Crítica: A Origem do Dragão

Ator, diretor, argumentista e produtor, Bruce Lee marcou uma geração. Com a grande visibilidade de filmes como “O Dragão Chinês” (The Big Boss, 1971), “A Fúria do Dragão” (Fist of Fury ou The Chinese Connection, 1972), “Operação Dragão” (Enter the Dragon, 1973) e “Jogo da Morte” (Game of Death, 1978), o talentoso sino-americano ajudou a introduzir no Ocidente as artes marciais. Nem mesmo a sua morte prematura em 1973, com apenas 32 anos, interrompeu seu impacto na cultura popular.

Nas décadas seguintes ao falecimento, cinebiografias e documentários relembraram a trajetória de Lee. Em “Dragão: A História de Bruce Lee” (Dragon: The Bruce Lee Story, 1993), por exemplo, o cineasta Rob Cohen reencena a vida da estrela que dá nome ao filme. Já “Bruce Lee: A Jornada de um Guerreiro” (Bruce Lee: A Warrior’s Journey, 2000), de John Little, reúne entrevistas, filmagens de bastidores e sequências de ação para construir um complexo retrato da personagem. A Origem do Dragão (Birth of the Dragon, 2016) poderia facilmente ser encaixado por engano nesse rol de produções biográficas. O longa-metragem, contudo, afasta-se radicalmente dos demais títulos mencionados.

Ao contrário do indicado pelo título e do anunciado pela publicidade, não se trata de um filme sobre Bruce Lee. Ainda que a cartela inicial explicite inspiração na luta real com Wong Jack Man (Xia Yu), o roteiro, escrito por Stephen J. Rivele e Christopher Wilkinson – indicados ao Oscar por “Nixon” (1995) -, relega o evento a segundo plano e gira em torno do ficcional Steve McKee (Billy Magnussen, foto abaixo) e de sua batalha para libertar a amada Xiulan (Jingjing Qu) de uma facção criminosa. Se um dos grandes méritos da carreira de Lee consistiu em mudar a imagem do homem asiático no cinema norte-americano, aqui a personagem interpretada por Philip Ng torna-se coadjuvante de sua própria história.

Não bastassem os evidentes problemas em apropriar-se da cultura oriental de forma acessória, a produção dirigida por George Nolfi falha ainda em questões técnicas. O montador Joel Viertel, com quem o cineasta havia trabalhado anteriormente em “Os Agentes do Destino” (The Adjustment Bureau, 2011), compromete o competente trabalho do fotógrafo Amir Mokri (O Homem de Aço, Transformers: A Era da Extinção) ao acelerar os cortes. Viertel não respeita a duração dos planos e acaba por criar uma desconexão entre eles. A situação se agrava com a trilha musical de Reza Safinia e H. Scott Salinas, que oscila de um tom a outro para induzir os sentimentos do espectador e acentua assim a desarmonia entre as cenas.

As atuações tampouco contribuem para elevar a qualidade do longa-metragem. Enquanto Philip Ng limita-se à mímese, como se a figura histórica de Bruce Lee pudesse ser reduzida a seus maneirismos, Billy Magnussen fracassa na tentativa de criar uma personagem interessante ou convincente. Um dos poucos sucessos de Nolfi manifesta-se nas sequências de ação. O trabalho conjunto com o coreógrafo Corey Yuen, colaborador frequente de Jet Li, resulta planos visualmente atraentes, bem executados pelo elenco e pela equipe de dublês.

Por um lado, “A Origem do Dragão” jamais consegue compreender ao longo de seus 95 minutos a filosofia por trás da luta que apresenta. Trata-se, afinal, de uma visão estrangeira, prejudicada ainda por uma montagem acelerada, atuações caricatas e diálogos mecânicos. Por outro, no entanto, ao menos alcança uma vivacidade em seus momentos finais graças à sincronia dos corpos em conflito. Talvez apenas neles consiga recompensar a atenção do espectador, antes frustrado com a desinteressante história de Steve McKee.

*O filme estreia dia 28, quinta-feira.

 

Crítica: A Origem do Dragão
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