Perspectiva cândida narra transição do puro ao infame durante governo genocida de Pol Pot no Camboja.

Angelina Jolie, desde 2005, também cidadã Cambojana, retoma a coação armada como alicerce de maturação de seus protagonistas. Em parceria com a escritora Loung Ung cujo livro homônimo “Primeiro mataram meu pai” relata sua experiência durante a infância com o regime tirânico do Khmer Vermelho, traz a luz das câmeras o despotismo comunista sobre a égide da liberdade.

A apresentação dos meandros políticos no preâmbulo do filme, encharcado de recortes históricos, já não é de hoje, uma alternativa bem articulada que evita (mas não nega) que a sucessão temporal da história mergulhe apenas em uma exposição morosa de acontecimentos.

Quando restringido somente a um carácter documentalista de “causa-efeito”, provavelmente, a observação do fato histórico passa a habitar um campo simplista da investigação. Os resultados, constroem um panorama especulativo da experiência pretérita, Quer queiramos, quer não, a imparcialidade, sempre com um certo ar de virtuosa, pode acabar restringindo um discurso que nos aproxime do objeto contemplado.

O fenômeno cinematográfico aqui ocorre quando as prerrogativas de construir uma obra que trata do contexto social e político de uma determinada época, estranha, hoje, a maioria do ocidente, assume a estética característica do próprio cinema ocidental.

O elenco e a maior parte da equipe de produção, formada por Cambojanos, concede a audiência a sedutora experiência de imersão no acontecimento com a ferramenta lúdica hollywoodiana, onde sons, cores e ângulos panorâmicos, sensibilizam mais pela estética que pelo suporte agravante a atuação. Talvez aqui, uma pequena ponta do filme que acaba nos deixando a impressão de enfadonho demais.

Os planos que focam exclusivamente Loung em cada corte, contam a guerra na face ainda por descobrir os porquês que justificam o abrupto modo como a vida passa do sonho a frustração.

A maneira como Jolie configura esta passagem, explicitamente, tende a nos compadecer com a perda gradativa da pureza de Loung. Os momentos em que a personagem lança longos olhares interrogativos, examinando os novos objetos, pessoas e situações que a acompanharão na nova dinâmica de sua vida.

Interessante observar como Loung (a escritora) insere Loung (a personagem) como uma peça central no ethos da violência que a cerca. O mundo para a pequena de 7 anos, após o exílio de seu lar, ganha contornos que comungam inocência e dor. As cenas latentes de sofrimento: como a fome, o morticínio e a doença não configuram desespero, mas um dissabor suspeito: Em seus 150 minutos de transição, Loung sofre sem desespero.

Trabalhar com semelhanças na memória é verdadeiramente, uma dádiva de poucos diretores. E é aqui que Angelina Jolie acerta em cheio. Para não cair em apenas correlações de passado e presente (o que já seria pesaroso demais se a narrativa fosse a partir de “causa-efeito”), a criança descobre a guerra por trás do conflito político e insurge como soldado sem perder o desejo de docilidade da infância. Um insight digno de louvor que opera em ritmo diferente de filmes que propõem a mesma cosmovisão. Filmes como “A Vida é Bela” (1997), “Beasts of No Nation” (2015),” Terra de Minas” (2015) e “Johnny Mad Dog” (2008) fazem da pureza infantil a arma letal contra a afrontosa violência do espírito humano.

A afirmação da treinadora no campo de formação dos combatentes contra os Vietnamitas não é só assertiva na circunstância em que é aplicada como também nos revela a mensagem crucial que Jolie e Loung passam ao expectador: “Vocês são crianças, por isso, sem mácula.”

Exatamente. No cinema biográfico. Distante das configurações manjadas de se fazer história pela narrativa estrita do fato, divagar pelas origens e consequências do indivíduo inserido no contexto que o cerca, ainda é a maneira mais sofisticada de contar a história do fato a partir da história do agente que participa dele. O cinema agradece.

Crítica: Primeiro mataram meu pai
7.5Valor Total
Votação do Leitor 0 Votos
0.0