O uruguaio Roberto Birindelli, casado com a publicitária Juliana Sarda e pai de Carlo Longoni, vem emendando um trabalho no outro e sendo reconhecido por seus inúmeros papéis na dramaturgia nacional. Embora esteja presente em algumas das recentes tramas policiais, ele já viveu os mais diferentes papéis, seja no teatro, na televisão ou no cinema. Indo de eremita à empresário, de pintor a petroleiro, aos 54 anos, experiências não lhe faltam.

Natural de Montevidéu, aos 15 anos veio para o Brasil mas também já morou em vários outros lugares do mundo como Itália, Dinamarca, França e Inglaterra. Com inúmeros trabalhos, dentro e fora da televisão, foi durante a novela “Império”, em que vivia o personagem Josué, que Birindelli ganhou ainda mais reconhecimento. Entre seus trabalhos recentes lançados no cinemas podemos citar o argentino “Dolores” e os nacionais “O Crime da Gávea”, “Boi Neon” e “Maresia”.

Mas não para por aí. Há algum tempo ele vem se dedicando a viver o doleiro Alberto Youssef, para o longa “Polícia Federal – A Lei é Para Todos“, sobre a operação Laja-Jato. Além disso, esse ano ele também estará na 2ª temporada de “Um Contra Todos“, e na produção nacional “Escadinha” e “Humanperson“, de Frank Spano, co-produzido entre Canadá, Colômbia e Brasil.

Em meio a tantas produções – algumas que nem citamos por aqui, mas, que já estão à caminho – e a vida pessoal, Roberto Birindelli, tirou um tempo para nos conceder uma entrevista exclusiva. Abaixo vocês conferem e descobrem um pouco mais sobre a vida do ator e, claro, sobre suas experiências e seus futuros trabalhos. Aqui fica o nosso agradecimento pela oportunidade, conhecê-lo melhor e o desejo de longos anos de sucesso e trabalho.

Paulo Olivera: Como foi e quando começou a trabalhar com interpretação?

Roberto Birindelli: Pois é, começou cedo e eu nem sabia. No final de uma sessão de trabalho, Eugênio Barba perguntava isso a cada ator: Quando foi a picada do escorpião? Lembro em Montevidéu, eu tinha 5 ou 6 anos, minha mãe me trazia da escola. Na esquina de casa vi um senhor bem velho chorando e travei. Aquilo não podia ser. Soltei da mão de minha mãe, parei na frente do senhor e decidi que só sairia daí quando ele estivesse rindo. Minha mãe me puxando, e eu fazendo coisas engraçadas. Só parei depois de um grande sorriso. E hoje continuo fazendo exatamente isso.

P.O: Você é uruguaio e veio para o Brasil aos 15 anos. Buscando na memória, existiu alguma diferença marcante entre as culturas e como foi o processo de adaptação no sul do país?

R.B.: O golpe militar foi muito duro, não se vislumbrava muito caminho a seguir em Montevidéu nos anos 70. Vim com meus pais para o Brasil, e Porto Alegre não era a primeira escolha, mas acabou sendo muito acolhedora. O maior choque cultural foi a língua, pois, eu não falava quase nada de português, mas, também os valores, idiossincrasias e outros. Os primeiros anos foram meio isolados, trabalhando, tentando um mínimo sustento. Faculdade de arquitetura na UFRGS, grupos de música, poesia (cheguei a editar um livro independente com poemas meus), mímica e dança. O teatro veio depois e bem mais tarde fiz a Faculdade de Artes Cênicas, cinema, lecionei e, agora, mais recentemente, a TV.

Em 2009 mudei pro Rio. O choque cultural foi maior ainda! Acho que Porto Alegre é mais próxima em valores, do modo de vida e nas relações interpessoais a Montevidéu do que ao Rio de Janeiro.

P.O: Com muitos projetos, assim como no ano passado, 2017 será bem cheio. Entre os trabalhos, teremos a produção de “Polícia Federal – A Lei É Para Todos”. Como surgiu o convite para viver o doleiro Alberto Youssef e como está se preparando para o personagem?

R.B.: Realmente, nunca trabalhei tanto! Em 2016, rolaram quatro longas e duas séries. O ano de 2017 anda na mesma trilha. Em janeiro estive em Porto Alegre, para a série “Proibido para Maiores”. Em fevereiro começou o longa da lava jato, “Polícia Federal – A Lei É Para Todos”, e a terceira temporada da série “Conselho Tutelar“, na Record. Em abril começam as filmagens do longa “Humanpersons“, que roda em Chicago, Medellín e Panamá. E ainda tem mais.

Sobre “Polícia Federal – A Lei É Para Todos”, o convite veio do autor Thomás Stavros e do diretor, Marcelo Antunes. Relutei um pouco em função de não sabermos o desfecho, nem os princípios reais que norteiam todo esse movimento. Vide o tratamento diferenciado aos dados colhidos de diferentes partidos, entre outros fatos contraditórios, topei, até para tentar entender mais, já que acabei tendo acesso a dados de pesquisa, delações premiadas, etc.

