Crítica: Projeto Flórida

Em algum lugar da Flórida, o limite entre a magia dos parques de diversões e o significado da infância foi redefinido

Quando criança, existe uma barreira invisível que separa o mundo real daquele que nós desenvolvemos apenas com a própria criatividade de imaginar um lugar ideal, e também, de acordo com o meio familiar e as diferentes amizades que afetam diretamente nesse período de constante crescimento e descoberta. Mesmo que posteriormente as lembranças da infância fiquem cada vez mais escassas com o passar dos anos, elas são extremamente proveitosas quando vivenciadas e em nenhum momento deixam de servir como uma lição para o futuro.

Longe do conto de fadas tradicional propagandeado pelo parque temático Magic Kingdom, localizado no Walt Disney World Resort, mãe e filha vivem em um hotel na beira de uma rodovia movimentada nos arredores de Orlando, e apesar da proximidade física com este universo paralelo, o estilo de vida dos moradores locais e aquilo em que acreditam na prática não tem semelhança.

A inocência que necessariamente faz parte de filmes onde crianças são colocadas como protagonistas, tendo em Brooklynn Prince a atriz mirim principal, Christopher Rivera como Scooty e Valeria Cotto sendo Jancey, vai além daquilo que se assiste em produções deste tipo. Moonee é ativa, brinca, corre, xinga, é apegada a mãe como qualquer outra filha poderia ser, mas vê nos seus companheiros a verdadeira motivação para explorar os escombros daquilo que é o seu próprio reino mágico.

Boa parte de Projeto Flórida” reflete em segundo plano os conflitos como ocorrência de uma degradação maior em que aquele espaço se transformou. Estes são movidos por pais ausentes e mães que precisam ficar em casa tomando conta de tantas outras coisas e também trabalhando para sustentar aqueles que são seus dependentes, seja da forma que for. Personagens de uma história que tem seus encantos, mas que obrigatoriamente possuem seus vilões.

Tentando manter o espectador ao máximo por cima dos acontecimentos que envolvem apenas as crianças perambulam pelo hotel, a direção de Sean Baker, fez da escolha por cada cena envolvendo-as como se fossemos mais um naquele grupinho.  A câmera prevalece abaixo ou na altura dos personagens e sempre em movimento. Existe tempo para focalizar na grandiosidade que aquele lugar oferece, nas possibilidades, a nossa própria imaginação percorre os mesmos ambientes.

Sem mostrar diretamente a distância entre a casa de Moonee e a mãe Halley (Bria Vinaite) em comparação com a entrada do parque, é possível perceber pela quantidade de prédios coloridos, e outros estabelecimentos chamativas. a intenção de arrecadar em cima do grande número de turistas, que não estão muito longe de lá. É como se naquele pequeno hotel, que mais parece um condomínio residencial, fosse o próprio parque infantil, mas ao invés de construções, estão terrenos vazios, casas abandonadas e no lugar de personagens famosos da Disney, um gerente que faz de tudo para manter o local em harmonia, ou uma senhora que insiste em tomar banho de piscina violando todas as regras de convivência.

Para além do lado lúdico, a presença de Bobby (Willem Dafoe) como coadjuvante da trama, onde muito bem ele se encaixaria como um anti-herói para Halley, transforma o seu papel em uma sequência de posições que o colocam como um homem bom para o lado de Moonee e seus amigos, mas não para sua mãe, quando torna-se o cobrador do aluguel que garantirá mãe e filha mais uma semana sob um teto. A interação entre adultos e crianças não foge daquela falta de noção sobre as diferentes idades, sobre diálogos que ficam basicamente em acusações dos dois lados, a falta de paciência dos mais velhos e a certeza de que tudo é possível das crianças.

Não existe um mundo perfeito em Projeto Flórida”, a beleza dessa história é maior e mais profunda do que a narrativa por si só, um roteiro que entrega mais do que se espera, e o melhor, sem exageros. Tudo é lapidado sem a noção de que se está sendo. Uma obra que tem como referência um mundo mágico fictício e o transforma em realidade.

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