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No fundo todos somos coloridos

É fato que um dos mercados mais rentáveis que existe no mundo é o do público infantil, repleto de produtos diferenciados, como filmes, brinquedos mirabolantes e, agora, até canais milionários no Youtube. O retorno é tão certeiro que produtores de peças de teatro estão investindo cada vez mais nesse setor e não é difícil encontrarmos nas livrarias uma enxurrada de livros escritos com o prévio pensamento desse se tornar uma nova saga literária. A força do público infantil é tão grande que o percentual de influência das crianças nas decisões das famílias vem aumentando consideravelmente. Em 2006, uma criança estava presente nas decisões da família em 42% dos casos, hoje em dia já chega a 80%, segundo alguns estudos analisados através da ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da Infância) e o Instituto Alana.

Todavia, podemos concluir também que esse crescimento acaba por gerar uma incessante busca por uma quantidade maior de produtos para abraçar esse nicho. Com isso, nos últimos anos, a indústria vem oscilando e ficando um tanto quanto saturada de projetos repetidos, sendo um cópia do outro. Entretanto, no meio dessa avalanche de ideias e clichês ainda existem produções que podemos tirar o chapéu, que é o caso da divertida e indispensável animação “Trolls”.

O filme estreiou na última quinta feira em circuito nacional e, como era de se esperar, bateu todas as outras produções em cartaz ao levar mais de 354 mil pessoas aos cinemas somente no fim de semana. A história é inspirada nos bonecos com cabelos arrepiados, coloridos e reluzentes, criados pelo pescador Thomas Dam. A ideia do brinquedo, por si, foi baseada em Trolls escandinavos e desenvolvida por Dam em 1959 para que ele pudesse presentear sua filha, mas tornou-se um grande sucesso entre as décadas de 60 e 90 e até hoje são tidos como objeto de colecionador.

O enredo da animação gira em torno de uma comunidade de pequeninos Trolls que foge em desespero ao se ver ameaçada de extinção pelos malvados Berguens. Anos depois, escondidos e protegidos no meio da floresta, eles se encontram novamente em perigo por conta de uma cruel vilã que descobriu o esconderijo e decide pega-los fazer com que todos de seu reino voltem a ser felizes. Em meio a essa confusão Tronco (Justin Timberlake), o mais preparado de sua espécie, vê a necessidade de partir em uma jornada de descobertas e aventuras ao lado da corajosa Poppy (Anna Kendrick), líder dos Trolls.

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O roteiro de Jonathan Aibel e Glenn Berger, profissionais por trás da trilogia de “Kung Fu Panda” e “Monstros Vs Alien”, é uma grata surpresa que nos anima do início ao fim. Desenvolvido a partir da história de Erica Rivinoja, eles utilizam-se da música como força principal (recurso que já foi empregado por várias animações) para abordar assuntos como amor, amizade, honestidade e otimismo, temas que estão cada vez mais ausentes em nossa sociedade. Mesmo focando em uma linguagem mais infantil, diferente do que fizeram em “Kung Fu Panda 3”  que consegue ser mais adulto, os roteiristas são capazes de dispor de ingredientes importantes para o convívio social abordados de forma sutil e interessante.

A direção é guiada pela dupla Walt Dohrn e Mike Mitchell, os quais já possuem experiência na área atuando em diferentes funções. O trabalho dos dois acaba sendo um presente para o público, ao oferecerem um filme leve, acertado quanto ao ritmo (principalmente nas cenas de cantoria) e, principalmente, na escolha e concepção artística das criaturas. Extremamente detalhistas, a transposição dos bonecos para forma animada é rica em textura e cor, fazendo jus a criação de Thomas Dam.

Todo o trabalho desenvolvido pela equipe de design de produção, direção de arte, efeitos e animação é de uma impecabilidade única. Analisando a produção em um todo, é difícil encontrarmos um ponto errado. Desde as folhas das árvores ao movimento dos cabelos dos “Trolls”, tudo está no lugar. Um grande mérito para equipe responsável pela continuidade do filme.

Outro ponto positivo, e talvez a grande sacada da animação, seja a escolha pela caprichada trilha sonora repleta de clássicos lançados na mesma época em que os bonecos fizeram muito sucesso. Músicas como “True Colors” da Cindy Lauper e “Hello” de Lionel Richie fazem parte do filme, juntamente com a agitada “Can’t Stop The Felling” composta por Justin Timberlake, o qual está envolvido também na dublagem original e produção musical da obra. – Nesse ponto, é necessário deixar claro que existe uma versão brasileira da maior parte das músicas, porém os responsáveis fazem bonito em quase todas elas. Contudo, confesso que senti falta de ouvir a versão original das mesmas.

Falando em dublagem, mais uma vez os nossos artistas realizaram um trabalho de primeira linha. Antes de ver o filme, fiquei preocupado com a escolha do ator Hugo Bonemer, a ex- The Voice Brasil Jullie e blogueiro Hugo Gloss para os personagens principais da história na versão brasileira. Todavia, todos eles fizeram bonito e mostraram extrema competência substituindo a voz de grandes nomes da indústria americana.

Trolls, como já mencionado, embora seja uma animação voltada para o público infantil, contém lições importantes para a vida de qualquer adulto, nos fazendo refletir sobre o tempo em que perdemos o eixo ao deixarmos o estresse e/ou a tristeza invadir nossa existência. Uma produção para toda família, que faz o possível para vermos o lado “colorido” do mundo, deixando-nos verdadeiramente felizes e apaixonados pelos personagens. Prepare-se, você vai sair da sessão com um gostinho de quero mais.

Crítica: Trolls
8.6Valor Total
Produção8.6
Roteiro8
Direção8.5
Efeitos9
Trilha Sonora9.1
Dublagem8.5
Votação do Leitor 3 Votos
8.9