Nesse sentido, o doleiro Youssef é unanimidade: um contraventor desde onde você o observe, seja direita, esquerda, de qualquer tendência. Safo, bem articulado. Nas conversas com os delegados e nas visitas, tivemos acesso ao raro senso de humor de Youssef. Em alguns momentos, genuíno. Às vezes, ganhando tempo para escolher a resposta que mais benefícios o traria. Intuo que com ele podemos tangenciar algo cômico, como uma sátira que permeia a certeza de impunidade que envolve o foro privilegiado dos políticos. Esse é um tema que gostaria de discutir: a urgência pelo fim do foro privilegiado.

Bastidores da gravação do longa “Polícia Federal – A Lei É Para Todos”

P.O: Esse ano você também estará nos longas “Humanperson” e “Escadinha”, então já queremos saber o que pode nos contar sobre as produções e sobre seus personagens.

R.B.: “Humanperson” trata do tráfico de órgãos, desumanização, organizações criminosas dentro e fora das esferas do governo. Na história, o juiz que vai prender o grande chefe de uma determinada organização criminosa tem um filho na fila de espera de transplante de fígado, e os prognósticos não são favoráveis. Este chefe propõe sua soltura em troca de um fígado compatível, e o juiz aceita. James, o protagonista, é um jovem ativo na organização que se encarrega de levar o fígado de Medellín aos Estados Unidos. Como o órgão coletado acaba não sendo viável, mil peripécias se desencadeiam. Aí entra João, meu personagem na trama. Ele é um brasileiro que vem do garimpo, se estabeleceu no tráfico em Medellín, e faz a conexão Brasil – Colômbia – Estados Unidos. Fiz teste para o filme via Skype. Frank Spano, o diretor, pediu um improviso em português, espanhol e inglês, e foi bem divertido.

Já “Escadinha” está em processo de roteiro e captação. Deve rodar no segundo semestre. É uma figura emblemática e o filme conta muito mais seu lado humano, questionamentos, sua emoção do que o fato de ser um famoso traficante carioca.

P.O: Falando em personagem, em sua carreira, existem algum que te marcou? Por quê?

R.B.: Vários. No teatro fiz “Il Primo Mirácolo“, um solo de Dario Foi durante 21 anos, em mais de 200 cidades de 9 países. 21 anos na estrada já é uma experiência. Trocar com tanta gente, em tantas situações, observar os outros, a mim mesmo, e como minha percepção ia mudando ao longo do tempo.

Enquanto na TV, tem dois: Josué, de “Império” (TV Globo), que com a visibilidade de uma novela pude perceber a reação do espectador nas ruas, que é diferente do cinema e do teatro. E na série da FOX “Um Contra Todos”, de Breno Silveira, pude desenvolver Pepe, chefe e verdadeiro doutor do tráfico. Foi burilado a seis mãos. Está sendo incrível o processo de trabalho com Breno (diretor) e Thomás Stavros, o autor. Sempre próximos, ouvindo sugestões, permitindo um espaço de criação no set, e sempre receptivos e atentos. E a FOX dando mega apoio. Acabamos de gravar a segunda temporada, e a terceira está sendo roteirizada. Vem coisa por aí…

 

Caracterização do personagem Pepe, na série “Um Contra Todos”, da FOX.

“Eu, como ator, amo e sou feliz quando, através de meu trabalho, posso melhorar a vida de outra pessoa”               

P.O: Existe algum trabalho que gostaria de fazer e/ou reproduzir e ainda não pode?

R.B.: Adoro as oportunidades que estão surgindo nas séries e no audiovisual em geral, mas tenho o sonho de trabalhar com máscaras da Commedia Dell’Arte e retomar o trabalho de teatro de grupo.

P.O: Uma dúvida que os novos atores quase sempre possuem e queremos saber a sua visão: Qual a diferença entre teatro, cinema e televisão? Entre esses, há um preferido?

R.B.: Fala-se que teatro é a arte do ator; cinema é a arte do diretor; e a TV é a arte do patrocinador, onde a audiência manda em tudo. São prazeres e desafios diferentes. Pessoalmente me sinto atraído por personagens instigantes, sejam na TV, cinema ou teatro.

P.O: Se fosse fazer uma indicação de um livro, uma peça e um filme para um artista, quais seriam?

R.B.: Hum, a indicação leva em consideração a pessoa à quem indico, mas, em geral, posso dizer o que estou lendo e relendo, “Barba Ensopada de Sangue”, de Daneil Galera; os filmes do Fellini sempre, me alegram; e as peças de Felipe Hirsch, com suas tragédias e comédias latino-americanas.