A série que se perdeu no nevoeiro

A mais nova minissérie da emissora Spike, “The Mist” (O Nevoeiro), foi uma decepção em diversos quesitos. Por mais que traga consigo o grande nome de Stephen King por ser uma adaptação de um de seus contos, caso o autor da obra original parasse para assistir, consequentemente, terminando ou não, os dez episódios, iria imediatamente para o bar mais próximo e afogaria seu descontentamento na bebida.

(OBS: A partir de agora conterá alguns spoilers. Caso queira dominar melhor  a série, antes de ler a crítica, clique aqui)

A narrativa atualizada para o mundo contemporâneo, em si, não foi totalmente desastrosa. Questões como estupro, homossexualidade e preocupação com a própria imagem são temas extremamente importantes a serem retratados, não importa qual seja o contexto. Contudo, esses assuntos que, até hoje, encontram-se bastante polemizados, precisariam estar em um plano um pouco mais importante do que sendo colocados do jeito que foram.

A vítima da agressão, Alex (Gus Birney), ficou abalada no dia seguinte, mas nada que um novo trauma – como ficar presa dentro do shopping por causa do nevoeiro – ou a péssima interpretação da atriz não resolvam; a sexualidade do melhor amigo da adolescente principal, Adrian (Russell Posner), foi de um descaso absoluto dos criadores, pelo simples fato de que jogar uma trama em que ele vive um romance no hospital com um menino desconhecido até então – os telespectadores precisam raciocinar sozinhos de que eles se conhecem da escola – e, no caso da mãe de Alex, Eve Copeland (Alyssa Sutherland), do modo que apresentaram a história da personagem e o drama entre ela e o marido em relação a sua reputação de menina vulgar no passado foram mal elaborados.Além desses temas interessantes, porém trabalhados como se tivesse sido feito por um adolescente no dia anterior a entrega da lição, temos as características nebulosas de alguns personagens. No caso da vizinha dos Copeland, Nathalie (Frances Conroy), fica difícil entender se ela já estava senil por conta da idade ou se era uma espécie de transe em que a mesma se encontrava por conta de suas crenças sobre a Natureza. Conforme os episódios vão sendo, definitivamente, arrastados, sem conteúdo relevante em, pelo menos, cinco; a confirmação de que Nathalie viria para irritar os fãs da série com seu jeito confuso e louco de falar foi realizada. Os atritos da habitante de Bridgeville com o padre foram bastante revoltantes, principalmente, pelos dois estarem equivocados.

Outros personagens que, até mesmo após o final, não é viável compreender se são do bem ou do mal seriam Bryan Hunt (Okezie Morro) e Mia (Danica Carcic). Desde o início, ambos foram exibidos com caráter duvidoso. Bryan, que acorda no meio de uma floresta e vestido com roupa de militar, demonstra não se lembrar de quem era e o que fazia ali. Depois, quando ele se machuca durante a viagem até o shopping, ele acaba encontrando um homem no hospital que recordava dele e não tinha lembranças boas a seu respeito. Até aí, é justificável de que ele possa ter sido alguém ruim no passado, mas disposto a mudar, visto que ele poderia ter sido abandonado naquele local pelo resto de seus colegas. Contudo, o final desse personagem fica mais aberto impossível para que todos fiquem sem saber quem é Bryan Hunt.

Quanto a Mia, logo de primeira, nos é retratada como violenta após matar um cara desconhecido em um estábulo esquisito. Posteriormente, ela continua vagando misteriosamente, indo atrás de uma bolsa cheia de dinheiro em uma casa que não seria dela e que, até aquele momento, seria de uma “ conhecida”. À medida que sua trajetória é desenhada na trama, percebemos que a simples conhecida seria sua parente e que não tinha uma boa relação com a ex usuária de drogas. Novamente, assim como seu colega e interesse amoroso Bryan, ela é tida como uma pessoa apenas confusa, viciada e sofrida pelo relacionamento inacabado com a mãe. Contudo, se ela fez péssimas escolhas no passado e até se era bandida, fica para uma próxima vez.Sobre o resto da ficção, que havia mudado bastante a obra original, incluindo diversos cenários e, assim, mais personagens aleatórios, não é viável salvar muitos pontos em meio aos destroços. Ademais, a falta de explicação para o motivo do nevoeiro existir e o que estava acontecendo com as pessoas que sumiam nele ficou solta, perdida no meio da nuvem cinza. A cena final, que todos esperam como sendo a que resumiria ou deixaria alguma brecha para ligarmos os pontos, é apenas tão confusa e decepcionante como o resto da série.

Agora, presente na Netflix, muitos ainda cairão nesse penhasco por lerem o nome do gênio Stephen King atrelado a ela. Contudo, repetindo: não é tão baseada assim, somente pelo personagem principal ser o nevoeiro. Obviamente, o responsável  por esse serial killer místico e abstrato foi apontado e o caso foi solucionado no livro. Ou seja, se é de interesse o tema, vá a livraria mais próxima e ache o conto que, efetivamente, vale mais a pena.

Segundo os responsáveis pela obra, “The Mist” terá uma segunda temporada caso seja bem recebida, mas, da forma que a primeira foi realizada, a salvação de uma continuação já não é mais viável nem de ser desejada.

Crítica: O Nevoeiro
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