Crítica: Paz, amor e muito mais

Cinema, maconha e galinhas

Parece ser bastante comum o fato de que filhos de hippies rebeldes e doidões sejam pessoas conservadoras e caretas. Talvez tenham, ironicamente, desejado limites que não lhes foram dados, ou não souberam lidar com a liberdade reinante em casa. O ser humano é curioso: por mais que deseje a liberdade, às vezes se atordoa por não saber o que fazer com ela. Nem todos, porém. Há os que a desfrutam como podem por toda a vida. É o caso de Grace (Jane Fonda) em “Paz, amor e muito mais. Esta personagem homônima da que interpreta na série “Grace e Frankie” é exatamente o seu oposto. À sua maneira, é como se Jane Fonda interpretasse Frankie.

Por vinte anos Grace e sua filha Diane (Catherine Keener) não mantiveram contato, por escolha desta última, que ao se casar não tolerou o fato de a mãe vender maconha na festa. Esta foi a gota d’água para que ela se afastasse e só agora, diante do pedido de divórcio anunciado pelo marido, é que seus filhos Jake (Nat Wolff) e Zoe (Elizabeth Olsen) irão conhecer a avó.

O longa se inicia com a voz em off de Diane reclamando sobre questões de um jantar que está prestes a oferecer. Ouve-se a voz do marido Mark (Kyle MacLachlan) interrompendo algumas vezes, mas ela segue, frenética – até que os atores surgem em cena e Mark anuncia sua decisão. Novamente, o recurso da voz em off é utilizado enquanto apreciamos o skyline de Nova York e ouvimos os convivas numa conversa de cunho intelectual. Eles surgem, a câmera passeia por eles, e o rosto angustiado de Diane aparece.

A intenção do filme é ser leve, então basta de atmosfera pesada por agora. A quebra de clima acontece com a viagem de carro rumo a Woodstock, onde Grace mora. Ainda que haja várias situações conflitantes no filme, a bela fotografia que realça o verde e o colorido do lugar, a locação principal em si, bastante bucólica, e a comicidade natural de Jane Fonda trazem leveza à história. A construção de sua personagem é muito bem feita. Por conta de certas afirmações (“Prefiro não dar nome aos animais. São filhos da natureza, não nossos” e “Não curto a ideia de posse”, quando perguntada se os quadros na parede eram dela), Grace poderia ter descambado para uma caricatura, mas mostra-se uma mulher que realmente acredita em tudo que diz e, embora para a filha ela esteja ainda em 1968, parece viver intensamente seu presente.


Os personagens principais são bem interessantes: Diane é uma advogada tensa, que não abaixa a guarda, como ela mesma admite, e que embora esteja indo para um lugar mais alternativo e informal, segue usando suas roupas clássicas. A rejeição que sente pela mãe parece algo que se perpetua na família: sua filha Zoe também tem questões com ela. Outro conflito interessante da história é que Zoe, vegetariana convicta, se apaixona de imediato por um belo açougueiro. A atuação de Nat Wolff como Jake, um jovem cineasta ainda fazendo suas experimentações (em todos os sentidos, diga-se de passagem), é bastante elogiável por conferir ao personagem senso de humor e uma certa timidez adolescente.

O roteiro de Christina Mengert e Joseph Muszynski alterna cenas curtas de diálogos com momentos que envolvem mais movimentação, como um festival de música e o ritual para a lua cheia. Isso evita que o filme fique arrastado ou focado em uma única situação por muito tempo. A cenografia reflete bem a personalidade de Grace: sua casa é multicolorida e num estilo alternativo – assim como suas roupas – e cercada de muito verde. Até os enormes brincos que usa quando aparece pela primeira vez lembram pequenos tomates ainda no pé. A primeira visão do espectador do interior da casa de Grace são galinhas na sala, e a primeira conversa mais íntima entre mãe e filha foi uma ótima sacada do diretor Bruce Beresford: o enquadramento mostra as duas com uma enorme galinha entre elas, enquanto a câmera se aproxima aos poucos. Cômico, inclusive porque a presença das aves na casa incomoda Diane profundamente.

“Paz, amor e muito mais” não tem grandes pretensões além de divertir, mas alcança seu objetivo, nos transporta aos anos setenta através da trilha sonora e talvez ainda desperte no espectador a vontade de dar um pulinho em Woodstock na próxima viagem a Nova York. É pertinho. Pode crer.

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