Se antes, foi-se destacado as comédias juvenis criadas em 80 (você pode ler aqui a outra coluna) e que basicamente impulsionaram a criação de um novo gênero no cinema (o de filmes adolescentes), agora merece destaque um outro lado deste grupo: o drama. Obviamente, o drama sempre existiu, mas nunca colocando pessoas jovens como centro do problema. E não seriamente.

Mas, nos anos 80 a figura mudou, e filmes como Juventude Assassina, um dos projetos de estréia de Keanu Reeves, que contava ainda com Dennis Hopper e a direção de Tim Hunter, entrou em cartaz mostrando uma outra face dos jovens, aquela pouco falada e bastante violenta. Centrado em jovens desregulares, que passam seus dias indo bêbados a aula, fumando maconha ou procurando drogas mais pesadas e estão fadados a uma vida marginalizada, até um matar uma garota e começa a mostrar-se para os outros amigos.

Mesmo que muitos do grupo pareçam se sentir incomodados, nenhum liga para polícia ou toma providências, só que um deles não aguenta e acaba denunciando o amigo. River’s Edge, título original, foi um filme independente que acabou chamando muita atenção para gangues juvenis e para este tipo de produção. O filme também pode assustar porque, segundo consta, é baseado em fatos e fala do assassinato de uma jovem no início da década de 80 e que depois comprovou-se foi cometido por um de seus amigos mais próximos, enquanto os outros ou acobertavam ou mostravam desdém.

Um filme clássico dessa época, que têm milhares de menções honrosas, está entre os melhores filmes já produzidos, e realmente merece muito ser falado sempre é Sociedade dos Poetas Mortos, que mistura-se a um gênero que já era conhecido antes, filmes sobre professores (com representante importante de Ao Mestre, Com Carinho), mas dando mais destaque os jovens. Robin Williams interpreta o carismático professor John Keating, que introduz na vida desses jovens não só o amor pela leitura, mas pela vida.

 

Os jovens do filme estão perdidos entre serem quem querem e o que esperam deles. Fadados a estudar em uma escola rígida e de costumes morais que os podam a todo momento, ter um adulto que acredita neles, que os instiga a serem pessoas melhores, faz com que eles comecem a decidir por suas próprias vidas. Não há dúvidas de que Robin Williams é o grande chamariz deste filme, e que sem sua presença irradiante o longa não teria conseguido nem metade da popularidade que tem. Porém, o ótimo roteiro, o protagonismo dos jovens, seguido de seus sonhos e dramas elevaram o nível deste filme, fazendo com que ele seja um filme tão bom quanto Ao Mestre, Com Carinho.

Indo um pouco na contramão dos indicados, Conta Comigo transformou-se em um clássico da Sessão da Tarde, muito querido entre o público juvenil. Ele começou bem pequeno e desvalorizado, com vários estúdios não vendo coisas boas sobre esta obra que é uma adaptação do mestre do terror Stephen King, mas quando lançado agradou tanto que foi uma das surpresas de bilheteria do ano de 1986. Stand By Me, o nome original, conta a história de quatro amigos com idades entre 12 e 13 anos, vindos de famílias disfuncionais, que passam muito tempo sozinhos e precisam aprender a amadurecer sozinhos.

Ao contrário de Sociedade dos Poetas Mortos, esses adolescentes não têm ninguém que verdadeiramente se importe com eles ao ponto de instigá-los e a amizade que constroem é basicamente a única coisa estável em suas vidas. Ao se depararem com um corpo em uma de suas aventuras, os amigos se vêem em meio a assuntos grandes e difíceis, com perguntas e dúvidas que antes não tinham que enfrentar. Apesar de serem de famílias disfuncionais, como os adolescentes de Juventude Assassina, os de Conta Comigo ainda estão na fase de descobertas e, até aquele momento, são apenas pessoas deslocadas do meio que estão inseridas. Merece destacar que o filme foi uma das maiores inspirações para a popular série da Netflix Stranger Things.

Filmes como os citados acima têm em seus principais temas jovens. E não apenas isso, eles tratam temas como violência, meios sociais disfuncionais, drogas, assassinatos, suicídios, e etc, assuntos que antigamente não eram co-relacionados a pessoas jovens e que poucas vezes antes o cinema mostrava (vale destacar que com alguma desconfiança, jovens foram retratados em filmes como Juventude Transviada, com James Dean, mas eram filmes datados e menos profundos, apesar de com grande significância).

Bônus:

Seguindo a herança deixada por filmes como os citados acima, Keanu Reeves e River Phoenix, um dos atores protagonistas de Conta Comigo, gravaram no começo da década de 90 o intenso Garotos de Programa, de Gus Van Sant. Visto como um filme perigoso para carreira de ambos atores, Reeves era conhecido como ator de comédia, com um pé na ação (graças a filmes como Bill & Ted e Caçadores de Emoção, apesar de Juventude Assassina ter ganhado prêmios, Keanu não teve grandes reconhecimentos como ator por essa produção) e Phoenix era visto como um bom moço, com filmes dramáticos onde ele era o injustiçado, parecia incoerente para ambos atores aceitar fazer um filme sobre jovens que se prostituíam e assuntos como homossexualidade, drogas, violência e mortes.

Foi graças a década de 80 e sua popularização de temas mais densos que filmes como Gênio Indomável, Diário de Um Adolescente, entre outros puderam ser produzidos.