Os movimentos de vanguarda do século XX – como o dadaísmo, o futurismo e a Bauhaus – foram cenário para o nascimento de uma nova arte: a arte performática. Esta é conhecida por não deixar claro o que é encenado e o que é real, já que ambos se misturam, e por seu caráter instigador das mais diversas discussões ao balançar a zona de conforto. Para atingir seu objetivo, o artista utiliza-se da técnica e dos recursos que julga necessários para comunicar suas percepções, e seu corpo é o meio para a transmissão da mensagem. Anna Costa e Silva é a brasileira que trouxe um pouco dessa arte diferente do combo convencional esculturas/quadros/fotos para a ArtRio 2017.

A Feira Internacional de Arte do Rio – ou ArtRio, para os íntimos – reúne, em um mesmo espaço, obras de diversas galerias do mundo, tanto de artistas renomados quanto de novos nomes da arte. O evento teve sua sétima edição entre os dias 13 e 17 de setembro na Marina da Glória, lugar que adicionou um charme extra à experiência da feira, cuja realização anterior se deu no Pier Mauá. A importância da mostra é a de estimular e apoiar o desenvolvimento e a disseminação da arte no país, aumentando assim o contato dos brasileiros com diversas expressões culturais. Telas, fotos, esculturas, impressões digitais e obras multimídia compunham o acervo apresentado.

Portinaris, Milhazes, Palatiniks e Di Cavalcantis podiam ser encontrados pelas paredes dos diversos setores e eram constantemente encarados e observados por olhos curiosos que surgiam em fluxo contínuo, indicando o sucesso do evento. Esses eram alguns dos já consagrados artistas, cujos estilos são reconhecíveis e os sobrenomes nas plaquinhas nos soam familiares. Porém, os novos criadores despertaram reações igualmente entusiasmadas, e um deles, em especial, trouxe proposta interessante e que desperta reflexões.

A primeira coisa com a qual nos deparamos ao entrar no espaço destinado às obras de Anna Costa e Silva é uma cama com um fone de ouvido. Forro simples, estrutura de ferro, fones comuns. Até aí nada especial. Com um olhar mais atento, porém, percebemos uma prancheta presa à cabeceira com uma folha na qual se lê “Chamada para conversar antes de dormir”. No papel-arrancado-de-caderno, a artista escreve que gostaria de visitar a casa do leitor e ouvi-lo logo antes que ele dormisse, e acrescenta que irá sozinha, com seu gravador, e conversará sobre o que o sujeito quiser, até caírem no sono. Ela oferece fazer o encontro em sua própria casa, se assim for preferido.

Com essas simples anotações, em letra despretensiosa, Anna quebra as barreiras entre o artista e o espectador, trazendo este para dentro de sua base criativa, cujo material é angústia, desejos, dores e os pensamentos mais profundos do humano. A escolha do momento logo antes de pegar no sono para a realização da conversa não é por acaso, uma vez que é neste que nos encontramos mais vulneráveis, pensativos e quando, aos poucos, nos entregamos ao subconsciente. As horas da madrugada são conhecidas como as “dark hours” ou até “lonely hours”, justamente por serem as mais reveladoras e até agonizantes, pois a cidade dorme, as ruas estão escuras e vazias e o efeito que isso causa nas pessoas é o de solidão e retorno a si e às suas questões. Anna lida com gente. Ela extrai suas criações do material mais rico possível: o outro.

Uma provável inspiração para Anna é Marina Abramovic, artista sérvia considerada avó da arte performática e que está em ação desde os anos 70. Marina é conhecida mundialmente por suas performances ousadas e muitas vezes perigosas, e seu material de trabalho se assemelha muito ao de Anna: ambas exploram o rotineiro, o cru, o humano – como desejos, frustrações, amores –, conferindo a essas pequenas banalidades-não-banais uma moldura subjetiva, uma vez que seus trabalhos não são penduráveis. Os temas mais recorrentes de Marina são seu relacionamento com a plateia e os limites do corpo e da mente, e, assim como Anna faz atualmente ao aceitar os mais diversos convites, Marina sempre colocou seu corpo disponível em seus trabalhos, mas de uma forma mais extrema, chegando a deixar-se ser ferida com facas e ameaçada com uma pistola em seu pescoço durante uma de suas performances.

Outra obra de Anna exposta no ArtRio chama-se “Ofereço Companhia” (2016), que segue a mesma linha da primeira, no sentido de contar com a participação de desconhecidos. São 3 fileiras com 7 papéis cada, nos quais estão anotados afazeres e encontros marcados, formando uma espécie de agenda. A placa nos explica:

“OFEREÇO COMPANHIA Para qualquer pessoa, em qualquer atividade ou horário // – Apoio moral // – Burocracias // – Escuta de crises // – Projetos // – Tédio // – Coisas não realizadas por falta de companhia // – Outros (…)” E oferece seu e-mail e telefone.

Nas páginas, Anna anota os encontros a que foi requisitada e as propostas que recebeu. Elas variam desde caminhadas em um cemitério para conversar sobre a vida e impermanência, até rasgar contas acumuladas desde 2001 em um apartamento, ser acompanhante em um pocket show de canto indiano Dhrupat com meditação, ou simplesmente sentar nas mesinhas de uma livraria para conversar sobre o amor. A parte performática da arte de Anna são os próprios encontros enquanto acontecem, então o que vemos dessa performance é o material frio – os registros.

O mais curioso de tudo e talvez o que a artista esteja nos mostrando é que as pessoas chamaram uma estranha para conversar, sair, se abrir. O quanto isso diz sobre a sociedade moderna, na qual, para muitos, é mais fácil encontrar companhia em uma estranha do que em seus próprios amigos? As pessoas parecem estar sempre ocupadas, correndo, sem disponibilidade para um simples programa ou sem vontade de experimentar uma atividade mais elaborada ou diferente. Pode parecer mais fácil, também, procurar uma desconhecida, alguém cujo julgamento não preocupa tanto, para cuspir seus medos e mostrar suas inseguranças. Esse outro vê nossa face sem máscaras, nossa alma nua, mas depois não temos que lidar com os desdobramentos disso. Duas frases ditas por alguns dos participantes da experiência artística nos mostram o teor cru e sincero que resulta desse conforto do falar para o desconhecido e de sentir-se cuidado: “Vivo cheia de gente e me sinto só” e “Como o ser humano é carente de afeto e cada vez mais não olhamos para os lados, pros nossos… vai ser lindo conversar com alguém, tow precisando”.

Anna abre reflexões, provoca o público a rever todos os convites que já recusou e, ao mesmo tempo, a pensar em sua própria solidão. O trabalho da artista pode parecer adorável ou fofo à primeira vista, mas é uma deliciosa facada e um soco no estômago conforme se vai digerindo-o.