Estamos em uma fase do capitalismo em que não se vendem mais produtos, e sim experiências. Não se compra mais uma camiseta apenas com a finalidade de vestir. Compramos uma camiseta pelo que ela, sua estampa, corte ou marca representam e pelo grupo com o qual nos identificamos usando aquela camiseta. Isso explica o fenômeno de marcas como a Supreme, que vende em pouquíssimas lojas e com pouca divulgação, quem veste Supreme, ainda que tenha que pagar um preço bem mais alto, sente-se parte de um grupo restrito composto por celebridades, influenciados digitais e skatistas ligados ao mundo da moda. Não é apenas uma camiseta branca com um logo em vermelho. É um sentimento de pertencimento.

Se modificamos nosso modo de se relacionar com o que vestimos, também mudamos a forma de consumir. E isso se relaciona tanto aos conceitos de upcycling, slow fashion e consumo consciente – hoje até marcas de fast fashion como a H&M estimulam a diminuição do consumo de roupas – quanto com a forma que compramos nossas roupas. Existem grifes como a “Agora que sou rica”, a nova queridinha das blogueiras brasileiras, que era um blog e se tornou uma loja 100% online, que só existem nas plataformas digitais.  Além disso, uma forma de consumo de roupas e acessórios que vem se proliferando são os “guide shops”, no Brasil o mais famoso exemplo é a Amaro, uma loja física e on-line sem vendedoras, mas com consultoras sempre disponíveis para te ajudar a escolher as peças, um tipo de personal stylist mais acessível.

Se mudamos nosso relacionamento com o vestuário, nossa forma de consumo por que não modificamos a forma que as coleções de moda são apresentadas? Isto é, será que em tempos de mudança geral na forma do consumo de roupas e acessórios os tradicionais desfiles de moda em passarelas e calendários fixos são a melhor forma de conhecermos as novas criações das grandes grifes fashion?

Desfile na primeira semana de moda do mundo em 1943

É certo que desde 1943, quando foi criada a primeira semana de moda do mundo, em Nova York, os desfiles já mudaram muito. Ainda que existam o big-five das cidades com os maiores desfiles do mundo (Nova York, Milão, Londres, Paris e Berlim) praticamente toda grande cidade do mundo tem sua própria semana de moda. Hoje se discute, dentro das passarelas a diversidade de todas as formas, o fim do racismo, da gordofobia e da desigualdade de gênero dentro da moda. Todas essas discussões tentam deixar as Semanas de Moda mais coerentes com o tempo em que vivemos, mas não parece ser o bastante.

Desde o ano passado a São Paulo Fashion Week adotou um modelo de desfile que está sendo adotado por outras Semanas de Moda há alguns anos: o “see now, buy now”. Buscando adaptar-se a nossa cultura do instantâneo e da efemeridade, hoje qualquer peça das coleções apresentadas nas passarelas já está disponível nas lojas, mas não parece ser o bastante.

O próprio público dos desfiles já se modificou. Em 1943, quando a Semana de Moda ainda se chamava “Press Week”, apenas especialistas de moda sentavam-se na primeira fileira. Hoje, a primeira fila dos desfiles são povoadas por celebridades e influenciadores digitais que muitas vezes pouco se relacionam com o mundo da moda, mas que fazem as coleções terem mais repercussão nas redes sociais, mas não parece ser o bastante.

Ainda estamos no meio da temporada de moda. A Paris Fashion Week acabou de começar e a Berlim Fashion Week ainda nem começou, mas desta vez multiplicaram-se as formas novas de se divulgar um desfile e está latente a necessidade de criar mais formas. Apesar de trazerem inovações na moda, os desfiles em passarelas convencionais estão cada vez mais tediosos.

Em Nova York, a #WangFest, o after-party de Alexander Wang levou a coleção das passarelas para as ruas da cidade com direito às modelos, que também são influenciadoras digitais, passeando descontraídas pelas ruas levando na cabeça um arco festivo com os dizeres #WangFest.

Em Londres, Gareth Pugh evitou os desfiles e escolheu um filme dirigido por Nick Knight para apresentar sua coleção. Além de ter mais liberdade criativa em um filme, as possibilidades são mais amplas, o designer considera os desfiles caros e pouco sustentáveis. Desde 2015 ele vem adotando este modelo e sendo muito bem-sucedido.

A própria inexistência de um desfile para uma marca tão influente hoje como a Supreme, nos diz que talvez os desfiles não sejam assim tão imprescindíveis para o sucesso de uma marca ou de uma coleção.

É claro que dentro dos desfiles tradicionais ainda há espaço para inventividade. Os desfiles conceituais de Ronaldo Fraga ou o desfile no início do ano da Chanel de Lagerfeld com direito à uma nave espacial e à modelos-robôs, mostram que as Semanas de Moda não precisam ser chatas, ainda há o que criar dentro da fórmula. Contudo, o tempo e as tendências avançam a passos largos e precisamos de desfiles que cada vez mais correspondam aos nossos tempos.