Crítica: O Roubo da Taça

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Quando comparado a outros filmes hollywoodianos de grandes roubos, “O Roubo da Taça” fica com um aspecto ainda mais fanfarrão, até porque é uma comédia, não uma ação ou um suspense. No entanto, a obra se destaca dentro de seu próprio gênero devido a sua elaboração. As risadas que arranca do público não são piadas prontas de filmes pastelão, de uma forma geral a parte cômica se deu devido a essência patética de seus personagens, que não são caricatos ou clichês. Na verdade são muito bem construídos, mas errantes por natureza. Até o papel mais estereotipado da mulata gostosa, interpretada por Taís Araújo, foge da banalidade, do que seria apenas visualmente bonito e criado para cultuar o personagem principal masculino, e ganha um caminho próprio dentro do enredo.

Afinal, a narradora do filme é a própria Dolores (Taís Araújo), ela faz a introdução ao público de seu marido e amor da sua vida, Peralta (Paulo Tiefenthaler). Ele, típico malandro de quinta categoria e cheio de dívidas de jogo, é quem vai arquitetar junto com seu amigo Borracha (Danilo Grangheia) o roubo da taça Jules Rimet. Na verdade, os ladrões pretendiam levar a réplica feita de ouro, mas por uma questão de administração da CBF era a original que estava exposta e a outra estava segura no cofre. Com isso o caso ganhou uma repercussão muito maior do que eles esperavam e os dois passaram a ter até certa dificuldade em se livrar da mercadoria.

O filme é muito bom. O elenco está maravilhoso, dele se destacam: Taís Araújo, fazendo uma personagem completamente segura de si quando está longe do espelho, mas sempre vacilante diante da própria imagem, uma dualidade interpretada com delicadeza e muita realidade; Paulo Tiefenthaler, executando expressões faciais e trejeitos que agregam ao personagem características hilárias que conseguem fugir do óbvio; e Milhem Cortaz (Cortez) dando vida ao detetive claramente frustrado com o trabalho, que vive uma vida solitária e, talvez, infeliz. Com tantos atores fazendo um bom trabalho a história não pôde ficar mal contada, ainda mais com a edição feita de uma maneira fácil de acompanhar e bem direta. Apesar de precisar fazer uma recapitulação de alguns acontecimentos históricos o roteiro não se perde de seu objetivo, mantém o foco no que é essencial para a história, sem sobrecarregar o espectador.

Como tudo se passou em 1983, foi necessário criar todo um ambiente retro. Assim, até o aspecto da imagem na tela parece ter retrocedido um pouco. Os figurinos e o cenário estão de acordo com a década que remontam e durante a sessão nenhum erro de continuidade foi notável. Mas, como nem tudo é perfeito, o enredo começa a ficar cansativo a partir da segunda metade para o final. Isso se deu porque a comédia tomou a narrativa por inteiro e mesmo que essa seja a intenção da obra, não se pode esquecer que tem um roubo de um item muito importante inserido no contexto. Mesmo assim a investigação em torno disso ficou em segundo plano e poderia ter sido muito melhor explorada no final da história, quando a comédia já estava um pouco maçante e havia espaço para uma análise mais bem construída, mesmo que isso não tenha acontecido na realidade. Afinal, o desfecho dessa história toda na obra é irreal.

Porém o que realmente aconteceu com a taça ninguém até hoje sabe, apenas especula-se. No entanto, como uma boa parte dessa história de fato aconteceu, fica aquela dúvida sobre o que é verdadeiro e o que foi inventado. Segundo o próprio diretor, Caíto Ortiz, as partes mais malucas do filme foram as que efetivamente aconteceram, como, por exemplo, a taça estar exposta protegida por um vidro à prova de balas, mas esse mesmo vidro ter sido colocado em uma moldura de madeira mal presa e de fácil extração.

Por Mariana Baptista

Crítica: O Roubo da Taça
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