Hello…Houston… Hell…não estou me sentindo muito bem…não estou sentindo nada…estou perdendo as sensações… estou gravitando sem direção…aonde vou parar? O que será que está acontecendo? Estou ficando cego? Por que não consigo sentir algo novo? E por que esta ausência de sensações estranhamente me faz pensar que os sintomas desta escassez já estavam em mim há tempos e só agora, diante de um vazio maior, que eu notei esta frieza? Pois é, leitores…acredito que vamos ter que desvendar juntos este mistério. Diante da paralisia dos meus sentidos e das minhas vontades, não posso deixar que minha subjetividade se sobressaia à realidade das causas. Vou precisar de ajuda… mas…pensando bem…imaginações, devaneios, fantasias, suposições, ilusões, irrealidades, abstrações…isto deve ter alguma relação com minha infeliz capacidade de enxergar e sentir o real neste momento. Seria tudo isto a causa da minha cegueira? É isto que me faz paralisar no comum e no medo da inovação, ocasionando uma crise desesperadora diante da desconstrução de um mito? O que toda essa introdução existencial tem a ver com cerveja? Vamos tentar nos acalmar imergindo nesta discussão, evidenciando a importância da desconstrução do concreto subjetivo e, quem sabe, contribuir para a eliminação do predominante ACHISMO sem fundamento. Vamos lá!

A cerveja é sem dúvida a bebida alcoólica mais consumida no mundo. Entretanto, o que muita gente não sabe é que mais do que malefícios construídos sobre mitos em relação ao consumo da cerveja, a bebida pode sim, dentro do consumo moderado, proporcionar muitos benefícios à nossa saúde. Começando pelo clássico comentário: “Essa barriguinha é de tanto beber cerveja, né?”, agora você já pode dizer que não. A cerveja não é responsável pela barriguinha, muito pelo contrário. Uma dieta que inclui cerveja, estende a nossa existência terrestre (ou espacial) e diminui o risco de infarto nos apaixonados pela bebida. O que engorda? São as coxinhas, as batatas fritas em excesso…vamos começar a lidar com a realidade, né? Continuando…Cerveja é rica em vitamina B, atua contra o câncer, diabete, osteoporose e até contra parasitas da malária. Ativa o fígado e a diurese, age contra cálculos renais e biliares, diminui a pressão sanguínea e reduz o estresse (sempre, né?). Mas lembre-se: a apreciação moderada e regular da cerveja é que nos leva a esses benefícios. Portanto, sem viagens excessivas que possam colocar em risco a sua saúde e a de outras pessoas, ok?

Bem, infelizmente, são muitos os consumidores de cerveja que não querem ver que se permitirem apreciar a bebida com sabores, complexidades e, principalmente, em menores quantidades é uma jornada gastrosférica. Claro está que este comportamento oprime a capacidade voluntária de nos fazer enxergar o quão incrível pode ser a sensação de provar algo novo, ousado e inusitado. Sabemos que os valores das cervejas capazes de nos proporcionar tudo isto estão, em muitos casos, acima da média financeira que a população brasileira pode ou gosta de gastar com uma cerveja. Contudo, os valores fazem jus à qualidade do produto e à intencionalidade principal das cervejarias artesanais de colocar o degustador a bordo de uma aventura em direção ao prazer de tomar cervejas tão diferentes.

É preferível beber menos e melhor do que beber por consumo excessivo e ausente de prazer sensorial. E para isto, é preciso romper com muitos medos e pré-conceitos para mergulharmos na experiência inefável do novo. Só experimentando boas-novas que podemos desconstruir aquele monte de balela infundada sobre algo que nem sequer conhecemos direito. Não é mesmo? E por falar em novidade, aproveitando que a Gastronauta aqui está entendendo aos poucos a cegueira a qual estava submetida, junto da tentativa de desconstruir mitos sustentados por abstrações, vamos conversar sobre uma bebida que assustou muita gente no campo do desconhecido: a Teta Milk Brown Ale da Cervejaria Urbana.

