Intimidade Cinematográfica

Um costume que temos, como espectadores, é de acompanhar filmes onde a demarcação de sua história seja bem clara para seu público. Sabemos onde se inicia, como se inicia. Sabemos para onde vai e muitas vezes como vai. E, por fim, sabemos onde termina ou pelo achamos que sabemos, em sua grande maioria. Mas há quem aposte em outras formas de se contar algo, deixando em aberto uma série de sensações para o público, e possuindo seu início, meio e fim. Nesse último caso, temos o novo longa da multifacetada diretora argentina Kris Niklison, “Vergel”.

Ele consiste em nos apresentar uma mulher (Camila Morgado), no qual não tem seu nome falado durante toda a produção, que durante uma viagem de férias com o marido à Argentina, o perde repentinamente. Ele já começa nos mostrando o início do período de luto dessa mulher, que trancada dentro do apartamento, passa dias a finco inerte e perdida dentro daqueles cômodos enquanto não consegue resolver toda a burocracia pra voltar ao Brasil como o corpo de seu marido. Interagindo apenas com o porteiro e com a vizinha de baixo (Maricel Álvarez), que as vezes aprece para molhar as plantas, aos poucos vamos enxergando as camadas da protagonista e compreendendo sua dor. Ao mesmo tempo que vemos florescer um novo relacionamento que influencia toda a trajetória de seu luto.

Escrito, produzido, dirigido por Kris Niklison, o longa é um retrato intimo de uma agustia silenciosa. A dor de se perder alguém que ama estabelece uma linha tênue entre o ser e o estar. Esta  é uma mostra de quem essa mulher poderia ser antes do acontecido e um trabalho de reconhecimento da própria dor. Ela traduz uma linguagem onde o seu habitat extrapola o físico e passa a existir em seu interior. Tudo é muito sutil e subliminar e os planos, muito bem escolhidos, transbordam sensações inertes a toda gama de sentimentos propícios aquele momento. Não pode se afirmar que ela está a beira da loucura, mas a inquietação do “não ter” e “não pertencer” são gritantes.

Também responsável pela direção de fotografia e direção de arte, Kris aqui apresenta uma produção de extremo contraste. Enquanto sua personagem vibra negatividade, dado seu estado emocional, a casa onde passa seus dias, que é o próprio apartamento da diretora, transpõe outras energias. Visualmente poderíamos comparar a uma estética vinda de Almodóvar, mesmo que a própria diretora não goste dessa comparação. Ao contrário da Louboutin que registrou sua cor literalmente, Almodóvar não registrou suas paletas de cores, muito menos sua linguem, então não cabe dizer que existe uma cópia e/ou referencias. Cabe reconhecer certas semelhanças entre ambas as direções ao estabelecer as dores humanas, numa relação de autoconhecimento constatantes e/ou oposta ao que se passa na fotografia e ambientação. Feito aqui de maneira primorosa.

Contudo, toda essa força se perde por diversas vezes deixando seu publico um pouco a deriva, mesmo não sendo um filme tão longo. Existe também uma tenuidade no incomodo seja ele de reconhecimento, seja de marasmo. Embora não tenha um ritmo que o grande publico esteja acostumado, e essa produção visivelmente não é para eles. Da mesma maneira que ele não se desenvolve tão bem quanto deveria. Nesse ponto, o que pode fazer com que as pessoas não percam o interesse na produção é a brilhante atuação de Camila Morgado. Para quem a conhece, não há dúvida alguma sobre seu trabalho e capacidade interpretativa, mas “Vergel” é mais um trabalho que ela reafirma suas habilidade como profissional e como ser humano que transborda afetividade e compaixão para com sua personagem. Tua força é tão grande em cena que, que mesmo o bom trabalho da Maricel Álvarez, ressoa pequeno perto do dela.

Crítica: Vergel
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