A ficção com frequência recorre ao fim do mundo como inspiração para grandes histórias: sejam no cinema, com filmes como “Mad Max”, séries e HQ’s, como “The Walking Dead”, nos livros, como na série “A Dança da Morte” de Stephen King (e em “A Torre Negra”, também do autor, em breve adaptado às telonas), ou também nos videogames como no hit “The Last of Us”. E em qualquer mídia o fim do mundo pode acontecer nas mais diversas formas: um apocalipse zumbi, os recursos do planeta terra acabaram, um vírus geneticamente modificado escapa, ou uma guerra nuclear destruiu a humanidade.

O último cenário, aliás, é o que nos leva imediatamente à franquia Fallout, sendo desenvolvida atualmente pela Bethesda (a mesma da franquia “The Elder Scrolls”). “Fallout” se passa num mundo destruído pela guerra nuclear: os avanços da ciência levaram a humanidade a evoluir sua tecnologia, causando consumo desenfreado e, a longo prazo, a escassez de recursos, que causaria uma nova guerra mundial. É nessa grande guerra polarizada por Estados Unidos e China, que os ataques nucleares são lançados, prontamente devastando o planeta.

Nos EUA, a corporação Vault-Tec criou os Refúgios nucleares espalhados pelo país: bunkers subterrâneos onde cidadãos previamente escolhidos (não por acaso, como sinistramente descobrimos ao longo dos jogos) ficariam abrigados e passariam décadas – ou talvez o restante de suas vidas – confinados, supostamente seguros, até que fosse possível retornar à superfície do planeta e reconstruir a sociedade. Mas como o jogo sempre nos lembra em suas sequências de abertura, sempre épicas: “Guerra. A Guerra Nunca Muda.”

E daí criou-se um grande universo de ficção científica, com as típicas conspirações corporativas, uma humanidade ainda em guerra, e dividida por interesses e facções, criaturas monstruosas nascidas propositalmente ou não de grotescas mutações induzidas pela radioatividade. Mas antes disto tudo, o que impressiona em Fallout, é como ele consegue causar um medo sincero e iminente do fim do mundo.

A cena de detonação da bomba atômica, logo no começo de “Fallout 4” é uma das mais impactantes já vista nos games modernos

Talvez não seja possível acontecer as coisas como aconteceram na história dos jogos, mas certamente (e infelizmente) é possível imaginar que poderia, que alguém poderia apertar o botão vermelho.

A série de jogos “Fallout” nasceu numa forma bem diferente da atual: como um RPG tático em turnos (similar a “XCOM”), que inclui os jogos “Fallout 1 e 2, e os spin-off”, “Tactics” e “Brotherhood of Steel”. E é quando a série passa para a Bethesda que ela toma a forma que conhecemos hoje: uma espécie de híbrido entre FPS, com algumas mecânicas de RPG.

E são nesses jogos que a história atinge com tudo em nosso medo do fim do mundo: Enquanto “Fallout 3” conta a história do protagonista se aventurando pelo que sobrou da antiga Washington D.C. atrás de seu pai e “Fallout New Vegas” conta uma história de vingança, focando mais nas facções que disputam o controle da região que dá título ao jogo é em “Fallout 4” que a história atinge o auge, no que diz respeito em nos deixar apreensivos com a possibilidade de uma grande guerra destruindo tudo.

Nele, acompanhamos pela primeira vez na série a história de um (a) protagonista que testemunhou o dia em que a terra foi praticamente destruída (os games anteriores começam décadas após o holocausto nuclear). E é esta cena, aliás, que causa provavelmente um dos momentos mais icônicos na história recente do videogame, principalmente por nos deixar pensativos: e se algo assim realmente acontecesse? Afinal, a arte imita a vida… e suas possibilidades também.

OK, mas jogos (principalmente o de empresas grandes) são também para divertir. Apesar de induzir tais reflexões, os jogos mais recentes da série são também carregados com uma boa dose de humor negro, e aí é que ela brilha. Como filmes e outras obras de arte brilhantes, a série “Fallout” consegue entreter e induzir reflexão para aqueles que a buscam. Afinal… a guerra nunca muda.