Uma praça, um banco. Esse é o cenário.

A movimentação por ali começa por volta das seis e meia da manhã.

Um profissional de limpeza urbana chega e dá início aos seus afazeres. Limpa o banco e varre o chão que fica no entorno. Termina suas tarefas e se dirige ao próximo local de trabalho.

Um tempinho depois, um estudante passa por ali com sua mochila e segue em direção à escola.

Um homem leva seu cachorro pra passear. Ou será que o cachorro leva o seu dono? Pela força que os dois fazem, fica difícil saber. E assim continuam, os dois, caminhando nesse impasse.

Enquanto isso, uma mulher chega com seu filho e se senta. A criança prefere ficar sentada no chão e faz do piso – cimento queimado – sua tela. Usa muitas cores para fazer sua obra de arte. A mãe, orgulhosa, observa. Em seguida, chega uma amiga. Elas começam a conversar e colocam o papo em dia. E a criança avança, com esmero, desenvolvendo seu talento. O emaranhado de palavras das comadres se funde aos rabiscos coloridos do chão em volta do banco. Elas se vão; a criança também. A arte continua lá, sozinha, esperando alguém chegar para apreciá-la.

E então, um homem se aproxima. Ele senta e fica ali por alguns momentos, contemplando o requinte e o capricho daquela criação. Depois, tira um jornal do bolso e inicia a sua leitura. Em um instante começa a chover. O homem espera um pouco pra ver se a chuva vai parar. Mas ela chega de mansinho, com chuviscos e vai ficando mais forte. Parece mesmo que veio para ficar. E aí o homem pega o jornal, faz de proteção para não ensopar e vai embora.

A chuva continua. O banco está vazio. E molhado.

Aos poucos o desenho vai sumindo. E bem devagar a água vai deixando a arte apenas na memória.

Finalmente a chuva para. Um solzinho bem tímido vai surgindo e esquentando o banco. Tudo está seco novamente.

Um rapaz que passeava com sua bicicleta, faz ali uma parada. Virou a magrela de cabeça pra baixo e testou as correias. Estavam fora do lugar. Mas ele mexeu e logo tudo voltou a funcionar. Ele volta a pedalar e retoma o seu caminho.

Um homem chega carregado de sacolas de supermercado. Senta e descansa. Observa por uns instantes a paisagem e tudo o que acontece ao seu redor. Respira, pega de volta suas bolsas com as compras, levanta e prossegue com seu trajeto.

Já é início da tarde. Alguns amigos se reúnem para uma partida de dama. Um tempo depois começa a quinta partida. E essa foi a última. Juntam o tabuleiro e todas as peças do jogo e vão embora.

Agora, um encontro está prestes a acontecer. Um homem de terno, acompanhado de um lindo buquê de rosas vermelhas, chega e espera por sua amada. E espera por sua amada. E espera. Espera. O lindo buquê não encontra os braços para os quais foi destinado. Ele tem o doloroso fim de parar na lixeira que estava ao lado. Logo depois o homem parte, desolado.

Depois desse triste episódio, uma cena bem comum acontece. Daquelas que fazem parte do cotidiano de uma praça. Uma senhora senta e dá comida aos pombos. E são muitos pombos. Tantos, que quase soterram a mulher. Mas ela consegue se levantar. E em seguida, após a comida que tinha em mãos acabar, afasta-se e rapidamente sai de lá. As aves continuam a se amontoar para comer. E com o tempo, um por um vai seguindo voo, até sumirem todos. Até restar apenas as migalhas.

Em seguida, aquele mesmo homem que saiu de manhã com seu cachorro para passear, volta agora à tarde para caminhar. Enquanto isso, em direção oposta, uma mulher passa correndo, fazendo cooper, para se exercitar.

Fim do dia, um ensaio fotográfico acontece. A modelo faz as poses, o fotógrafo faz os cliques. E assim que o trabalho acaba, todos deixam o local.

Cai a noite e amigos se encontram pra beber até a madrugada. Algumas horas e muitos goles depois, a festa acaba com muita briga e discussão. Eles desaparecem deixando as biritas pra trás.

Um mendigo passa pelo banco procurando comida. Encontra as pingas e se alimenta delas. Cai no sono e dorme ali até o amanhecer. Quando o sol começa a nascer, ele se levanta, abraça uma das garrafas e segue lentamente até seu próximo destino.

Uma praça, um banco. Esse é o cenário.

A movimentação por ali começa (ou continua) por volta das seis e meia da manhã…