A estrela sofre

Marilyn Monroe parece ter sido sempre uma unanimidade (ainda que toda unanimidade seja burra, como dizia Nelson Rodrigues) no quesito carisma e sedução. Interpretar tamanho mito em um filme é um risco bastante alto para uma atriz. Michelle Williams teve coragem e competência para encarar o papel, e a abertura do longa foi uma jogada de muita inteligência para conquistar o espectador: um número musical – “Heatwave” – em que Michelle encarna a estrela com tamanha perfeição nos gestos e nos movimentos que o público é fisgado ali mesmo. Se podia haver alguma resistência em relação à atriz, essa cena cheia de charme e glamour faz com que se abra um sorriso e se espere pelo que virá a seguir.

“Todos lembram do primeiro emprego. Esta é a história do meu.” – narra Colin Clark (Eddie Redmayne), um jovem de família privilegiada que insiste em trabalhar no cinema e depois de muita persistência consegue o cargo de terceiro assistente de direção no filme que Lawrence Olivier (Kenneth Branagh) fará com a bombshell americana: uma adaptação da peça “O príncipe adormecido”. O papel da ingênua corista Elsie já havia sido vivido no teatro por sua esposa Vivian Leigh (Julia Ormond), mas Lawrence, também diretor do filme, a vetou por questões de idade.

Kenneth Branagh construiu seu Larry na medida certa, chegando a ser cômico em seus ataques de raiva, frequentemente causados pelos atrasos de Marilyn, as dificuldades da atriz para dar as falas corretamente e a mania de problematizar tudo por estar obcecada pelo método de interpretação criado por Lee Strasberg, muito em voga na época. Andava sempre com sua coach a tiracolo, Paula (Zoë Wanamaker). Zoë criou uma personagem seca e cortante, uma espécie de cão de guarda protetor e adulador de sua pupila.

Ainda sobre interpretações marcantes, temos Judy Dench como Dame Sybil Thorndike, atriz veterana que apesar de sua importância e experiência, não parece se ressentir de esperar horas pela estrela no estúdio. Ainda tenta apaziguar e, sabiamente, propõe que as duas passem o texto juntas, pois, segundo ela, na sua idade é muito difícil memorizar as falas. Dench transmite doçura e sua personagem é um oásis de serenidade no clima tenso das filmagens.

Julia Ormond, mesmo em uma participação não muito extensa, transmite bem a angústia de uma mulher que começa a envelhecer e é substituída por outra mais jovem. Sente ciúmes de Marilyn não apenas por ser a intérprete de um papel que já foi seu, mas também por perceber que embora ele negue, seu marido sente atração pela estrela problemática. Eddie Redmayne, embora ator de alto quilate, não apresenta nenhum brilho particular no filme. Sua atuação é boa e correta, mas considerando a visibilidade do personagem, que consegue penetrar na intimidade de Marilyn, poderia ter sido mais impactante. Emma Watson tem seu primeiro papel após a saga Harry Potter como a assistente de figurino que se envolve com Colin. Suas cenas nessa trama paralela trazem o espectador para a “realidade dos mortais”, o que cria um contraste interessante de se ver.

O longa não apresenta grandes ousadias técnicas. Seu forte é o roteiro de Adrian Hodges, composto por ótimos diálogos. A câmera geralmente acompanha os atores ou são feitas tomadas de cima, mas para a chegada apoteótica de Marilyn no aeroporto a câmera lenta é usada criando uma oposição entre a imagem sensual da diva e o caos que se instala entre os fotógrafos. A recriação dos visuais de época é primorosa, assim como a cenografia.

O diretor Simon Curtis conseguiu extrair de Michelle Williams toda a fragilidade de uma estrela insegura, que embora entrasse constantemente em pânico, no set sentia-se muito à vontade quando cercada por multidões de admiradores. Sentir-se vulnerável não era exclusividade de Marilyn: Olivier também confessa – em uma cena bem dirigida – sua insegurança a respeito das novas tendências e seu medo de ser um ator ultrapassado.

“Sete dias com Marilyn” nos revela a solidão e a falta de confiança de uma atriz admirada por muitos. Isso a aproxima de nós, que apesar de pobres mortais, somos muitas vezes mais felizes em nossas rotinas sem glamour.

Crítica: Sete dias com Marilyn
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