A Hora da Estrela, terceiro espetáculo da Definitiva Cia. de Teatro, estreia dia 20 de janeiro no Teatro 1 do Sesc Tijuca seguindo a trilha da pesquisa de linguagem empreendida pela Cia. desde a sua fundação: a relação entre a música e a cena num espetáculo teatral; o limite do que se entende como teatro musical e suas variações – “teatro musicado”, “teatro com música” – bem como os seus tensionamentos como é o caso do teatro chamado “épico”.

Com sessões de sexta a domingo, 20h, a Cia. apresenta o último romance escrito por Clarice Lispector contando as desventuras de Macabéa, uma jovem nordestina que vive no Rio de Janeiro sem saber ou mesmo questionar os porquês. “Virgem e inócua”, ela sente dores. Péssima datilógrafa, trocada pelo namorado que nunca o fora de fato, com cheiro ruim, cor de “burro quando foge”, Macabéa é daquelas que passam pela vida sem se dar conta do que é existir. Sua vida parece ter chegado a um beco sem saída até o momento de uma grande reviravolta.

Macabéa é um possível alter-ego de Clarice, que usa de um narrador fictício (outro alter-ego), Rodrigo S.M., para colocar a própria construção da narrativa em perspectiva. Nesta adaptação, a Definitiva Cia. de Teatro coloca a mesma perspectiva do ponto de vista da construção da narrativa teatral, assumindo os lugares tanto do escritor como dos personagens, usando a música como uma das camadas dessa escrita cênica.

“A nós, mais do que a fábula aqui brevemente descrita, interessa levar à cena o encontro entre o artista – escritor – e a dificuldade de conformar em uma experiência estética o seu objeto de desejo – a obra; o exercício diário, exaustivo e quase aprisionador – quase, uma vez que através dele podemos vislumbrar um grito de liberdade – pelo qual passa Rodrigo S. M. em busca de dar voz ao grito de direito daquela nordestina é uma imagem poética do trabalho de uma companhia de teatro que se dá a missão de conformar em um aparelho – o teatro – uma obra complexa no que tange às camadas da sua constituição. Mostrar a tentativa de Rodrigo é mostrar através de um exercício metalinguístico a tentativa da Definitiva Cia. de Teatro.” diz Jefferson Almeida, adaptador e diretor.

Dentro da trajetória da Cia., A hora da estrela significa um passo bastante significativo; depois de passar por uma montagem de um musical brasileiro clássico – Calabar, o elogio da traição, de Chico Buarque e Ruy Guerra – onde buscou entender a função da música dentro deste tipo de dramaturgia que já difere do musical americano onde as canções substituem diálogos, por exemplo, a Cia. se debruçou sobre um épico – “Deus e o diabo na terra do sol”, de Glauber Rocha – onde a função narrativa da música era investigada de maneira muito potente, se utilizando do cordel musicado por Sérgio Ricardo como uma camada da dramaturgia, se aproximando da maneira como o encenador alemão Bertolt Brecht lida com a música na maior parte de suas peças: como um recurso de comunicação elaborado e de extrema eficiência, parte da narratividade da peça, então, estava a cargo da canção. Em “A Hora da Estrela”, a música é parte componente da encenação criando uma dramaturgia paralela ou uma escrita musical.

Levada pela importância da música para a personagem central, viciada em rádio, e pela quantidade de músicas já criadas a partir desse último romance de Clarice Lispector, a Cia. se utiliza dessas canções – as criadas a partir do livro e as citadas no livro – para perguntar: como se constrói uma cena onde a música é a cena? E assim nós temos, pela primeira vez, os atores da Cia. tocando instrumentos e executando a música em todas as suas instâncias. Em outras palavras, a música, aqui está em cena em toda a sua plenitude: o ato de tocar e fazer música é a cena e meta-cena, ou seja, em outra camada, serve de esteio onde repousa a vida ficcional das personagens

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