Excelência na cozinha

Algumas experiências marcam tão profundamente a nossa vida que precisam de outra que sirva como fase de transição ou superação para que se comece uma nova etapa. É o que acontece com Hortense (Catherine Frot), cozinheira de alto nível que um dia é buscada em sua casa em Périgord, no interior da França, e levada a Paris, onde deverá trabalhar para um importante funcionário do governo. Somente ao chegar ao Palácio do Eliseu é que é informada de que a pessoa em questão é nada menos do que o Presidente da República (Jean d’Ormesson). Hesitante a princípio, reluta a aceitar o cargo, mas finalmente o faz, e isso mexe com sua vida durante um par de anos.

O longa começa justamente com o encerramento da “fase de transição” de Hortense: seu trabalho na Base Científica Alfred Faure, no Arquipélago de Crozet, onde cozinhou por um ano para os envolvidos em uma missão na Antártida. A abertura mostra o mar revolto, e então uma dupla um tanto atrapalhada (mas sem comicidade) formada por um cinegrafista e uma repórter que tentam documentar a expedição para a tv australiana. Aliás, o papel da jornalista (interpretada por Arly Jover) parece um pouco sem função no filme, exceto pelos cortes secos que recebe de Hortense, embora esta suavize um pouco sua atitude mais adiante.

Catherine Frot construiu uma personagem de personalidade extremamente forte. Nota-se que sempre foi assim desde o começo, quando ainda morava em sua fazenda; mas o fato de ter um cargo importantíssimo no Eliseu parece ter aumentado muito o seu ego. No entanto, ela jamais poderia fraquejar, pois desde o início sofreu hostilidade da cozinha central, formada unicamente por homens que a olharam de cima a baixo com ar de deboche. Impor-se em um meio masculino não é para as fracas.


O filme alterna cenas da vida de Hortense na base e no palácio, com predominância no que ocorre neste último. A câmera acompanha o deslocamento de Hortense pelas dependências do Eliseu, quando faz sua primeira visita, dando a sensação de dinamismo e rapidez: ali tudo parece urgente e há muito a se fazer o tempo todo. Antes disso, a viagem de carro e de trem de Périgord até Paris é sublinhada por uma música acelerada que deixa claro como tudo aconteceu de forma rápida e inesperada em sua vida. O acompanhamento dos personagens pela câmera enquanto caminham é uma constante no filme. Quebrando tanta agitação, é possível deleitar-se com os planos detalhe do preparo dos pratos. Os diálogos entre a cozinheira e seu assistente Nicolas (Arthur Dupont, que soube aproveitar muito bem seu papel) devem agradar muitíssimo aos amantes da gastronomia.

Um momento de respiro no filme é a conversa entre o presidente e a cozinheira. Jean d’Ormesson criou um presidente que certamente irá inspirar afeto por parte dos espectadores, por transmitir nas cenas com Hortense uma certa simplicidade e doçura que não se espera geralmente de um chefe de Estado. O fato de preferir pratos no estilo dos que sua avó fazia e o modo como fala dos livros de receitas antigos, que davam instruções em uma linguagem que mais se assemelha à literatura, é particularmente cativante. O roteiro, de Christian Vincent – também diretor – e Etienne Comar, é baseado livremente na vida de Danièle Mazet-Delpeuch, que na década de oitenta foi a cozinheira particular de François Mitterrand. No entanto, houve o cuidado de não nomear o presidente no filme, nem mesmo de forma fictícia. A propósito, d’Ormesson é escritor e membro da Academia Francesa.

“Os sabores do palácio” pode agradar tanto a quem gosta de cozinhar quanto àqueles que apenas degustam mas apreciam ver a preparação meticulosa dos pratos; e também aos que gostam simplesmente de uma história bem contada.

Crítica: Os sabores do palácio
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