conforme ela ia cumprindo, mais tenso ia ficando, fazendo um paralelo com a vida que ela via no mundo real.

É justamente ao trabalhar a parte fantástica do filme que há as maiores vitórias dele. O Labirinto do Fauno é incrível em sua narrativa, agregando uma história encantada e ao mesmo tempo aterrorizante. Não à toa, muitas vezes o longa foi colocado como uma história de Terror e indicado para quem procurava uma boa produção assim. Ele também não perde em nada quando mostra o cruel mundo real, com alguém tão sádico quanto o Capitão Vidal. A falta de humanidade do fascismo, como vemos ali, é bem verdadeira e nenhum pouco inventada. Ela existiu mesmo e muita gente foi vítima dela.

O roteiro é simplesmente delicioso de acompanhar. A história se sustenta a cada momento, acompanhando Ofélia com precisão e delicadeza, não se perdendo em sua brava e dura aventura. Mesmo como criança, a percepção que ela mostra aos dois mundos é excepcional. Ainda que esteja envolvida em se tornar a princesa perdida de um mundo encantado que só ela conhece, com um fauno que só ela vê, a menina não se desconecta totalmente ao ser protegida das maldades do capitão pelos empregados do mesmo, que secretamente lutam contra ele e contra seu regime fascista. Os dois são contrapontos que vivem no mundo real histórias diferentes: enquanto ele é cruel e sanguinário, capaz de destruir quem vê pela frente, ela é sonhadora e justa, lutando por si, pelo irmão e pela mãe.

O elenco está afinadíssimo na execução do filme. Ivana Baquero, faz com precisão a menina que ora tem todas as responsabilidades do mundo em seus ombros e ora é apenas uma criança de 10 anos. Criar empatia com ela é muito rápido e preciso. Sergi López, como o Capitão, está a própria encarnação do mau, do cruel e desumano. Sabemos porque ele termina assim, mas nem por isso o justificamos porque sua postura ao atuar não deixa essa margem. O embate dele com Ivana é o grande fator do filme e ambos conseguem cumprir com muita emoção as exigências do roteiro e da direção.

Mas, mais que os atores, esse filme não funcionaria não fosse o quarteto Trilha Sonora, Fotografia, Arte e Maquiagem. A começar pela trilha, que é simplesmente excepcional e casa perfeitamente com a história. Capaz de transformar e transportar pra magia que o roteiro costura com precisão, é o primeiro elemento que te faz viajar, com suas músicas repletas de fantasia. A fotografia é simplesmente belíssima. Um dos maiores acertos do filme, soube traduzir com uma precisão absurda o que Guillermo Del Toro, o diretor, quis passar. Casando com a Direção de Arte, que deu o ar soturno e misterioso, com boas escolhas de paleta de cores nas cenas, transformou o filme na fábula misteriosa da menina que conhecia os dois mundos: o fantástico e o desumano. Fechando com a Maquiagem, que construiu vários dos seres surreais, inclusive o Fauno, de maneira assombrosa. Não havia CGI, nem um ator vestido de verde, enquanto contracenava com Ivana. A equipe montou o próprio Fauno e ele estava impecavelmente presente dentro da cena.

E Guillermo Del Toro soube finalizar com precisão um filme que merece todos os louros que teve, inclusive o título de ser a produção que Tim Burton nunca conseguiu fazer. Não apenas foi responsável pela direção, Del Toro é o roteirista dessa grande produção, e se para alguns esse trabalho é demasiado grande, para ele não foi. O Labirinto do Fauno é, sem dúvidas, um de seus melhores e mais completos trabalhos.

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