Crítica: Todo o Dinheiro do Mundo

Mesmo antes de sua estreia, “Todo o Dinheiro do Mundo” (All the Money in the World, 2017) já tomava conta de noticiários ao redor do mundo. As manchetes, contudo, não giravam em torno do filme, mas de uma polêmica em seus bastidores. Kevin Spacey, até o momento intérprete do magnata Jean Paul Getty, envolveu-se em um escândalo de assédio sexual com um menor de idade. O veterano diretor Ridley Scott tomou então uma decisão surpreendente: a pouco mais de um mês da estreia comercial, anunciou a substituição de Spacey por Christopher Plummer. A ousada opção por regravar as cenas custou à produtora Imperative Entertainment um gasto adicional de dez milhões de dólares. O esforço, porém, chamou a atenção dos membros da Academia, e Plummer, aos 88 anos, recebeu sua terceira nomeação ao Oscar, tornando-se o mais velho ator indicado na história da premiação.

No longa-metragem, ambientado em 1973, Gail Harris (Michelle Williams) recebe uma ligação sobre o sequestro do filho John Paul Getty III (Charlie Plummer) na Itália. A desesperada mãe precisa, então, convencer o inflexível bilionário J. Paul Getty (Christopher Plummer), avô do garoto, a pagar o resgate de três milhões de dólares. Para negociar com o ex-sogro, no entanto, Gail precisa primeiro lidar com seu homem de confiança, o ex-agente da CIA Fletcher Chase (Mark Wahlberg).

O roteiro de David Scarpa (O Dia em que a Terra Parou), inspirado no livro homônimo de John Pearson, transforma a tragédia real da família Getty em uma grande metonímia. Nela, o empresário interpretado por Christopher Plummer funciona como uma parte representante do todo, o sistema capitalista. Segundo a lógica cruel de ambos, coisas e pessoas equivalem-se. Nesse contexto, não só os vínculos comerciais mas também os interpessoais originam-se a partir dos interesses de ordem monetária. Um grande acumulador torna-se, portanto, um “rei”, e seu dinheiro tem a força de uma “arma”. Essas metáforas, sugeridas pelos diálogos, revelam a persistência na contemporaneidade de arcaicas relações de poder. A riqueza concentra-se nas mãos de poucos, e aos demais, como Gail Harris, resta a sujeição.

A protagonista, contudo, recusa conformar-se. Essa característica traduz-se claramente na performance de Michelle Williams. Com a habitual intensidade dramática, a atriz apresenta ao espectador uma mãe disposta a lutar até o último instante para reaver o filho. Christopher Plummer, por outro lado, constrói um contraponto egocêntrico e vaidoso, sem com isso recair em um vilão arquetípico. Dessa forma, empresta à personagem uma certa ponderação, diferentemente da abordagem mais ríspida indicada pelo trailer com Kevin Spacey. A substituição dos atores, por sinal, passa despercebida aos olhos dos desavisados, tamanho o seu êxito. Boa parte desse mérito se deve à ótima montagem de Claire Simpson, vencedora do Oscar por “Platoon” (1986).

Também merecem elogios os trabalhos do fotógrafo Dariusz Wolski e da figurinista Janty Yates, vencedora do Oscar por Gladiador” (2000). Mais uma vez reunidos sob a direção de Ridley Scott, os profissionais recriam com sucesso o visual dos anos 1970. As imagens resultantes dessa parceria, ainda que digitais, preenchem a tela com uma beleza equiparável à das pinturas renascentistas compradas por Getty.

Com “Todo o Dinheiro do Mundo”, por fim, Scott escreve um bem-vindo novo capítulo em sua vasta cinematografia. O longa-metragem oferece ao espectador uma intensa experiência e um memorável plano final. Cumpre, ainda, aquilo que se espera de uma boa cinebiografia: transcende a superfície de seu tema e provoca discussões mais profundas. Infelizmente, no entanto, a polêmica ao redor do contexto de produção, no lugar de atrair maior público para a obra, vem minando as discussões acerca de seus méritos.

* O filme estreia dia 1 de fevereiro, quinta-feira.

Crítica: Todo o Dinheiro do Mundo
8Pontuação geral
Votação do leitor 1 Voto
7.5
CLOSE
CLOSE