Não muito além de um belo visual

Já tem um tempo que o mercado cinematográfico se apoia em outros tipos de produtos para poder construir suas histórias. Há anos que a literatura serve de suporte para os estúdios, apresentando conteúdos originais que são adaptados e levados às telonas. Contudo, essa necessidade cresceu exponencialmente de uns tempos para cá, uma vez que o cinema passou a se sufocar com enredos repetitivos, continuações forçadas e/ou remakes desnecessários. Todavia, a literatura e seus romances não foram os únicos a serem sugados pela indústria dos filmes. Histórias em quadrinhos, peças teatrais, projetos televisivos, youtubers, e até brinquedos passaram a ser alvo de produções interessadas em expandir seus horizontes e alavancar suas bilheterias. Todavia, no meio disso tudo, existe um fato que não podemos deixar de lado: nem sempre uma adaptação vai conseguir representar de forma fiel, a ideia traçada originalmente por outro conteúdo. Afinal, não é todo dia que conseguimos extrair uma boa trama de um boneco – por exemplo. Entretanto, pegar um projeto que possui uma narrativa impressionante, que serviu até mesmo de inspiração para outras grandes ideias, e enfraquecê-la com clichês e frases forçadas, acaba sendo de uma grande tristeza. E é basicamente isso que acontece com “Valerian e a cidade dos mil planetas”.

Adaptado da série de quadrinhos franceses “Valérian, agent spatio-temporel” – posteriormente rebatizado como “Valerian e Laureline”,  escrita por Pierre Christin e ilustrada por Jean-Claude Mézières, o filme aporta hoje aos cinemas mas não atende completamente às expectativas dos fãs da HQ. A partir de uma trama fraca, acompanhamos o “casal” de agentes espaço-temporais – Valerian e Laureline – em uma difícil missão em busca de um raro conversor capaz de multiplicar qualquer coisa. Concedida pelo ministério da defesa, a fim de impedir que o mesmo caia nas mãos erradas, a tarefa desperta a atenção de outros seres causando uma perigosa batalha que coloca em risco a gigantesca Estação Alpha, um lugar protegido pelo governo e habitado por uma infinidade de espécies de diferentes planetas.

Com uma impactante produção liderada por Luc Besson, o mesmo responsável por “O Quinto Elemento” e “Lucy”, sua esposa Virginie Besson-Silla (“Jack e a Mecânica do Coração”) e Camille Courau (“Carga Explosiva: O legado”), o filme nos apresenta o que há de melhor em efeitos gráficos e captura de movimentos, construindo perfeitamente o visual exuberante ostentando pelos quadrinhos. Eles conseguiram transpor com sucesso toda a beleza do lugar, mantendo a diversidade em relação das personagens e ainda a atmosfera asfixiante dos ambientes.

Infelizmente, o mesmo não pode ser dito do roteiro do próprio Besson. O mais interessante é que o artista é um fã declarado da história original, lançada pela primeira vez em 1967, tendo usado diferentes elementos dessa para compor um de seus grandes sucessos, o sci-fi “O Quinto Elemento”. A trama, que já foi usada também como inspiração para a construção do universo “Star Wars”, acaba sendo mal aproveitada por Besson que opta por uma narrativa que deixa a desejar em vários aspectos. Diferente de outros projetos que já escreveu, o roteirista abraça aqui uma sequência de diálogos forçados e uma estrutura que não encaixa. A todo instante temos a sensação de que algo está fora do lugar, seja um personagem mal utilizado ou uma cena que fica sem complemento.

Luc Besson também assina a direção, todavia aqui ele prova que sabe o está fazendo. Junto com o belíssimo trabalho desenvolvido pela fotografia de Thierry Arbogast, somos bombardeados por infinidade de cores muito bem aplicadas e enquadramentos que valorizam a obra em um todo. Com uma infindável seleção de movimentos de câmera, que nos fazem lembrar de uma bom passeio de montanha russa (principalmente se a sessão for em 3D), e sequências de tirar o fôlego, a intensidade dramática é bastante favorecida nesse ponto. Um acerto que pode ser direcionado também a balanceada trilha sonora desenvolvida pelo francês Alexandre Desplat.

Já o elenco, esse não funciona em nenhum momento e acaba sendo a grande decepção no filme. Dane DeHaan (“A Cura”), é esforçado e até tenta encarar sua personagem da melhor forma, ponderando detalhes em sua atuação que a deixa mais confortável e aceitável para o público. Mas quem conhece a história original, vai perceber que o ator não convence como Valerian. Sem falar que ele não tem porte de galã, algo que o personagem necessita bastante. Outra que não diz para o que veio – mais uma vez – é Cara Delevingne (“Esquadrão Suicida”). Novamente ela oferece uma interpretação insossa, apresentando caras e bocas repetitivas, que levantam a dúvida se ela está sorrindo, sofrendo, apaixonada ou dezenas de outras emoções?! Ethan Hawke e Rihanna também ficam a desejar, com uma participação menos constrangedora. Já Clive Owen, esse tenta vestir a camisa em um personagem que poderia ser mais sério, mas no decorrer o que vemos é apenas mais uma caricatura. Uma pena não podermos aproveitar, verdadeiramente, ninguém nesse elenco.

Não obstante, os excelentes departamentos de arte e figurino fazem de tudo para manter a fidelidade do original e nos encantam com um incrível trabalho, perfeitamente equilibrado com a fotografia e efeitos. O desenvolvimento dos cenários – em destaque o mercadão e a Estação Alpha – é um dos pontos altos da produção e não perdem em nada para outros projetos de grande sucesso, como o próprio “Star Wars”.

“Valerian e a cidade dos mil planetas” é um deslumbrante universo que pode até perder a força com um roteiro pífio e um elenco nada cativante, mas vale o ingresso – principalmente se você está em busca de um passatempo divertido e/ou curtir um visual estonteante nas telas.

Crítica: Valerian e a cidade dos mil planetas
6Valor Total
Produção 8
Roteiro4
Direção8
Fotografia8
Direção de Arte8
Figurino7.5
Elenco3
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