INSPIRADAS NAS TONALIDADES DE PELE, A SÉRIE “POLVO” É SOBRE RELAÇÕES RACIAIS PASSADAS QUE SE ARRASTAM AO NOSSO SÉCULO

Sempre percorre pela obra da artista carioca Adriana Varejão temas como colonização, antropofagia e canibalismo. Na mostra “Polvo” a artista incorpora novas cores ao tema da miscigenação, que é retratado por ela em trabalhos anteriores. Foi por meio de um censo do IBGE em 1976, a Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílio, que Adriana se interessou pela abordagem. Pela primeira vez era feita uma pergunta aberta aos brasileiros. Tratava-se de um assunto que nunca se encerra: “Qual é a sua cor de pele?“. A contagem das respostas resultou em 136 cores. As nuances traziam nomes como “sapecada”, “encerado”, “branquinha”, “morena-bem-chegada”, “morena-jambo”, “queimada de praia”, “cor-de-ouro” e outros.

Celacanto provoca maremoto  (2004-2008) – Inhotim Centro de Arte Contemporânea, Minas Gerais, Brasil

Nascida no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha atualmente, Adriana realizou a sua primeira exposição individual em 1988. Por meio da releitura de elementos visuais incorporados à cultura brasileira pela colonização, a artista discute relações paradoxais. Usa a pintura de azulejos portugueses com referência à crueza e agressividade da matéria nos trabalhos com “carne”. Envolve a noção entre sensualidade e dor, violência e exuberância.

Seus trabalhos mais recentes trazem referências voltadas para a arquitetura, inspirada em espaços como açougues, botequins, saunas e piscinas. Eles abordam questões tradicionais da pintura, como cor, textura e perspectiva. Adriana Varejão é uma das artistas plásticas brasileiras contemporâneas mais bem-sucedidas do mercado. Ela tem no currículo exposições por grandes centros de artes do mundo. Londres, Nova York, Lisboa e por aí vai. A sua inspiração percorre dos botequins cariocas até os banheiros públicos europeus. Em entrevista para a revista TRIP, Adriana conta que sempre se interessou sobre a discussão de raça no Brasil. Por isso, a obra “Polvo” traz a magia de toda a mistura que temos.

Sem maiores pretensões, Varejão estava colecionando cosméticos com cores de pele que comprara pelo mundo todo. Elas variavam em torno de um tom claro e meio rosa. Quando ela soube dessa lista retomou a questão que tinha abordado em “Ex-votos e peles” (de 1993) e “Testemunhas oculares x, y e z” (de 1997). O objetivo principal era criar tintas especialmente pensadas e fabricadas a partir das definições dadas pelo povo nas pesquisas. Além disso, fugir do que tratam universalmente como “cor de pele”. Tanto em tintas como em lápis de cores essa “cor de pele” é um rosa bem claro. Quem já precisou dar cor a uma pele em alguma ilustração sabe que esse tom não representa a cor de ninguém.A partir da variação de tonalidades, ela selecionou 33 nomes da lista feita pela pesquisa. Acomodou em uma caixa de madeira com 33 bisnagas, em tiragem de 200 unidades, num conjunto de 33 tintas. Então, a artista encomendou a retratistas chineses, especializados nesse tipo de trabalho, que ilustrassem vários retratos de seu rosto para ela poder realçar usando as tintas. Sofrendo a interferência dessas cores, os retratos foram projetados para mostrar “um anonimato, ausência de autoria” que a artista buscavaPara completar a obra, são expostas 12 telas com palhetas de cores utilizadas por Adriana.

Além desse projeto, a sua paixão pela antropologia a motivou a escrever um livro. Com a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, produziu o intitulado “Pérola Imperfeita”. O livro, que fala sobre a miscigenação e a colonização europeia na América, é uma reflexão entre história e arte. Seu trabalho prova que o Brasil é um lar de muitas vozes. Se apresenta como uma profunda investigação de como as relações raciais estabelecidas no brutal passado colonial brasileiro ainda se arrastam à superfície em pequenos conflitos da vida no século XXI. “Pérola Imperfeita” não é o único trabalho literário e “Polvo” também não é a sua única obra artística. Por isso, é importante valorizar todas as propostas da artista e ficar de olho nos projetos anteriores e futuros.