Crítica: Treze Dias Longe do Sol

Uma série angustiante que durou muito e foi sustentada por boas atuações, pela fotografia e pelo mistério prolongado.

Como o próprio nome diz “Treze Dias Longe do Sol” conta a saga de alguns sobreviventes do desabamento de um hospital em construção que ficam cerca de 13 dias debaixo da terra esperando socorro. Um bom enredo, um drama total, mas infelizmente não superou as expectativas.

A trama começa mostrando horas antes do acidente. Saulo, vivido por Selton Mello é o engenheiro responsável pela obra que está atrasada e é cobrado tanto pelo dono da construtora, o playboy Vitor Baretti (Paulo Vilhena), quanto pela empresa dona do hospital, da família da médica Marion (Carolina Dickeman). Enquanto isso, operários saem para horário de almoço, e alguns ficam na obra, ainda trabalhando ou descansando. No momento em que Saulo mostra o estacionamento no subsolo para Marion, o local começa a tremer e desaba. A partir desse momento entram em ação duas personagens essenciais para a série: Major Marco Antonio (Fabrício Boliveira), o bombeiro responsável pelas buscas, e Gilda (Débora Bloch), a responsável financeira da construtora.

A série foi exibida em 10 episódios. Como não focou apenas nos sobreviventes e no resgate, ficou alongada demais e desfecho de algumas histórias ficaram perdidas. Um exemplo é o caso da família de um dos sobreviventes, o operário Bené (Arilson Lopes).  Sua esposa e o filho pequeno dela ficaram em um alojamento improvisado, próximo aos escombros esperando o resgate. Seu filho mais velho dele também aparece, só que ele não tinha um bom relacionamento com o pai. Imagina-se que caso Bené sobreviva, haverá um momento de reconciliação ou algo do tipo, no entanto este final é esquecido e o telespectador fica sem uma explicação.

O fato da trama contar a história de um desabamento obriga a produção a possuir efeitos especiais que melhor retratem os tremores e o prédio desabando. Esses efeitos deixaram a desejar, não sendo simples e ruins, mas não bons o suficiente. Apesar de não ser uma produção hollywoodiana, sabemos do talento que as pessoas desse ramo tem no país. Poderia ser melhor, até porque o publico brasileiro está cada vez mais exigente. Outro detalhe foi um erro de continuidade: em certa cena, alguns dos sobreviventes tiveram que nadar por uma parte alagada do prédio, mas pouco depois de saírem da água estão todos secos: como assim?!

O elenco principal era formado por Selton Mello, Carolina Dickeman, Débora Bloch, Fabrício Boliveira e Paulo Vilhena: ótimas atuações! Para os fãs de Selton, que não atua em novelas há anos, é uma ótima oportunidade de acompanhar o trabalho dele na televisão, e com uma personagem de difícil entendimento. A princípio ele é o mocinho, que faz par romântico com Dickeman, mas como ele é também o engenheiro da obra, fica-se a incógnita de amá-lo ou odiá-lo porque, no fim das contas, tudo pode ser sua culpa. O fato é que não é possível amar, pois Saulo é sempre frio em suas ações, e inclusive por esse motivo não rola uma química entre ele e Marion. Bem, se o objetivo era esse, de não torcer pelo “herói”, Selton acertou em cheio na sua atuação. Considero que o destaque da série foi Débora Bloch, impecável como sempre, fez o público gostar e até sentir pena de uma possível “vilã” que possui uma vida dramática e difícil.

O roteiro de Elena Soárez e Luciano Moura é bom, mas possui alguns detalhes que impedem de ser ótimo. A ação e emoção esperadas para o enredo escolhido demoram para aparecer: nos primeiros episódios é tudo muito linear e pouco prende a atenção de quem está assistindo. Apesar disso, o recurso de não contar a real história de uma vez, deixando a pergunta “quem é o culpado por esta tragédia?” se desenrolar até o último episódio foi o ideal. O roteiro possui flashbacks e não segue no mesmo núcleo por muito tempo, o que são recursos bons para fugir do tédio do drama tão recorrente. Um detalhe que poderia ser diferente, no entanto, são as cenas dos sobreviventes, que passam 13 dias debaixo da terra e pouco se desesperam, não contam os dias, nem tentam encontrar comida ou água sendo Saulo o único a tenta achar uma saída, como se todos os demais estivessem tranquilos ali. Além disso faltaram cenas que mostrassem a revolta deles com o engenheiro responsável, que poderia ser apontado como o culpado de todos estarem ali.

A fotografia é perfeita! Imagens digna de cinema. Lembrando que existem cenas internas e externas e cada uma delas retrata muito bem e de forma bem real o ambiente em que se passa. Nas cenas dos sobreviventes a iluminação é diferente, as personagens não estão claras e evidentes, camufladas com o cenário cinza, escuro e sujo da obra. Nas cenas dos escombros, onde o Corpo de Bombeiros faz a busca, é muito boa a junção de poeira, sol e noite e as cenas ficam bonitas e dignas de perfeição. Uma forma de ver a diferença entre as cenas é com a personagem de Selton Mello, pois no momento em que a trama se desenvolvia, ele estava debaixo da terra, sem sol ou qualquer iluminação, num ambiente destruído e sempre igual. Nos flashbacks, há a luz do dia das cenas externas e iluminação ideal das internas. Essa diferença em diferentes cenas da mesma pessoa, é ideal para mostrar como a fotografia casa bem com cada detalhe da série.

“Treze Dias Longe do Sol” é uma série dramática que traz cenas fortes e emocionantes. De início deixa um pouco a desejar, mas é preciso dar uma chance, principalmente por seu enredo afinal, nunca houve na televisão aberta um que não só contasse a história de sobreviventes debaixo da terra, como também que aproveitasse do contexto para criticar empreiteiras, a ganância do ser humano, a futilidade de pessoas ricas e a utilização de um bode expiatório em meio a tanta tragédia. O final é bom e surpreendente, emocionando os telespectadores. Se você não conseguiu acompanhar a série nas últimas duas semanas não tem problema, ela está disponível na Globo Play.

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