A vida nos define a partir de nossas vivências e lembranças. Por mais que, de fato, as escolhas futuras tenham maior peso no médio prazo, dificilmente é possível desassociá-las de toda a bagagem afetiva e emocional construída ao longo dos anos. Mas e se de repente toda essa referência se perdesse? E se, pior do que isso, fora dessa consciência de indivíduo, não aceitassem a nossa própria realidade? Com boas doses de poesia e tato, o espetáculo Teatral “Branca” trata do feminino com foco no indivíduo.

Na narrativa, uma mulher desperta de um coma profundo de 6 meses sem nenhuma memória. Então, se vê inserida em uma realidade estruturada que desconhece completamente: casada e com uma filha adolescente… toda uma história construída ao longo de décadas. A não identificação com a própria realidade leva o marido a buscar auxílio psicológico profissional, o que, em dado momento, gera um embate entre marido, filha e terapeuta. Buscar compreender as buscas de uma pessoa sem passado é uma tarefa tão complexa quanto a tentativa de se retornar a uma vida a qual se desconhece. E pela sensibilidade, no trato com uma história tão delicada escrita por Walter Daguerre, em uma proposta trazida pela atriz e produtora Ludmila Wischansky. Em suas palavras:

“Foi encantamento à primeira leitura. Nesse primeiro projeto, eu tinha o desejo de falar sobre o feminino, mas queria tratar esse tema numa visão sutil, poética e subjetiva, e foi exatamente esse olhar que encontrei no texto de Daguerre”.

Em “Branca”, a leitura de Daguerre sobre valores e conceitos consagrados (família, afeto, memória e sujeito) passeia no gênero poético, fugindo da leitura mais clássica. Traz ao texto versos, canções, liberdade gramatical, além de explorar as relações internas em relacionamentos externos, discutindo a disparidade existente entre pensar, falar e agir. Para o autor, entender os sentimentos de uma pessoa sem lembranças é um mergulho no escuro, em suas paravras:

“A subjetividade, sobretudo da mulher que perdeu a memória, é exposta por ela mesma num fluxo narrativo ininterrupto e visceral. ‘Branca’ é, no final das contas, um mergulho na escuridão. Estamos todos penetrando nas sombras, tanto do inconsciente – da mulher sem memória, da família atormentada, da terapeuta destituída de certezas – quanto da linguagem.”

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Foto: Renato Mangolin/ Divulgação

O trabalho dirigido por Ivan Sugahara busca trazer a cena um pouco dos conflitos internos que vivenciamos pela protagonista não só na narrativa e diálogos, mas também nos elementos cênicos e na iluminação. Trazendo uma atmosfera etérea à cena. E, em algum nível, criando uma comunicação com o vazio que habita essa mulher (e a todos).

A relação do diretor com a trama se deu em uma empatia arrebatadora imediata. Ao conhecer o texto, ainda sem saber que seria o responsável pela sua montagem, conseguiu visualizar todo espetáculo já de cara. E, então, soube que tinha sido escolhido pelo texto.

“Branca” entra em cartaz no próximo dia 06, seguindo em temporada até o dia 29 de maio, de sexta a segunda, sempre às 20 horas, no Teatro Glaucio Gil, em Copacabana. E em junho, tem temporada agendada na Sede das Cias (na super charmosa Escadaria Selarón, na Lapa), de 2 até 26 de junho.

O espetáculo conta com o patrocínio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, por meio da Lei Municipal de Incentivo à cultura – Lei do ISS, pelas empresas Tecnenge Tecnologia de Engenharia, Eiffel e Comissaria Aérea do Rio de Janeiro. Conta ainda com o apoio institucional do Governo do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura, Fundação Anita Mantuano de Artes do Estado do Rio de Janeiro e o Teatro Glaucio Gill.

Uma excelente opção para quem gosta de arte para repensar os próprios valores e caminhos. Então, fica a dica!

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