Adolescência em crise

Que atire a primeira pedra quem nunca teve uma crise existencial na adolescência, sendo que tem gente que tem essa(s) crise(s) até hoje. Se sentir feio, achar que outras pessoas são melhores do que você, fazer uma besteira por não pensar nas consequências e assim vai uma lista infinita de atitudes comuns nessa fase de vida. Falar sobre esses momentos não são nenhuma novidade mas, às vezes, o filme pode nos surpreender para o mal, como a grande maioria, ou para o bem, como é o caso de “Quase 18” (The Edge of Seventeen).

Escrito e dirigido por Kelly Fremon Craig, o filme nos conta um pouco da vida de Nadine (Hailee Steinfeld) a beira de uma crise existencial. Começando praticamente pelo meio da narrativa onde a protagonista recorre ao seu professor, Mr. Bruner (Woody Harrelson), com quem troca irônicos insultos e poucos elogios, ela invade a sala e diz que vai se matar. Depois disso ela começar a narrar sua vida, desde que pequena para nos explicar o que a fez chegar ali.

Primeiro fala sobre sua infância e quão difícil, segundo ela, era ir viver e ir para a escola. Nesse ponto começamos a entender sua ligação com seu pai, Tom (Eric Keenleyside), sua mãe Mona (Kyra Sedgwick) e seu irmão mais velho, Darian (Black Jenner). É nessa mesma época que ela conhece sua primeira e única amiga, Krista (Haley Lu Richardson), com quem troca confidências e compartilha toda a sua vida. Depois vamos para alguns anos mais tarde quando seu pai, que também era seu melhor amigo, falece. Para enfim chegarmos ao presente, onde Nadine se tornou uma adolescente reclusa e cheia de “impressões” sobre a sua própria vida. Para ela, seu irmão é perfeito e por isso se sente irritada, sua mãe é uma neurótica que não lhe dá atenção e sua única forma de escapar são conversas limitadas com seu professor e sua amiga, que acaba perdendo quando ela começa a sair com seu irmão.

O que pode parecer uma coisa pela divulgação, e também pelo trailer, de fato não é. Alguns podem achar que é uma comédia adolescente, enquanto outros um drama existencial, mas o roteiro de Kelly trabalha uma linha bem tênue entre ambos os gêneros. Ela consegue trazer uma dramaticidade leve, sem muitos arranjos, que não cai no melodrama e não nos faz perder o interesse pela suposta complexidade em ser adolescente. Por outro lado, ela exerce o humor de uma maneira mais arrojada e atual, nos remetendo muito as supostas brigas de adolescentes pela internet, uma espécie de “toma uma indireta, mas é porque gosto de você”.

Sua direção é bem pontuada, embora seja visível que ela deu um foco maior nos personagens de Nadine e Mr. Bruner, deixando os demais um pouco abaixo do que poderia ter sido trabalhado. Outro pecado vem com a resolução do filme, afinal, quem já foi adolescente vai perceber que a sua “ficha” não cai na hora e no dia seguinte a vida segue com você mudando-a. Na tentativa de extrair o sumo da história que queria contar, a diretora e roteirista se perde e tenta fazer com que as coisas se encaixem de forma mais rápida e cômoda.

Com o elenco relativamente regular, temos obviamente os destaques de Hailee Steinfeld, Woody Harrelson e, uma grata surpresa, Hayden Szeto. A atriz e cantora Hailee Steinfeld nos dá um Nadine interessante e transforma o que poderia ser maçante numa narrativa divertida, como bons momentos dramáticos. Ao contrário de Woody Harrelson que passa a maior parte do tempo com a cara fechada, sem muitas expressões, porém, com o tom certo, nos faz rir com o sarcasmo e a ironia de seu personagem que ganha força no decorrer da trama. Já Hayden, que nos é apresentado como um colega de classe de Nadine, faz com que a estranheza e a falta de tato de seu Erwin conquiste nossa atenção.

Black Jenner, ao contrário de em “Jovens, Loucos e Mais Rebeldes”, não dos disse para o que veio e seu personagem facilmente poderia ser feito por inúmeros outros atores, famosos ou não. Kyra Sedgwick não deu um terço de sua capacidade como atriz, embora sua interpretação seja relativamente aceitável, enquanto Haley Lu Richardson segue um tom mais casual, sem muitos atrativos além da docilidade de sua personagem e sua própria beleza.

The Edge of Seventeen (Quase 18) é um filme para toda a família, principalmente para quem tem adolescentes em casa. A trama clichê com personagens nada triviais e controversos, mostra o porque Hailee ser uma das melhores atrizes de sua geração e como, de alguma maneira, conseguimos nos identificar com sua personagem agora que estamos mais velhos. No mundo dominado pelos smartphone e diálogos em emojis, o longa é um interessante retrato de uma geração que se considera loser.

Crítica: Quase 18
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