Crítica: Tangerine

No dia 17 de junho de 1906, Leopold Bloom peregrinou pelas ruas de Dublin. No dia de sua festa, Clarissa Dalloway acordou pensando que ela própria compraria as flores. Na véspera de natal de 2014, Sin-Dee foi atrás da mulher com que seu namorado a traiu. Acompanhar um dia na vida de alguém foi uma das formas de estudo de personagem que floresceu na literatura do século passado. Entretanto, apropriando-se do recurso que marcou o trabalho de James Joyce e Virginia Woolf, Tangerine (2015) expande com energia essa forma de olhar, dando a vez de os marginalizados irem para o microscópio.

Sean Baker já é conhecido por explorar o terreno que habitam figuras com pouca representação, como os desafios de um imigrante chinês em Take Out (2004) e o mercado das atrizes pornô em Starlet (2012) e aqui, o diretor e roteirista, não faz diferente: Sin-Dee Rella (Kitana Kiki Rodriguez) é uma prostituta transexual que acaba de sair da cadeia e descobre através de sua amiga Alexandra (Mya Taylor) que seu namorado – e cafetão – Chester (James Ransone) a traiu com uma garota “de vagina e tudo”. Empenhada em descobrir quem foi a amante, ela se compromete também a não faltar a apresentação de natal que sua “BFF” fará em um bar. Por sua vez, o taxista Razmik (Karren Karragulia), cliente fiel das garotas de programa da Sunset Boulevard, quer encontrar Sin-Dee agora que ela está de volta.

O resultado é uma experiência única em todos os sentidos. Energético, engraçado e, o mais importante, humano, o cineasta norte-americano transforma a jornada de suas protagonistas pelas ruas de Hollywood em um manifesto contemporâneo, ao, pasmem, acompanhá-la através das lentes das câmeras de três aparelhos Iphone 5s. Impressionando com o que consegue fazer com a tecnologia de um telefone celular – ele, por exemplo, captura planos de cima de prédios, o que normalmente só seria possível com o auxílio de uma grua –, o diretor, também responsável pela fotografia ao lado de Radium Cheung, não só é bem sucedido em alcançar um senso de realidade, mas também em moldar seu material para que seja frenético, 220 volts, como sua narrativa.

Em uma Los Angeles quente, filtrada pelas cores alaranjadas que remetem o título, cenário oposto do tradicional ambiente frio natalino dos Estados Unidos, Sin-Dee e Alexandra conversam a 100 palavras por segundo, suas ações são marcadas pela batida do hip hop e da música eletrônica e sua andanças conduzidas por cortes secos e pela câmera na mão. É a vida real trabalhando junto com a fabulação cinematográfica.

Realidade que se materializa nas estreantes Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor, duas atrizes transgênero que também passaram pela prostituição e que surpreendem não só por seu carisma e segurança, mas como conseguem injetar naturalidade e criar nuances em personagens que em um primeiro olhar podem ser tão arquetípicas. Mérito do roteiro também assinado por Chris Bergoch, que além de construir muito bem uma noção de comunidade entre os indivíduos desamparados que habitam as ruas e enredar uma trama sedutora – é impossível não ficar à espera do confronto de Sin-Dee a Chester -, cria tipos cativantes e multidimensionais reagindo a situações, no mínimo, curiosas.

Com inteligência, o texto investe em episódios como Razmik frustrado ao ver que a prostituta que contratou tem uma vagina, a protagonista arrastando pela cidade a amante de seu namorado e uma cena de discussão que facilmente entra para o hall de uma das mais incríveis do cinema nos últimos anos. A natureza de seus personagems é inflamável, há sangue quente e exagero, porém, tudo sempre balizado pelo verossímil.

No mais, Tangerine (2015) é um daqueles filmes que precisam ser vistos e celebrados. Orçamentos exorbitantes jamais serão sinônimo de qualidade. Talento e boas ideias bem executadas já bastam. Pena que não é para todos.

 

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