Crítica: Star Wars – Os Últimos Jedi

Poucos são os produtos da cultura pop que tem tanta influência e peso como “Star Wars”. Aquilo que vinha da inventiva mente de George Lucas – e que foi concretizado ainda na década de 70 com o primeiro filme da franquia – jamais foi presumido como tal, no entanto. Se esse foi relativamente pequeno, cada filme da trilogia original aumentava ainda mais a projeção e engradecimento daquilo que “Star Wars” era, conquistando fãs extremamente fiéis pelo mundo. É impressionante que isso não tenha parado ao longo das décadas, se expandido para além do cinema, tornando a marca abrangente também na literatura, histórias em quadrinhos ou qualquer mídia que recebesse conteúdo para eventuais expansões de seu universo. Hoje a saga é praticamente uma religião, possuindo uma quantidade enorme de adeptos, mantendo seu legado vivo.

Apesar do fiasco de crítica que foi a trilogia começada em 1999 e terminada em 2005, mais recentemente foi retomada a produção de longas relacionados à ela, por conta da compra da LucasFilm pela Disney, o que deixou preocupações em um primeiro momento. Todavia, essas foram abandonadas quando “O Despertar da Força” estreou, definindo rimas narrativas e temáticas com “Uma Nova Esperança” –  expandindo o universo em questão com novos e carismáticos personagens embarcando em jornadas inéditas. Em seguida, “Rogue One”, provou que as coisas podiam ser mais variadas e trouxe histórias que jamais especularíamos, se distanciando daquilo que existia nos principais episódios feitos. Eis que é chegada a hora de “Star Wars – Os Últimos Jedi” ,e, se os dois filmes até então lançados foram um estrondoso sucesso, o que será que esse nos guarda? Pergunta essa que ganha ainda mais força se levarmos em conta a campanha de marketing que o diferenciou, de forma contundente, de tudo aquilo já posto em prática na franquia.

O filme se encaixa coesa e perfeitamente com seus antecessores, mas isso sem perder sua originalidade. Seguimos acompanhando Rey, que busca por treinamento com Luke, assim como também continuamos a observar os passos de Kylo Ren, seus dramas e a trama que envolve a Resistência contra a Primeira Ordem. São núcleos com personagens diferentes interagindo e que eventualmente acabam por se cruzar. O que é ótimo aqui, é que podemos conhecer melhor um ou outro personagem ou ambiente, já que há essa espécie de desprendimento do desenrolar narrativo. Além disso o roteiro brinca com o espectador, fazendo parecer que o rumo mais óbvio será tomado, mas subverte esse tipo de espera. Ainda que não seja sempre, é sentida uma originalidade quanto ocorre. Mais importante ainda, nesse aspecto, é que não é um recurso usado de forma exaustiva.

O clima é levemente mais tenso. Lógico que se trata de uma questão vinculada à própria característica da série, que sempre tem a diversão e o entretenimento como fundamentos de sua essência. Desse jeito, uns tons sombrios aqui e ali o diferenciam de outros episódios, desenvolvendo interessantes ligações temáticas e narrativas com “O Império Contra-Ataca”. Se por um lado existem momentos de peso e esses precisam ser sentido, por outro existem momentos de piadas e de leveza que se contrapõem. Por vezes isso acaba apagando um pouco as cenas que necessitam de maior carga emocional, mas não chega a quebrar o envolvimento com o espectador.

Em termos de direção, Rian Johnson coloca sua assinatura e filma tudo com elegância. Existem sequências longas, com poucos cortes e mise-en-scène bem organizada, para entendermos espacialmente o que se passa em tela. A grandiosidade de alguns momentos também se aproveita desse tipo de filmagem para ganhar força, e podemos ver isso logo no primeiro ato. Junto com isso, a fotografia e as paletas de cores do filme chamam a atenção para si, fazendo uso de tons fortes e marcantes para expressar aquilo que desejam. Há muito contraste, muito vermelho com branco e tons de branco se misturando com tons de cinza e preto. Não é um tipo de colocação gratuita, já que um dos temas principais do longa é a luz contra as trevas, o claro contra o escuro. É um tipo de escolha que se reflete em todo lugar, seja direção de arte, figurino ou a própria fotografia.

Já a montagem  também expressa essa dualidade através de suas atuações, aferindo fluidez e força nos temas que a obra pretende abordar. A interação de personagens a partir da montagem é simples e inteligente, criando diálogos que não ocorrem em mesmo espaço físico, dentro da mística da saga, tornando-os possíveis. É uma interação que não é gerada por atores contracenando, mas pelo jeito que a linguagem cinematográfica é utilizada. Os enquadramentos deixam isso claro e reforçam tal ideia, como vemos por Rey e Kylo Ren muitas vezes. Ainda dentro dessa, a transição que existe de um núcleo para outro e sua sincronia com os diálogos traz dinamismo e um modo orgânico para que não haja mudança abrupta de cenários.

Todo o trabalho realizado pelo departamento de som é um show a parte. Sua trilha sonora emociona, evocando temas não apenas clássicos e conhecidos – bem como aqueles que “O Despertar da Força” trouxe. Músicas que são características de personagens como o Supremo Líder Snoke e Rey ajudam a criar identidade para eles, que é uma identidade que se encontra marcada na parte sonora do filme, mas foram deixadas de lado com alguma frequência. Já o design de som torna o mundo apresentado muito crível, tal como já foi feito nos outros filmes da franquia. Interessante ressaltar como ele torna-se parte importante entre uma cena e outra, servindo como liga.

Apesar disso, não temos uma obra perfeita! Alguns personagens tiveram merecido desenvolvimento anteriormente, mas não tanto agora. Assim como o segundo ato se extende demais desnecessariamente. São problemas que, mesmo não prejudicando tanto o resultado final, existem e podem ser notados facilmente.

No fim das contas, “Star Wars- Os Último Jedi” é um filme digno de receber tal nome. Possui eixos temáticos muito interessantes e toma decisões não submetidas antes, o que é seu principal mérito – juntamente dos caminhos com que o faz. Agradará com certeza aos novos e velhos fãs dessa epopéia espacial, deixando ansiedade para o capítulo final dessa nova trilogia. Entretanto, até lá teremos ao menos dois ótimos filmes que merecem ser vistos e revistos.

Crítica: Star Wars - Os Últimos Jedi
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