Rumo ao estrelato

Há quase três meses atrás, trouxemos as Primeiras Impressões da nova série musical do canal Fox, “Star“. A trama que teria apenas nove episódios, acabou rendendo mais três, totalizando doze em sua primeira temporada. A obra de Lee Daniels e Tom Donaghy, teve sua premiere em dezembro do ano passado e oficialmente começou a ser exibida pela Fox esse ano. Mesmo não fazendo o mesmo sucesso de “Empire“, também de Daniels, a série alcançou a marca média de 4 milhões de espectadores por episódio e garantiu sua 2ª Temporada.

O título da série é o mesmo nome dado a protagonista. Star (Jude Demorest) é uma jovem que foi criada por várias famílias depois da morte precoce de sua mãe, Mary (Caroline Vreeland), por uma overdose. Separada de sua irmã, Simone (Brittany O’Grady), pelo “sistema” de adoção, após conhecer Alexandra (Ryan Destiny), uma jovem cantora e compositora, pelo Instagram, ela decide encontrar sua irmã e ir para Atlanta, para montarem um grupo formado pelas três meninas e alcançarem o estrelato. Porém, já sabemos que nada será fácil.

Para começar, quando Star encontra Simone, ela descobre que sua irmã sofre abusos sexuais de seu pai adotivo, Otis (Darius McCray), e para salvá-la esfaqueia-o e ambas fogem para Atlanta, onde passam a viver em uma comunidade negra, na casa da cabeleireira Carlotta (Queen Latifah), que era amiga pessoal de Mary e há anos buscava o paradeiro das meninas após não ter tido condições de criá-las no lugar da mãe.

Não suficiente, porque drama nunca é demais, Alexandra é filha de um famoso rock star, Roland Crane (Lenny Kravitz), que não se importa com a família nem com o sonho da filha, e uma frustrada e alcoólatra mãe, Rose Crane (Naomi Campbell). Carlotta por sua vez também tem um passado e um presente interessante a se desenvolver, pois ela tem um filho trans, Cotton (Amiyah Scott), é apaixonada pelo pastor de sua igreja, Harris (Tyrese Gibson), e no passado era cantora, dividindo o palco com Mary, sendo empresariadas pelo peruano e problemático Jahil Rivera (Benjamin Bratt) que também acaba se tornando empresário de Star, Simone e Alexandra.

E ainda, para completar a trama – SPOILER NECESSÁRIO – temos outros personagens secundários que no decorrer da trama crescem e faz necessário sua citação por aqui. Derek (Quincy Brown) é o jovem vizinho de Carlotta, que mora com sua avó e costuma reunir pessoas para fazer protestos e movimentos pacíficos contra a violência policial sobre os negros de Atlanta. Com sua proximidade, ele acaba se tornado o affair de Alexandra que obviamente não é aprovado por sua família. Entre os muitos problemas que Jahil se mete, um deles foi a entrada clandestina/tráfico de mulheres latinas para os EUA e é nesse momento que ele conhece Eva (Sharlene Taulé) que sem ter para onde ir, acaba encontrando com o peruano um refúgio para se estabelecer. Também, entre os contatos de Jahil está Arlene (Nealla Gordon) que cuida da fortuna de seu filho quarterback, Hunter (Chad James Buchanan) e tem uma passado sombrio com seu ex marido. A questão é que seu filho começa a demonstrar ter os mesmos problemas que o pai e o fato dela não gostar de Star, com quem ele passa a ter um relacionamento, a faz desejar a separação do casal pelos mais diversos motivos.

O fato da série ter sido criada por Lee Daniels e Tom Donaghy, fazem com que os roteiros finais também fossem assinados e aprovados por ambos, mas a equipe é longa. Gladys Rodriguez é a unica que assina 11 dos 12 episódios, enquanto Dentria Harris-Lawrence, Kimberly A. Harrison e Jessica Sharzer, com 2 episódios cada, e por fim Tom Westfall, Charles Pratt Jr, Jamila Daniel, Gerald Cuesta e Arabella Anderson com 1 episódio. Embora o elenco de escritores seja diversificado, a realidade em termos mais mulheres na equipe criativa trazem um resultado visível à tela. Os holofotes são delas e são poucos personagens masculinos que possuem a oportunidade de se destacar, seja para o bem ou para o mal. O que podemos afirmar em alto e bom som: Que ótimo! Seria no mínimo esquisito, uma série sobre três garotas que sonham com o sucesso na industria musical, enfrentam os mais diversos problemas por serem mulheres – dentro e fora do showbiz – tendo mulheres como referência e os homens tivessem mais importância.

Mas o que não podemos dizer é que os roteiros possuem uma estrutura impecável e/ou diálogos inesquecíveis, embora muitas vezes de extrema necessidade. Com relação a isso, há alguns pequenos percalços, como dinâmica e ritmo. A série só começa a crescer quando os outros personagens ganham força e influência para movimentar a vida as protagonistas. E isso acabou sendo um pouco tardio, uma vez que seu desejo de ver um episódio atrás do outro só começará na metade da série. Também é nessa segunda metade que os plot twits começam a valerem a pena, ainda que alguns sejam um pouco óbvios demais para um espectador mais atento, com justificativas interessantes se tratando de toda a trama.

