Eu poderia começar esta crônica de forma bem clichê, dizendo que, depois de um grande e rigoroso inverno, eis que surge a primavera para nos alegrar , mas como se tivemos um “inverno não inverno”? Ficaria meio estranho, porém, nada nos impede de uma reflexão sobre esta estação tão bela…

Ah, a primavera, que nos encanta com suas flores, com seu verde, seus pássaros cantando e sua alegria, quem nunca se rendeu às suas belezas e registrou momentos e paisagens incríveis deste tempo tão belo?

Aliás, registrar momentos e das vários cliques fotográficos, seja com máquinas de fotografar profissional ou aquele velho smartphone, já faz parte de nossa rotina diária e não existe mais aquele cuidado de fotografar somente os momentos mais importantes e com toda a cautela, além da ansiedade de ver a foto revelada e guardá-la cuidadosa e estrategicamente no álbum de família, afinal, poucos são os que ainda conservam o costume de guardar álbuns de família.

Vendo e pensando muito sobre este evento curioso que a tecnologia nos proporcionou, principalmente depois de dois acontecimentos desta última semana, os convido à esta reflexão junto comigo…

Primeiro fato: um simples e relaxante passeio em família, com direito a pic-nic e uma linda cachoeira, sorrisos, confraternização e muita alegria. Saldo ao final do dia: satisfação e felicidade versus nenhum registro fotográfico (pelo menos da minha parte).

Segundo fato: como toda boa mãe, participo de grupos e mais grupos de isso e aquilo nas redes sociais, e para minha surpresa, acordo em um belo dia e me deparo com uma postagem de agradecimento. Uma mãe agradecia às outras, e aproveitava para “deixar a dica”, já que na festa de seu filho, nenhuma criança havia “bagunçado” a festa, e “aguentaram” ficar das 15h às 20h sem “tocar” na mesa do bolo com os doces e salgadinhos, mantendo intacta toda a decoração, permitindo assim, com que pudessem registrar o maior número de belíssimas fotos do dia tão especial, registros estes que “levarão para toda vida”!

Daí eu comecei a me perguntar: será mesmo que o registro fotográfico vale mais do que a vivência do momento? O que realmente levamos para toda a vida? A sensação de felicidade por desfrutar do momento, o cheiro, o toque, a vista e o amor compartilhado ou apenas um arquivo digital que já nem é mais impresso?

O que durará em nossas lembranças: o lazer bem vivido que não rendeu fotos, ou a festa mal aproveitada que deu pra tirar dezenas de fotografias? E cá entre nós, que fome estas crianças não passaram ao esperar cinco horas para comer o bolo?

Pois é, a tecnologia muitas vezes nos cega à ponto de trocarmos os valores das coisas e até mesmo das pessoas, a fotografia, o registro do momento deve existir, mas ele só terá valido à pena se o momento tiver sido bem vivenciado e aproveitado. De que me adianta ter milhões de fotos do passeio se depois ao vê-las não lembrarei e nem retomarei o sentimento bom do que se passava?

Pode não parecer ter sentido começar esta crônica falando sobre a beleza da primavera e depois falar sobre registrar momentos, mas é aqui que entra a reflexão:

A Primavera é uma estação para ser contemplada e vivenciada com todos os nossos sentidos: a sensação do calor da manhã e da brisa da tarde, o perfume extasiante e diverso das flores, a vista bela do nascer e pôr do sol, o límpido azul do céu, a diversidade de cores das flores e plantas, ah, e a sinfonia dos pássaros que vale mais que ouvir as melhores orquestras do mundo!

Sim, está permitido fotografar todos estes momentos que a Primavera nos proporciona, e será maravilhoso também compartilhá-las conosco, mas tudo isto só será válido se já estiver tudo bem registrado em nossas memórias e em nossas almas.

E, bora viver bem a Primavera! Seja bem vinda!