A Teta Milk Brown Ale não é cerveja e muito menos cerveja com leite. O MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) proíbe a adição de ingredientes de origem animal em cerveja. Portanto, por conter lactose em sua composição, considere a Teta uma bebida alcoólica mista. De produção sazonal (produzida apenas em determinadas épocas do ano), a Teta tem permanente formação de espuma bege, possui coloração marrom escura e te prende a cada leve aspirada nos aromas notáveis de tosta do malte que nos remete a café e chocolate ao leite. O sabor condiz com o aroma, mas também tem o surpreendente adocicado da lactose em harmonia com o amargor do lúpulo. Ou seja, não é uma bebida doce e muito menos enjoativa. Obtendo 6,9% de ABV (teor alcoólico) e 40 de IBU (amargor), ela harmoniza deliciosamente bem com queijo roquefort, sopa de legumes, pato, linguiça de frango, lombo de porco e com a escolha que você “enxergar” na sua telha. O importante é a lucidez do prazer adquirido em cada gole de cerveja perante as suas escolhas.
É por ter vislumbrado esta epifania existenspacial sobre romper mitos, abstrações e covardias que digo ser uma boa pedida harmonizar a Teta Milk Brown Ale com o filme norueguês “Blind”, do diretor Eskil Vogt. O longa relata o desenvolvimento de um trauma na personagem Ingrid (Ellen Dorrit Petersen) em consequência da recente cegueira adquirida. Coagida pela “limitação”, Ingrid decide não sair de casa, explorando sem controles a sua imaginação a fim de fazer permanecer a memória de suas experiências. Porém, como todo produto de um descontrole lunático, o que era pra fortalecer a memória de Ingrid, passa a se confundir com fantasia autodestrutiva na mente da personagem. Consequentemente, Ingrid torna-se a maior vítima de sua cegueira física, alimentando a incapacidade de controlar suposições, medos e subjetividades sobre si e sobre tudo ao seu redor. Insegura e desconfiada, a personagem reprime silenciosamente suas vontades, porém, com espaços para questionamentos sobre o que é enxergar, como desconstruir fantasias e angústias para emergir da solidão e do medo da novidade.

Blind é um filme de múltiplos significados que melhor podem ser desvendados por entusiastas e apreciadores que rompem mitos sobre a cerveja, degustam uma ousada bebida alcoólica mista como a Teta e que não sentem o menor medo de cair no desconhecido prazer de enxergar e sentir as “coisas” como elas realmente são.

Por Carla Reina

  • Teresinha

    Alô alô menina sonhadora estou vagando nas suas palavras nadando nesta maravilhosa cerveja que a cada dia que passa e experimento novas cervejas me transporto para Londres onde aprendi a apreciar mais e mais ales E vc me fez recordar aquele tempo maravilhoso Feiticeira. Bjs

    • Carla Reina

      Olá Teresinha!
      Obrigada por apreciar a coluna!

      Saúde!

  • Margareth

    Pena que não tenho o seu talento degustar, filosofar… Mas adorei o texto. Parabéns

    • Carla Reina

      Oi Meg!
      Mas este talento pode ser explorado por você também!

      Esteja sempre por aqui!

      Saúde!

  • Alice Paulino

    Comparação sensacional, Carla! Um viva à arte de experimentar! 🙂

    • Carla Reina

      Obrigada Alice!

      Saúde!

  • erika aparecida barros

    Carlinha sua linda sabia q vc tinha talento mais nao imagina q era tanto assim, parabéns apesar de nao beber mais kk desejo muito sucesso na sua vida ..Q Deus lhe abençoe …
    Nem imaginava q existia essa cerveja kkkk

    • Carla Reina

      Olá Erika!
      Poxa, fico feliz com seu comentário sobre a coluna! Espero que tenha gostado da leitura e que prove cervejas tão especiais quanto as experiências que elas podem nos proporcionar.

      Saúde!

  • Renan F

    O começo do texto é quase um abraço de empatia!

    Blind é excelente! Define essa sensação de inércia frente aos acontecimentos medianos diários! Só uma boa cerveja pra ajudar a seguir!

    • Carla Reina

      O que dizer sobre este comentário?
      Só uma boa cerveja pra ajudar a digerir muita coisa mesmo…
      Obrigada Renan!

      Saúde!

  • Carolina manca

    Ca, seus textos são ótimos! Da mta vontade de sentir tudo isso que descreve. Bjs

    • Carla Reina

      Obrigada Cá!

      Saúde!

  • Rose

    Texto muito bom, essa garota tem futuro!! Bjs

    • Carla Reina

      Obrigada Rose!

      Esteja sempre por aqui!

      =) Saúde!

  • Noel Rosa

    Fantástico, show de bola, uma viagem ao mundo cinematográfico e cervejeiro por meio desse texto maravilhoso que me faz pensar: O que voa por entre seus neurônios ó talentosa escritora ??? É fica a ansiedade por outros escritos seus. Parabéns, adorei.

    • Carla Reina

      Olá Noel!
      Mais uma vez obrigada por acompanhar a coluna! Temos que harmonizar cinema e cerveja pra tudo ficar um pouco melhor né?
      Abraços!

      Saúde!

  • Luciana Rodrigues

    A cada semana mais ansiosa pela próxima coluna ! Os textos me fazem ter uma experiência entre o mundo dos filmes e da cerveja, inigualável. Parabéns, pela coluna super bem escrita, sempre! Aguardo a desta semana srrsrsr.

    • Carla Reina

      Obrigada Luciana!
      Esteja sempre por aqui!

      Saúde!

  • Maria Cláudia

    Gosto da forma como descreve e escreve as sensações.Parabéns pela maneira envolvente de me fazer refletir.

    • Carla Reina

      Obrigada Cláudia!

      Saúde!