Crítica: O Matador

A primeira produção cinematográfica realizada pela Netflix no Brasil não poderia ser mais norte americana. A história de foras da lei e matadores já foi feita tantas vezes que não adianta adicionar o cangaço e o sotaque tupiniquim na equação para que algo de original surja milagrosamente. O cineasta Marcelo Galvão tenta, e só não falha totalmente por causa da beleza com que ele imprime suas imagens em nossas retinas.

A narração em Off, que remete incomodamente a “Cidade de Deus”, é o problema que vem a mente quando pensamos no filme. Não que seja proibido usar narrações do tipo, mas construir todas as suas sequências em forma de “manual” daquele mundo, como no sucesso de Fernando Meirelles, é o que faz “O Matador” perder sua força desde do início. O narrador (que é um contador de histórias apresentado nos primeiros minutos) dá nome aos bois, relata acontecimentos e apresenta os envolvidos (como Buscapé) mas sem o aprofundamento dos personagens, tão importante para que pudéssemos entender o contexto da situação e nos importarmos com seus destinos.

Há problemas de montagem ou mesmo de direção em interromper sequências sem que haja uma resolução para o que foi iniciado, mesmo que de forma subjetiva. Por isso, não sabemos o que acontece a personagens que tem suas histórias traçadas mas não definidas, sumindo como mágica. Mesmo para elementos chave, como Sete Orelhas (Deto Montenegro, mudo) que possuem um começo, meio e fim na narrativa, tudo é muito vago e vazio, não trazendo sequer justificativas plausíveis para seus atos.

As atuações de alguns atores são caricatas demais, embora essa caricatura seja o propósito de suas existências. Talvez o maior problema esteja no protagonistas Cabeleira, vivido pelo ator português Diogo Morgado. Sua mistura de homem das cavernas com cowboy é vergonhoso de fazer corar, apesar de ter gerado risos em alguns momentos. Dentre os arquétipos o mais competente é, sem dúvida, Paulo Gorgulho e seu Tenente Sobral. O ator se esforça em conferir sofrimento em suas expressões e acerta na construção de um sujeito consumido pela vontade de vingança. O nome de Mel Lisboa está nos créditos, mas, não a encontramos em cena. Maria de Medeiros possui um papel tão insignificante que poderia ser entregue a qualquer iniciante, e não a uma atriz já tão conceituada.

Como dito no início, “O Matador” só não é um desastre total pela enorme capacidade com que Marcelo Galvão e seu diretor de fotografia Fabrício Tadeu possuem em criar imagens memoráveis. Com certeza os dois aprenderam muito assistindo os westerns clássicos. O nordeste árido é perfeito para as lentes de Tadeu, já que a poeira é quase palpável nas roupas e nas peles, com o amarelo tomando conta de quase tudo. Os habituais planos e contra planos de duelos de pistolas também estão presentes, mas com a vantagem de ter ao fundo cidadezinhas que parecem que vão desabar a qualquer momento, devido sua fragilidade. Se houvesse uma história realmente relevante em “O Matador”, a estética não seria apenas a única a ser apreciada.

* Filme assistido na 41ª Mostra de Cinema de São Paulo. A estreia oficial está marcada para o dia 10 de novembro na plataforma de streaming Netflix.

 

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