O público do cinema, num geral, tem mania de achar que o gênero documentário é quase como um artigo cientifico, ou seja, uma analise fria e didática de qualquer que seja o tema abordado. A realidade, porém, não é bem assim, e um dos exemplos mais recentes de um filme documental que foge desse estereótipo é “Visages Villages”, uma colaboração entre a diretora Agnès Varda e o artista e fotógrafo JR, que foi premiado no Festival de Cannes de 2017.

A ideia por trás de “Visages Villages”, que em português significa “rostos e aldeias”, é simples: Agnès e JR embarcam em uma viagem por zonas rurais e menores da França, modificando suas paisagens comuns com a aplicação de fotografias gigantes, quase como pinturas em grafite, além de entrevistar também os moradores dessas áreas. Tudo isso é possível com o caminhão do artista, que também serve como uma cabine e uma impressora de fotos (como se fosse uma máquina Polaroid sobre rodas).

Com uma premissa dessas, o filme é comparável a um road movie, no qual a jornada e a experiência são mais importantes que o destino, e é muito interessante como Varda consegue tirar emoção da simplicidade. “Cada rosto tem uma história”, diz a diretora veterana em certo momento, e é justamente isso que é o foco de do documentário, com os seus realizadores saindo por um momento dos holofotes e exaltando pessoas “comuns”. É difícil não se emocionar com cenas como a da senhora que é a ultima moradora da rua e tem a sua foto colada sobre a fachada das casas, ou a vila abandonada que é “repopulada” por JR através de fotos.

Isso não significa que as duas figuras principais são deixadas de lado, muito pelo contrário, Agnès e JR tem um “arco de personagem” que quase parece um filme de ficção. Como eles mesmos dizem, a primeira faz a “velha sábia” e o segundo o “jovem alegre”, e a sua amizade é o principal aspecto que faz a produção funcionar. Além disso, a diretora ainda conta bastante de seu passado, falando da sua relação com figuras como Jacques Demy, Henri Cartier-Bresson e Jean-Luc Godard.

Em questão de direção, o documentário não deixa a desejar. A grandeza das colagens que a equipe realiza é quase sempre exibida através de planos abertos, que contrastam os planos fechados, mais pessoais, usados para as reações do público a essas obras. A escolha de colocar algumas cenas interpretadas, nas quais as duas figuras principais encenam situações hipotéticas de como se conheceram, é ótima para definir o tom bem-humorado e comovente do longa.

A montagem consegue passar a ideia principal, que é conhecer pessoas, muito bem. Resumindo muito material em apenas 1h30, o filme não da impressão de ser corrido ou incompreensível, e na verdade aproveita bastante do seu ritmo, usando de muito movimento acelerado e jump cuts para mostrar passagem de tempo. Os resultados disso são às vezes dramáticos, como a colagem de uma foto que tem que ser feita dentro de um determinado tempo, e às vezes cômicos, como uma cena na qual uma família é vista, através de cortes, tendo dificuldades para tirar uma selfie.

Também de destaque são a trilha sonora e as animações. A primeira, composta por Matthieu Chedid, que tem suas melodias de violão perfeitas para ambientação, mas que em certa parte do documentário entra como um fundo para alguns versos cantados por Agnès, já a segunda está presente nos créditos iniciais e finais e mostra versões em 2D da diretora e de JR, que capturam perfeitamente os seus movimentos e postura.

Se esse filme fosse exatamente o mesmo, mas com atores interpretando seus papeis, ele teria muito mais destaque, já que documentários são, de certa forma, mal vistos pelo público geral. O que é uma pena, porque “Visages Villages” é uma experiência única e comovente, que oferece tudo que uma ficção ofereceria, mas com muito mais graça e arte. É uma produção que deve ser vista por todos os amantes de cinema.

Crítica: Visages Villages
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