O que ninguém nos ensina sobre amadurecer

trainspotting-2Considerado uma pérola do cinema britânico independente, “Trainspotting – Sem Limites” é muitas vezes taxado como mais um “filmes sobre drogas”, como “Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída” e “Diário de um Adolescente”. Porém, limitar a temática do filme a isso – por mais importante que as drogas sejam na trama – é reduzir sua potência, que explica seu sucesso até hoje.

Com direção de Danny Boyle e roteiro de John Hodge, o longa é inspirado no livro homônimo de Irvine Welsh. Na trama, Mark Renton (Ewan McGregor) divide seu tempo entre o uso da heroína, roubos para sustentar o vício e as saídas com os amigos – alguns também usuários viciados. Apesar dos protestos vindo de amigos e da família, Renton está satisfeito com sua vida. De fato, o personagem já deixa clara sua visão sobre o assunto no famoso monólogo inicial do filme:

“Escolha viver. Escolha uma carreira. Escolha uma família. Escolha a porra de uma televisão grande, escolha máquinas de lavar, carros, CDs,  e abridores de lata elétricos. Escolha boa saúde, colesterol baixo e plano dentário. (…) Escolha seu futuro. Escolha sua vida. Mas por que eu ia querer fazer algo assim? Eu escolho não escolher viver. Eu escolho outra coisa. E os motivos? Não há motivos. Quem precisa de motivos quando se tem heroína?”

trainspotting-7Se formos definir um tema central para “Trainspotting” podemos dizer que este é um filme sobre escolhas. Falando mais especificamente, sobre as escolhas que nos tornam quem somos – aquelas que tomamos justamente da juventude para a vida adulta, fase em que Renton e a maioria dos seus amigos se encontra. E o maior trunfo do filme é justamente não julgar essas escolhas.

Hoje em dia, personas moralmente ambíguas são quase regra na televisão e no cinema. Se por um lado, isso permitiu e ainda permite histórias com as quais o público se identifica, por outro, trouxe também um sensacionalismo desnecessário e até o empobrecimento de algumas tramas, que se limitam a um julgamento inócuo sobre a moral de seus personagens.

Um filme – ou uma série, um livro, etc – sempre refletirá a visão de mundo e os preconceitos de sua época e seu criador. Isso é inevitável. Por isso obras como “Trainspotting” – e também podemos citar “Elefante” e “Paranoid Park”, de Gus Van Sant –, que conseguem ultrapassar o julgamento moral, continuam relevantes  mesmo agora, quando as definições de bem e mal foram postas abaixo.

Boyle e Hodge conseguiram se distanciar o suficiente de seus personagens para não julgá-los, por mais questionáveis que sejam Renton, o malandro Sick Boy, o psicopata Begbie, o atrapalhado Spud e Diane – colegial com quem Renton se relaciona. Ao mesmo tempo, imprimiram um grau de verdade neles que permite ao público criar vínculos profundos com o grupo de desajustados, mesmo se tratando de um filme de 90 minutos.

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Mas a falta de moralismo não significa falta de consequências. O próprio Renton alterna entre o desespero profundo das crises de abstinência, para raros momentos de estabilidade. Amadurecer é difícil, e embora muito se fale sobre a juventude de hoje, “Trainspotting” deixa claro que a angústia e o desânimo não são privilégio da geração atual, e que o preço que se paga por não “escolher a vida” pode ser mais alto do que o imaginado.

Ao fim do filme, aqueles que esperavam um final preto no branco – a redenção ou condenação do protagonista – podem se decepcionar. “A verdade é que eu sou uma pessoa ruim. Mas isso vai mudar” afirma Renton, deixando claro que dali para frente, vai escolher a vida, o emprego e a televisão grande. Mas a que preço? Amadurecer é difícil porque significa justamente fazer escolhas. Escolher o caminho tradicional pode ser tão custoso quanto escolher o mais libertário. A salvação, no fim das contas, não existe, e talvez todos estejamos fadados a vender a alma para Mefisto. O que não significa, porém, que não sejamos capazes de alguns poucos gestos de humanidade.

Embora não tenha essa pretensão, talvez exista uma lição em “Trainspotting”: a mistura de alívio e desconforto de que toda a escolha vai sempre excluir algo ou alguém. Mas pelo menos, podemos escolher.

Crítica: Trainspotting - Sem Limites
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