Aconteceu. Você encontrou alguém razoável. Alguém que não quer matar com as unhas de acrigel. Ufa. Alguém cujas visões políticas não são tão distantes que vocês podem conversar com alguma tranquilidade. Alguém cujo sorriso te é agradável e cuja voz não causa pontadas na nuca. Deus é bom. A vida é boa. Oremos. Não tão rápido.

Vocês saíram. Foi legal. Vocês têm papo, vocês têm sintonia, vocês têm química sexual. Parece muito mais do que o suficiente. Acontece que o outro, bom, o outro acha que você foi originada em uma fábrica da Sadia. Explico: meu bem, ele não tem pressa. De te esquentar, de te comer, de te saborear. Você já tá lá. Você já é dele. Garantida. Aquela refeição que pode ser feita na semana que vem, já tá à mão mesmo. Parece cruel? E é. Não é que o outro seja mau caráter (até pode ser), não é que não te curta, é que ele acha que os desejos não cansam. Ele não ouviu os conselhos da mestra Alcione: “você me desama e depois reclama quando os meus desejos bem cansados desagradam aos teus.”. E, sim, eventualmente eles vão cansar.

Desejos já nascem impacientes. Algumas pessoas parecem não saber disso. Por isso, se tornam veganas e não consumidoras de glúten aos 25 anos, não é escolha ética ou restrição alimentar, elas querem é viver para sempre. Nem tendo consciência da constante possibilidade de morte elas têm pressa. Elas vivem se economizando e gastando o tempo dos outros. São aquelas pessoas adeptas dos quinze anos de noivado, porque why not, não é mesmo?

Hoje? Elas não conhecem. Elas não usam o microondas para derreter chocolate, elas insistem em fazer banho-maria porque assim aprenderam com a avó nos anos 80. Elas não se atualizam. “Ah, mas para quê tanta pressa?”. E para que tanto comodismo, caro leitor? É medo de gastar o outro como se ele fosse aquele chiclete à metro que você pega um pedacinho econômico do rolinho porque nunca sabe quando vai acabar? Pessoas não são passíveis de economia, nós já nascemos sendo gastos. A cada dia somos menos. Nossos órgãos mais cansados e nossas emoções mais travadas. Se você encontrou uma pessoa legal, por que tratar o desejo como território conquistado, quando sua natureza é tão impermanente?

Outros olham seu crush, outros curtem seu boyzinho e sua mina, outros são gentis. Esse dado pode te parecer surpreendente, a cronista não quer assustá-lo, mas em bom português falado: outras pessoas também querem comer o seu peguete. E não há nada de errado nisso. Errado é você que não sabe se tá dentro, se tá fora, se é esquerda ou direita, muito pelo contrário. Errado é você que deixa para amanhã a declaração que pode fazer hoje por pura covardia. “E se o outro souber que sou vulnerável?”, é isso que tá estampado no seu inconsciente. Você tem medo. No minuto em que demonstra que deseja alguém as suas veias ficam todas expostas, certo? As suas entranhas convidam as moscas. Mas, meu bem, não há amanhã. Tudo o que dá gosto nesse planeta nos expõe ao ridículo. Gostar é estar vulnerável, sim, e não há nada de extraordinário nisso.

Você acha que tem coisa mais ridícula do que ser artista e acreditar que alguém quer ver as coisinhas que você coloca no mundo? No entanto, quando a gente tá na bad, são as músicas desses bobos da corte que vamos ouvir, são seus filmes que vamos ver, são seus livros que vamos ler. Viver é estar aberto, escancarado no meio de uma avenida sem saber se o carro desvia ou passa por cima. É a regra que já tava aqui quando chegamos. Não, não trate o outro como comida congelada. Você nunca sabe quem vai resgatar aquilo que você congelava na Brastemp há cinco meses e te deixar com fome.

Não sejamos frouxos, não sejamos amedrontados, vivamos o que é da ordem do dia. E se o desejo acabar antes da hora? Bom, aí você vai lembrar que na contemporaneidade a fila não anda, ela nem chega a ser formada. E que no planeta, apesar de nos esquecermos disso, não há apenas um amor possível, somos 8 bilhões de trouxinhas. Ainda bem.


Por Érika Nunes