“Em um lugar chamado lugar nenhum” é uma peça de autoria da atriz Agatha Duarte que fez primeira temporada em 2015 no CCBB-RJ e, desde então, tornou-se sucesso de público e da crítica especializada, angariando prêmios, fazendo o circuito Sesc do estado do Rio de Janeiro, Festival de Teatro do Rio e reestreia no Espaço Furnas Cultural a partir de amanhã em temporada de apresentações gratuitas. Em cena estão a autora, Samuel Paes de Luna e Guilherme Dellorto. Conversamos com a atriz sobre escrever para teatro, aprender a produzir projetos, a recepção do público e planos para o futuro.

Flora Menezes: Como você começou a escrever para teatro? 

Agatha Duarte: Sempre gostei muito de escrever, principalmente poesias, mas também era muito insegura com meus escritos e mostrava para pouquíssimas pessoas os textos que eu produzia. Teve um período da minha vida que eu estava sem nenhuma perspectiva de trabalho como atriz e então resolvi arriscar e escrever um esquete para eu encenar. Mostrei para um amigo diretor que gostou muito e perguntou porque eu não transformava em uma peça. Na hora achei a ideia meio absurda, mas com o tempo tudo foi se encaixando e dando certo. Hoje estou escrevendo meu quarto espetáculo e não consigo mais imaginar minha vida sem escrever.

FM: Este foi o seu primeiro texto encenado?

AD: Sim. Foi o primeiro texto que escrevi e o primeiro a ser encenado.

FM: Quais foram as suas referências teatrais e/ou literárias para este texto?

AD: Esse texto é uma grande homenagem à cultura nordestina, então minhas principais referências foram Ariano Suassuna, Patativa do Assaré, Jessier Quirino e autores de livrinhos de cordel. Também tive forte influência de Adriana Falcão, que não é nordestina, mas viveu grande parte de sua vida lá, além de ser uma mulher que eu admiro demais.

FM: Como foi a formação da equipe e elenco na época da primeira temporada e como está a configuração desta hoje? Houve mudanças no texto ou encenação durante as temporadas?

AD: Eu escrevi esse espetáculo para celebrar o amor, então sempre trabalhei com pessoas que, além de talentosas, eram muito queridas. Como já estamos em cartaz há dois anos algumas substituições foram feitas e a família só está crescendo. Antes quem dividia a cena comigo era o Rafael Canedo (de “Malhação” e”Pé na Cova”) e o Samuel Paes de Luna (de “Velho Chico” e “A lei do amor”) era o stand in dele. Hoje o Samuel é o meu par oficial. O Guilherme Dellorto saiu por 1 ano por conta de outros trabalhos e foi brilhantemente substituído pelo Daniel Carneiro durante esse período, mas para a temporada de Furnas o Gui está de volta. Então nossa formação para Furnas é com todo mundo que começou o trabalho. Teatro é bom por isso. Estamos sempre nos reencontrando.

FM: Como foi levantar a produção deste espetáculo e mantê-lo em cartaz dois anos depois?

AD: Foi bastante trabalhoso. Eu nunca tinha feito nada parecido e de repente me vi em um mundo completamente novo tendo que aprender tudo praticamente sozinha. Aprendi a inscrever em editais, preencher leis de incentivo… sem contar a produção executiva que eu também tive que fazer. Mas todo esse trabalho valeu à pena, porque nosso currículo está bem bacana. Estreamos no CCBB, depois fizemos alguns SESCs do estado do Rio de Janeiro, participamos de três importantes festivais de teatro e agora vamos fazer essa temporada no espaço Furnas Cultural. Também fomos contemplados no edital SESI- SP viagem teatral e estamos com uma circulação prevista para 2018 pelo interior de São Paulo.

FM: Você já escreveu ou produziu outras peças depois desta?

AD: Meu próximo trabalho tem previsão de estreia para maio de 2018. Será meu segundo texto encenado e se chama ” O que só passarinho entende”. É um monólogo que eu escrevi para Samuel Paes de Luna e convidamos o Isaac Bernat pra dirigir. A produção é minha e do Samuel, que se tornou um grande parceiro meu.

FM: Como o trabalho de produtora influenciou o seu ponto de vista como atriz?

AD: Acho que eu ganhei uma visão mais holística das coisas. Eu sempre penso como o outro gostaria de ser tratado e qual a melhor maneira de resolver um problema. Eu produzo para poder trabalhar com o que eu acredito, passar uma mensagem que faz sentido pra mim. No meu ponto de vista todo o ator deveria aprender a produzir, pois acho que essa é a única maneira de não ficar tão à mercê nessa nossa profissão que não é nada fácil.

FM: Você ganhou o “Botequim Cultural” de “Melhor atriz” em 2015 por esta peça. Sente que este reconhecimento abriu portas para a sua carreira e a do espetáculo?

AD: Eu me senti muito honrada e feliz em ganhar um prêmio de voto popular, pois significa que o meu trabalho tocou o público e isso é muito importante pra mim. Com certeza ter prêmios no currículo ajudam na trajetória do espetáculo, mas o mais gratificante é saber que as pessoas se sentem verdadeiramente tocadas com a peça, que elas param para refletir sobre suas questões e que, de alguma maneira, minha arte contribui para a vida delas.

FM: Qual a resposta do público em relação ao espetáculo e o que os novos espectadores podem esperar dele?

AD: A resposta do público tem sido muito positiva. Já recebi vários depoimentos emocionados e especiais ao longo desses dois anos. Um que me marcou muito foi o de um rapaz que esperou por cerca de uma hora e meia para falar comigo. Ele disse que tinha assistido o espetáculo sete vezes e que, por causa dele, tinha tomado uma importante decisão em sua vida. Ali tive certeza que meu trabalho tido sido cumprido: consegui tocar uma pessoa.

Não sei ao certo o que o público pode esperar, mas a minha tentativa é levar o espectador a um momento de apreciação poética. Fugir um pouco do caos do mundo e parar para apreciar o simples, o singelo. “Em um lugar chamado Lugar Nenhum” é um espetáculo sem grandes cenários, sem grandes truques… São três atores desnudados com suas verdades a espera de quem pare um pouco para escutá-las.

FM: Fale sobre a trajetória de sua personagem.

AD: Minha personagem é uma moça que vive no interior de uma cidade do nordeste e que, com a chegada do rádio que era o maior meio de comunicação da época (o espetáculo se passa na década de 50), ela começa a vislumbrar inúmeras possibilidades fora dali. Ela é uma aventureira, que quer desbravar o mundo e não se contenta com o que disseram para ela que era o limite. Ela quer ampliar, conhecer tudo o que for possível e viver experiências.