Com casa cheia, a Ocupação Rio Diversidade, encerrou sua temporada no Teatro Sesi Centro, no último sábado (11/02). Tratando de questões relacionadas à sexualidade e identidade de gênero, propôs ao público uma reflexão contundente sobre a importância de se discutir e dar visibilidade às pautas LGBTs.

O espetáculo é composto por 4 monólogos costurados pela apresentação da MARAVILHOSA Magenta Dawning. A cicerone dialoga com o público do começo ao final, sempre esbanjando carisma, bom (e ácido) humor e talento (sim! Muito talento!). Uma voz sublime em um corpo montado com um figurino “pele e brilho” deslumbrante (tal qual a própria). Responsável por aquela sensação boa de acolhimento, Magenta abraça a platéia e é também responsável pelo exato equilíbrio entre os densos monólogos.

As esquetes abordam diferentes pautas recorrentes na vivência dos LGBTs. Números impecáveis que tratam de temas tão difíceis de forma profunda, direta, clara e emocionante. O espetáculo, enquanto conjunto, consegue despertar no expectador a empatia não só com as problemáticas que envolve não ser heterossexual em uma sociedade preconceituosa, como também, trabalha as questões de gênero e identidade. Fala sobre repressão, infelicidade e direitos… Sobre o indivíduo e o ser social (e todo abismo que pode existir entre eles).

“Genderless” é o primeiro número da noite. Sob a direção de Guilherme Leme Garcia, Larissa Bracher conta a história de Norrie Way-Welby: a primeira pessoa no mundo que foi reconhecida legalmente como sem gênero. O texto de Márcia Zanelatto discute a intolerância social na imposição de moldes e padrões na identidade gênero. Algo que para boa parte da comunidade soa natural, para aqueles que não se reconhecem como homem ou mulher (ou ambos) se torna motivo para uma vida de sofrimento em busca de aceitação. E nos restam as dúvidas: o que é natural? O enquadramento social ou a livre expressão do ser (que em si é um universo completo)? Caber nos documentos ou caber dentro de si, na forma como o indivíduo se enxerga? E mais: O que motiva a tão profunda renúncia a esses anseios? Com argumentação bem estruturada o texto se desenrola trazendo aquele nó na garganta frente aos impasses (internos e sociais) enfrentados por essas pessoas, resumidas na figura de Norrie. A experiência do número é inquietante: ao trabalhar com pouca iluminação e efeitos sonoros nas próprias falas da atriz, a esquete arrepia a quem assiste. A emoção transborda nas falas de Larissa. Primoroso.

Foto: Elisa Mendes

Em “Como deixar de ser”, Kelzy Ecard interpreta (brilhantemente) uma mulher de meia-idade que, após a perda de sua mãe, dialoga com seu gato sobre as tristezas de uma vida casta por medo da não aceitação. O texto de Daniela Pereira oscila entre o drama e um humor quase fúnebre, e descreve de forma densa a relação dessa mulher – criada em um berço religioso – com sua homossexualidade, narrando dores e arrependimentos. O cenário que nos remete a um grande armário, reforça a dor de quem dele não pôde sair, vivendo uma história represada. Dirigido por Renato Carrera, é um trabalho consistente e emocionante.

A penúltima esquete, “A noite em claro”, é baseada na trágica história do diretor Luiz Antônio Martinez Correia, assassinado brutalmente em um evento movido por homofobia nos fins da década de 70. Em cena, Thadeu Matos se entrega na narrativa, demonstrando as inquietações existentes nos dois lados desse episódio doentio. Com direção de César Augusto e texto de Joaquim Vicente, o número conta com efeitos visuais simples, mas capazes de envolver o público em um misto de mistério e revolta. O diálogo só passa a ser compreendido após a metade da cena, quando o cenário se revela intimidador. A triste história é contada com brutalidade, dando a noção exata de uma atmosfera vil. O sentimento conturbado invade a plateia, restando a tristeza de ponderar que tamanha brutalidade não é um fato isolado.

“Flor Carnívora” fecha a noite com leveza espirituosa. O número rebate na flora tabus da sociedade atual. O texto de Joaquim Bilac desenvolve a ideia com uma pegada inteligente, e a direção de Ivan Sugahara, somada à atuação divertida de Gabriela Carneiro, trazem um número orgânico e bem humorado, quase como um “sarro” da visão preconceituosa de uma sociedade que se afasta do natural e se apega aos padrões impostos como naturais (sem de fato serem). A flor Carnívora (personagem de Gabriela) embala o teatro em uma vivência revolucionária, sem perder a doçura. O cenário transmite vida, movimento, mutação. Encerra, assim, deixando o público com vontade de ser essa mudança (que é necessária aqui e agora).

A peça possui um apelo social intrínseco e que deve ser ouvido, compartilhado e defendido. A qualidade dos trabalhos apresentados pela ocupação levam, da melhor maneira, o recado a cada presente… Despertando (ou reforçando) o desejo de dias mais justos e igualitários.

Como extensão do trabalho, o grupo possui uma página no Facebook na qual, além das divulgações, são tratadas e discutidas as questões cerne do espetáculo. E assim, reafirma seu papel nesse contexto de resistência. E para nós, ficará a vontade de vê-los ocupando mais espaços, e levando este trabalho a mais e mais cabeças pensantes.

VIVA A DIVERSIDADE!!!

Crítica: Ocupação Rio Diversidade
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