Crítica: Strong Island

Na noite do dia 7 de abril de 1992, um jovem negro foi assassinado no subúrbio de Long Island. O motivo para a morte: um tiro que ele levou de um homem branco após uma discussão em uma oficina mecânica. O caso foi para o grande júri, mas foi considerado que não houve crime.

Para os olhos da opinião pública, talvez o episódio não passasse de um crime banal, notícia que se esquece nas páginas de jornal envelhecidas. Porém sua repercussão, mesmo que não tenha desencadeado revoltas como a dos distúrbios de Los Angeles, que aconteceram poucos dias depois, não foi menos dolorosa. A família da vítima, um rapaz de 24 anos chamado William Ford Jr., nunca mais foi a mesma depois da perda e a tentativa de lidar com o luto é o que move “Strong Island”, documentário dirigido por seu irmão mais novo, Yance, que pela força de seu relato, íntimo, consegue denunciar a política racial tóxica enraizada no comportamento da sociedade norte-americana.

Distribuído pela Netflix, o projeto – que concorre ao prêmio da Academia de melhor documentário – é uma forma de resgate das relações dos integrantes da família Ford. Ocupando lugar não só de mediador, mas de personagem na narrativa, o diretor se une à mãe, à irmã e aos amigos de William para contar os detalhes e circunstâncias que levaram à tragédia e suas consequências para a dinâmica doméstica. Ao longo dos 107 minutos de projeção, vemos o tempo passar através de vídeos caseiros e das fotos nos álbuns de recordações, sentimos a dor nos cômodos vazios da sua casa em Central Islip e peso da ausência do jovem assassinado sem ao menos ter tido o direito de justiça.

“A polícia fez com que o meu irmão se tornasse o principal suspeito de seu próprio assassinato”, nos conta Yance, sempre em close, em confronto com o espectador. Assim ele segue por todo o longa: bem equilibrado entre informação e ensaio, o primeiro trabalho do diretor ao mesmo tempo que discute caraterísticas práticas como a divisão étnico-territorial de Long Island ou o funcionamento do judiciário nos Estados Unidos, abraça uma estética intimista, muitas vezes lírica, em que enquadramentos contemplativos representam o olhar e refletem a esfera emocional daqueles que participam do relato.

Essa aposta delicada na direção e na montagem – aqui feita pelo veterano Janus Billeskov Jansen -, trabalha com ideias sutis, mas prestigiosas, como usar planos subjetivos para materializar o chefe da família Ford, que faleceu anos antes da produção sair do papel. Ao ser citado na exposição da esposa e dos filhos, muitas vezes temos a visão da cabine de um trem em movimento (William pai era condutor na cidade de Nova Iorque) e ao narrar o dia de sua morte, a voz de Yance em off é acompanhada de uma sequência que flagra um jato de água irrigando um jardim; ele morrera observando as pessoas de sua varanda.

Por falar no diretor, é difícil falar de “Strong Island” sem pensar na forma como ele se coloca enquanto personagem. Quase como no belíssimo documentário nacional “Elena”, Yance sai à procura de respostas sobre a morte do irmão e, no final das contas, acaba descobrindo muito mais sobre si mesmo. Vunerável, ele não só expõe seus pensamentos direto a quem assiste (“Se você se incomoda com as minhas perguntas, é melhor levantar e sair”), mas nos permite vê-lo às lágrimas em momentos de fragilidade, além de se por cara a cara com o amigo que viu a morte de seu irmão.

Neste aspecto, sua própria sexualidade e identidade de gênero entram em jogo. Descobrindo-se transexual após o lançamento da produção – no filme ele ainda é referido no feminino -, Ford é franco sobre sua descoberta enquanto pessoa LGBT (“aquilo era algo que me fazia sentir tanto animada quanto envergonhada”) e como William, mesmo nunca tendo sabido, foi importante para ele.

Significativo enquanto exercício de memória e reconciliação, porém, os méritos do projeto não param por aí. Político, ele é o testemunho da experiência de ser negro nos Estados Unidos, expondo todos os seus obstáculos. Se William Ford fosse branco será que o grande júri pensaria duas vezes antes de declarar que não houve crime? Ou até antes disso, a dor da família da vítima ao encarar a cena do assassinato seria respeitada? São perguntas que flutuam, mas sabemos a resposta em se tratando de um país em que o número de jovens negros mortos pela polícia é nove vezes maior do que outras etnias.

Uma boa surpresa nos lançamentos do ano passado, “Strong Island” é duro, catártico e, mais que tudo, extremamente necessário.

 

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