Nos últimos dias, um assunto que – há muito – se tem falado voltou à tona após o reality show mais assistido do país ser palco daquilo que muitas vivenciam diariamente, mas que, na maioria das vezes, é passado em branco.

Estamos falando aqui de machismo. De relacionamentos abusivos. De relações de poder, que prendem, machucam, extrapolam todo e qualquer limite e que, infelizmente, são tidos como normais. No caso que repercutiu Brasil afora, o médico (ou seria o monstro?) agrediu durante tantos e tantos episódios do reality a namorada. Entre acusações, pressões constantes, gritos, dedos apontados, abraços e beijos forçados, veio o último: as marcas no corpo causadas por agressão física.

Se um caso que veio à tona, visto por câmeras que transmitiam tudo ao vivo no país 24 horas por dia, já foi motivo de descrença e dúvida em relação ao que o “homem bonzinho” tinha feito quanto a “menina louca, insuportável e chata”, não é de se admirar a quantidade de casos parecidos que acontecem diariamente, em casas que não possuem filmagem alguma, e que, muitas vezes, a voz da vítima é posta em questão e tudo o que ela fala é negligenciado. Até quando?

Até quando o programa permitiria que tal casal continuasse junto, com o médico sendo extremamente machista, agressivo e abusivo com a estudante se não fosse uma delegada, com todo seu poder jurídico, intervir para mudar a situação? Até quando os homens sairão por cima como “coitados” de todas as situações e as mulheres se sentirão as culpadas pelo próprio sofrimento e abuso pelos quais passavam?

O machismo mata. No Brasil, a cada uma hora e meia, 500 (!!!) mulheres são agredidas por seus companheiros – ou às vezes nem companheiros. – E, infelizmente, não para por aí. Agressão não é apenas física, mas sim moral, psicológica, sexual, patrimonial, econômica, entre tantas outras por aí.

Enquanto não existir a conscientização de que o machismo é um mal enraizado na sociedade, que se trata de um problema estrutural e que precisa ser combatido o mais urgente possível, muitos casos parecidos com o do reality se repetirão em casas não vigiadas onde a polícia muitas vezes não fica nem sabendo.

Dito isso, vamos falar de coisa boa ((afinal, o nosso Vivacité é para trazer paz, não é mesmo?).

Após a emissora ter tomado as devidas medidas contra o agressor em questão, a cena que mais chamou a atenção (e foi motivo de orgulho) aconteceu quando duas das competidoras, uma tida como “inimiga” da vítima, fez aquilo que chamamos de sororidade: mesmo sendo adversárias em jogo, as duas se uniram em apoio à que estava vivendo o relacionamento abusivo, deixando claro que a culpa não era dela e que o único errado da história era o próprio agressor.

Sororidade, no dicionário, diz se tratar da “Relação de irmandade, união, afeto ou amizade entre mulheres, assemelhando-se àquela estabelecida entre irmãs. União de mulheres que compartilham os mesmos ideias e propósitos, normalmente de teor feminista”. Ou seja, uma por todas, todas por uma.

Foi exatamente assim que aconteceu no programa. Independente de desavenças, competição, ou quaisquer outros empecilhos, o que prevaleceu ali foi o apoio dado a vítima num momento tão delicado e triste. E isso é sim motivo para celebrar. Num mundo tão cruel e difícil de se viver, com tantas injustiças e um leão a se matar por dia – principalmente pelas mulheres, nas questões de gênero – é cada vez mais importante a união delas e a força que uma transmite à outra em tempos de crise.

Um abraço, uma conversa, um aperto de mão, um olhar de quem passa ou já passou o mesmo que você é melhor do que dez porres de cerveja para esquecer aquele dia amargo, difícil de engolir. A união sempre fará a força e nunca terá outra finalidade sequer a soma. O amor. A paz.

A certeza de que pode não estar tudo bem. Mas vai ficar. E, principalmente: você não está só.

Por isso, em tempos sombrios, fica aqui a minha súplica: mulheres, unam-se! Homens, entendam que o machismo existe e precisa ser combatido, dia a dia, nos seus pequenos gestos.

E pratiquem a sororidade. Ninguém tem nada a perder.