Vamos falar de biografias. E para homenagear a vida, devemos fazer jus a este gênero. É por esse motivo que escolhemos nada menos que os diversos olhares sobre o cantor, compositor e grande artista Raul Seixas (1945+1989), o pai do rock brasileiro.

As aparências enganam, principalmente quando falamos desse fenômeno que agradou a gregos e troianos. Quando se fala em Raul, para muitos vem à mente a ideia de um “Maluco beleza”, expressão criada pelo próprio em uma de suas canções e como realmente ficou conhecido no Brasil, envolto em substâncias ilícitas além de álcool e diversas polêmicas. Mas a verdade é que ele sempre foi um intérprete, e como o mesmo sempre dizia: “eu sou tão bom ator que finjo que sou cantor e compositor e todo mundo acredita”. Por vezes acreditou em seu próprio personagem, derivado de um de seus alter egos. Talvez se perdeu no meio do caminho, porém, são tantas as histórias em torno do mito criado, que há os crentes de um ídolo que realmente escolheu o momento do seu fim neste lugar que ainda nos encontramos.

Raul Santos Seixas queria simplesmente cantar e falar ao mundo os questionamentos que pairavam em sua mente inquieta e estimulante. Conseguiu. Porém os percalços da vida, desde a sua estreia na Bahia e os anos que se sucederam no Rio de Janeiro na década de chumbo em que o país se encontrava o levou para um caminho sem volta. A parte da música, o envolvimento com a magia, que ele mesmo duvidava e as perseguições políticas, vocês podem encontrar em “Raul Seixas a História que não foi Contada” de Elton Frans da Editora Irmãos Vitale, ano 2000.

Outra boa pedida para os amantes da música brasileira que floresceu no ambiente da contracultura na década de 70 é a obra “Raul Seixas- A mosca na sopa da ditadura militar- censura, tortura e exílio” da SCORTECCI Editora, ano 2014, de Paulo dos Santos. Nele, o autor analisa o contexto histórico ao qual Raul estava inserido para explicar como se deu a sua carreira artística , percorre o cenário cultural brasileiro em meio à censura e traça um paralelo entre os documentos ditatoriais e as letras “raulseixistas” bloqueadas pelo Estado. A abordagem que o livro faz está focada entre os anos de 1970 e 80. Bastante interessante, não só para os fãs, mas, sobretudo para aqueles a quem a História é imprescindível, principalmente na análise dos fatos a serem tratados.

Há diversas biografias que focam em determinadas fases da vida de Raul Seixas, baseadas em fatos verídicos, depoimentos relatados por amigos, familiares e conhecidos. E também em documentos, tais como fotos, cartas, objetos guardados no famoso baú (mexido, virado e revirado muitas vezes). Uma das mais famosas data do ano de 1992, lançada pela Editora Globo e organizada por uma das suas ex-companheiras e esposa Kika Seixas, juntamente com o jornalista e crítico musical Tárik de Souza. Chama-se “O Baú do Raul”, peça conhecida de todos os admiradores e experts do artista. O livro reúne poesias, escritos e desabafos do cantor. Outra não menos conhecida é “Raul Seixas por ele mesmo”, do fã, amigo e fundador do Raul Rock Club/Raul Seixas Oficial Fã-Clube, Sylvio Passos, eterno guardião dos pertences além das produções conhecidas e desconhecidas do “Cowboy fora da lei”. Lançado em 1990 pela Editora Martin Claret, conta com um material extremamente precioso a respeito deste homem que não esperou o trem passar e abriu caminho para que muitos pudessem se expressar posteriormente, como ele mesmo ressaltou em sua música “Geração da luz”. Merece todas as possíveis (e impossíveis) reverências!

Toca Raul! Hoje e sempre!

“(…)Buliram muito com o praneta,
O praneta como um cachorro eu vejo,
Se ele já não guenta mais as pulgas, se livra delas
no saculejo!
Hoje a gente já nem sabe,
De que lado estão certos cabeludos, tipo
estereotipado,
Se é da direita ou da traseira,
Não se sabe lá mais de que lado!
Eu que sou vivo pra cachorro,
Quando eu tô longe eu tô perto,
Se eu não tiver com dermofíl eu tô sempre aqui com o
olho aberto!
A civilização se tornou tão complicada,
Que ficou tão frágil como um computador,
Que se uma criança descobrir o calcanhar de Aquiles,
com um só palito pára o motor.
Tem gente que passa a vida inteira,
Travando a inútil luta com os galhos,
Sem saber que é lá no tronco que tá o coringa do
baralho!”

(Trechos da música “As Aventuras De Raul Seixas Na Cidade De Thor”)


Por Susana Savedra