Na direção temos um grupo grande também. Lee Daniels, Tamra Davis e Paulo McCrane assinam dois episódios cada, enquanto John Krokidas, Michael Schultz, Millicent Shalton Kevin Tancharoen, J. Miller Tobin e Rose Troche com um episódio. O problema de ritmo também segue na direção, mas o trabalho dos diretores com o elenco tornou-se o melhor ponto em questão. Com a direção de fotografia de Rodney Taylor, os planos são quase todos sem estabilização e/ou fixos, o que dá uma dinâmica maior para a produção. O trabalho da direção se apresenta tão bem alinhada que se não houvesse os créditos para nos informar qual o direção da vez, possivelmente poderíamos imaginar que toda a produção foi dirigida por uma única pessoa. E o que poderia ser relacionado a uma falta de identidade por parte dos diretores acaba transformando em uma ímpar qualidade unificada.

Mas já que se trata de uma série musical, não poderíamos deixar de entrar nesse mérito, uma vez que ele é responsável pela base dramática. Aqui não temos canções excepcionais, mas temos algumas bem dinâmicas e capazes de grudar na cabeça. As canções que segue o estilo Pop/R&B, com uma sonoridade muito próxima dos anos 80 e 90 (a era das grandes girl bands ou girl grups). Se algumas são apresentadas ao meio cotidiano, seja para finalizar um episódio ou nas apresentações das meninas, outras são inseridas do nada no meio de uma ação afim de justificar a narrativa. Algumas funcionam bem, outras acabam sendo bem dispensáveis. Entre as inúmeras canções da série podemos citar algumas especiais, seja pelo conceito em que é inserida quanto por sua sonoridade. São elas “I Bring Me“, “Whatcha Gonna Do“, “Man” e as incríveis “Long Way Home“, “I Don’t Know Why” e “American Funeral“.

O que foi relatado nas primeiras impressões se manteve e as três protagonistas tem cacife para progredir com suas personagens, mas ainda não fizeram da melhor forma mesmo que estejam bem. Devido a intensidade de Star, Jude Demorest consegue ter seus momentos chamar a atenção nos momentos certos. Como Simone Brittany O’Grady as vezes se perde um pouco na trama, mas desenvolve bons momentos emocionais e consegue caracterizar sua persoangem, o que não acontece com Ryan Destiny. Por Alexandre ter uma personalidade mais contida, no meio dos acontecimentos e personalidades tão fortes ela acaba se tornando uma das mais despercebidas, com exceção dos momentos que envolve sua trama familiar.

Queen Latifah que começa roubando muitas cenas acaba enfraquecendo seu trabalho no decorrer, talvez devido como foi construído a trama, mas o seu envolvimento e relacionamento com sua filha trans acabam se tornando ótimos momentos. Benjamin Bratt passa pelo mesmo, mas a medida que seu personagem progride, ele cai na canastrice e acaba perdendo força. Já Amiyah Scott, a terceira atriz trans a assumir um personagem trans na televisão americana, cresce em larga escala. Ela, junto a Queen Latifah e Tyrese Gibson, consegue nos dar uma das cenas mais revoltantes e emocionantes de toda a temporada. Por algum motivo desconhecido Sharlene Taulé lembra muito a atriz Katharine McPhee (de Smash), mas não consegue ser tão boa e vívida quanto deveria. Já na cota dos galãs, temos dois bem opostos. Se Quincy Brown vem com humildade, usando sempre a simpatia e os ideais de Derek para conquistar o público, o perfil de “príncipe encantado” de Hunter, vivido por Chad James Buchanan, vai se desfazendo ao longo da trama e consegue ser tão abusivo quanto real.

Por fim, o maior mérito da série Star são os assuntos abordados. Começamos a falar sobre sonho e o desejo de ser algo e investir tudo o que tem por acreditar no seu talento. Mesmo sendo pra lá de clichê o “live a dream” nunca morre e é renovado a cada geração. Afinal, o que seria de nós sem nossos sonhos e desejos?! Também, logo no inicio temos o problema do sistema de adoção, que separam irmãos e nem sempre assegura que os adotados sejam tratados e educados da melhor maneira possível. Temos a violência contra a mulher em diversas formas, obsessão, agressão, estupro e verbal. Tema que jamais devemos parar de falar enquanto houver, pois se calar não é o caminho. A violência da polícia contra os negros e o racismo, que juntos fazem inúmeras vítimas todos os anos, não só nos Estados Unidos como em todo mundo. O uso das drogas e as consequências que elas trazem para você e para as pessoas ao redor. A prostituição e a transfobia, dentro e fora de casa, exercida pelos olhares, pela falta de diálogo ou pelas agressões físicas e verbais.

Não podemos afirmar se a abordagem foi feita ou não da melhor maneira narrativa, mas continuará necessária ontem, hoje e amanhã. Se por um lado tivemos um final esperado e clichê para alguns, para outros personagens o season finale é de arrancar os cabelos e nos fazer querer uma nova temporada para saber as consequências o quanto antes. “Star” tem muito o que crescer e só nos resta torcer para que ocorra da melhor forma possível, seja técnica ou intelectualmente. Empoderamento e perder o medo de ser quem você é, é a grande mensagem da produção. Recomendada e necessário, seja para reflexão e/ou somente entretenimento.

Crítica: Star (1ª Temporada)
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