É

você pensou que nunca cairia, né mesmo

que as coisas seriam estáticas como os seus olhos castanhos

mas nem o seu cabelo consegue ficar

nem sempre o que a gente deseja é da ordem da mão

nem sempre o que a gente conta é o que é

você pensou que o mundo como conhece seria o mundo como conhece e só

já não é muito?

já não é pesado?

mas seus calos são frescos e seu salgado correnteza

porque você tem o hábito de fluir e fruir e fluir

ah

mas a sua memória não ensina

você acha que sabe tudo

você acha que ninguém cansa nunca

do seu próprio laço

mas há quem enforque

se quem te ama te traiu é porque você quis segurar o que não cabia entre os dedos: somos todos escorregadiços e solenes

você se leva a sério demais

mas acredita em mim

só um pouquinho

só na ponta da minha unha

não há paz eterna

e nem há aflição repetida

nunca é igual

nem tente

levanta um pouco o queixo

e deixa eu ver a sua barba

você cresceu

o tamanho das suas pernas é do tamanho do mundo que supõe ter e nem sempre somos tão magros

vá de lado até ter a cor que deseja

vá de frente se quiser trombar

só não se pese tanto

não cabe acompanhar o que é do indizível

queremos sempre e queremos muito

mas o que queremos pode nem ser a totalidade da beleza emprestada

se empreste a si mesmo

se doe ao trato

se negue ao prato

não coma o que baba na boca

avoa.


Por Érika Nunes