Transgressão é o nome do meio de Harmony Korine. De garoto prodígio descoberto por Larry Clarke responsável por criar o universo sem lei dos adolescentes de “Kids” (1995), à cineasta independente conhecido por chocar o espectador – e nem sempre agradar à crítica – com o ethos de seus personagens repulsivos, sua última produção, “Spring Breakers”, talvez não tenha jovens vendendo carne de gato para o açougue, igual a “Vidas sem Destino” (1997), ou pessoas se masturbando em sacos de lixo, como em “Trash Humpers” (2009), mas mantém o elemento que ocupa lugar de destaque em seus trabalhos: o que fazer para que existir tenha mais sentido?

Para isso, não é bom se enganar. Nas cores vibrantes e nos corpos jovens das quatro protagonistas, cobertos 90 por cento do tempo apenas por biquínis neon, há muita melancolia travestida de euforia.

Faith (Selena Gomez), Candy (Vanessa Hudgens), Britt (Ashley Benson) e Cotty (Rachel Korine) são estudantes universitárias que querem, mais do que tudo, viajar no spring break, uma espécie de “semana do saco cheio” que acontece todo ano nos Estados Unidos, porém não têm dinheiro o suficiente. Assaltando um restaurante para conseguir a quantia, as garotas viajam para um resort na Flórida e após muitas festas regadas a sexo, drogas e álcool acabam indo parar na cadeia. Desesperadas, elas são resgatadas por Alien (James Franco), um rapper e traficante com quem passam a se relacionar, mergulhando ainda mais na criminalidade.

Soando quase como um videoclipe de 90 minutos, estética que o cineasta tem familiaridade e que aqui funciona de forma orgânica já que dá amparo à superficialidade juvenil a qual pretende satirizar, o filme abraça o caótico e o artificial. Korine, por trás da direção e do roteiro, para alcançar seu objetivo não nos poupa da enxurrada de informações. Ao som da batida sintética da trilha sonora composta por Cliff Martinez e Skrillex e ao sabor do slow motion, a narrativa fragmentada faz, exaustivamente, seus pedaços irem e voltarem no tempo, uma mesma cena retorna mais de uma vez sob ângulos diferentes e falas ditas pelos personagens são recolocadas em novos contextos.

A escolha, por mais que às vezes cansativa, é bem conduzida; provoca confusão mental, mas nunca deixa de ser inteligível. O diálogo – na verdade um monólogo, já que nunca ouvimos a resposta – de Faith com a avó para contar que está se divertindo na viagem é reproduzido de três formas diferentes ao longo do filme e no final, declarações como “eu acho que nos encontramos aqui” dizem mais do que a princípio parecem.

Visualmente, o longa também é perspicaz. A fotografia de Benoît Debie, que trabalhou com Gaspar Noé em “Irreversível” (2002) e “Viagem Alucinante” (2009), talvez cai em alguns lugares comuns – cores neon complementares são o mote quase de todo clipe de música pop nos últimos anos -,  mas consegue atuar quase como um organismo vivo. De dia, o calor e a atmosfera litorânea explodem em cores quentes e brilhantes, os jovens se divertem, mas quando a noite cai, a artificialidade das luzes fluorescentes dos postes e dos restaurantes à beira da estrada evoca uma tristeza opressora. O spring break é só uma forma de fuga do tédio, uma porta de saída para preencher uma vida, na realidade, vazia.

Entretanto, como já vimos incontáveis vezes por aí, coordenar estilo e uma narrativa sólida é um desafio que nem todo realizador consegue alcançar (vide o último filme do dinamarquês Nicolas Winding Refn, “Demônio de Neon”). Se para isso, é preciso muita habilidade, ela é o que falta um pouco a Harmony Korine. Mesmo com suas intenções razoavelmente claras e com um desfecho poderoso, algumas vezes temos a sensação de que estamos sendo levados a lugar algum.

Um dos motivos para esse sentimento é que mesmo as personagens sendo a representação genérica de um grupo, não conhecê-las a fundo atrapalha. Tirando a garota interpretada por Selena Gomez, que rapidamente é descartada, mas que conseguimos distinguir por ser insegura e cristã, é quase impossível diferenciar as outras três. Pasteurizá-las enfraquece o final, já que não nos importamos o suficiente com elas para ficar impactados com a subversão de papéis que encerra a produção.

Entre malabarismos estéticos, uns que funcionam outros não (ouvir 400 vezes o voice over de Franco falando “Spring break forever!” chega a dar nos nervos), “Spring Breakers” não é perfeito, mas funciona bem como caminho para colocar o cineasta até então considerado underground, no cinema mainstream. Para além disso, digam o que for: bom ou ruim, a cena de Alien tocando “Everytime” da Britney Spears no piano enquanto as meninas, armadas com shotguns e com o rosto coberto por máscaras de ski cor de rosas, o acompanham, já fincou suas raízes na cultura pop.

Crítica: Spring Breakers
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