O Centro Cultural Banco do Brasil – RJ sedia, de 20 de janeiro a 26 de março, a maior exposição sobre arte africana contemporânea já realizada no Brasil. “Ex Africa” apresenta 18 artistas vindos de oito países africanos e dois artistas afro-brasileiros, e conta com mais de 80 obras, entre fotografias, pinturas, esculturas, performances, vídeos e instalações. Além de uma forma de conhecer a ampla produção cultural de outro continente, as obras ainda ampliam o debate sobre a significativa contribuição da herança africana na formação da identidade brasileira. A curadoria está nas mãos de Alfons Hug, até recentemente diretor do Instituto Goethe na cidade de Lagos (Nigéria), e de Ade Bantu, responsável pelo Clube Lagos, um panorama da música popular da cidade. As visitas à mostra podem ser feitas de quarta a segunda, de 9h às 21h, e a entrada é gratuita. O CCBB RJ localiza-se na Rua Primeiro de Março 66, no Centro.

O nome da exposição significa “Da África”, e vem da frase em latim “Ex Africa semper aliquid novi”, que  traduz-se “Da África sempre há novidades a reportar”. Essa proposição data de 2.000 anos atrás, redigida pelo escritor Caio Plínio Segundo ao voltar de uma viagem às províncias norte-africanas pertencentes ao Império Romano.

A frase de Plínio pode levantar questionamentos importantes sobre o cenário atual e o espaço da arte africana nas galerias: sabendo que a África é um continente riquíssimo culturalmente, por que não reportamos suas novidades? A Revista Capitolina  – revista online -, discute, em um de seus textos, como o imaginário que temos de uma arte africana geralmente remete à arte tribal, étnica e ao artesanato, símbolos que funcionam bem para o mercado ao limitar e estagnar nosso conhecimento acerca da produção cultural desse continente a um tempo, espaço e estilo tradicional.

Muitas vezes somos induzidos a reduzir a importância e a diversidade da África, e não notamos que há pessoas produzindo, pensando, inovando e criando a todo momento, assim movimentando uma arte contemporânea e rica. Por isso essa exposição no CCBB, extensa, gratuita e em um lugar de grande importância para o cenário artístico no Rio, é tão significativa ao reconhecer a multiplicidade desse continente. O referencial que temos de arte geralmente perpassa a cultura europeia, não abrangendo artistas africanos, mas exposições como esta podem mudar isso. Uma declaração de Hug, um dos curadores da mostra, elucida alguns desses pontos: “Assim como em toda parte, o continente africano encontra-se em permanente processo de renovação criativa e intenso intercâmbio artístico. Em ‘Ex Africa’ isso fica muito claro. Portanto, quem for conferir a exposição esperando ver trabalhos cheios de referências étnicas, com o estigma do artesanato de aeroporto, com certeza, vai se surpreender”.

A temática de “Ex Africa” gira em torno de quatro eixos, sendo eles Ecos da História, Corpos e Retratos, O Drama Urbano e Exposições Musicais. A primeira sala aborda questões referentes à exploração do continente africano e diversas formas de dominação sofrida. Na série de fotos nomeada “Genesis”, de Kudzanai Chiurai, é discutida a dominação por meio dos âmbitos sociais, que acarreta uma dominação cultural institucionalizada.

Na sequência de fotografias, vemos um homem branco, representando o homem europeu, conversando com uma espécie de rainha ou líder africana, que está em seus trajes típicos despreocupada mexendo um chá e acompanhada de funcionários ao seu dispor. O homem está com as mangas arregaçadas, o que pode indicar uma postura pronta para o trabalho e sua intenção de tomar a terra.

Na próxima imagem já o vemos em trajes completos, com terno, chapéu e bengala, acompanhado de servos com roupas de trabalho, enquanto a líder africana não se deixa intimidar e o encara em pé de igual para igual. Na terceira foto, o homem já ocupa o lugar da líder e encara a câmera de forma segura e incisiva, e os servos ao seu lado carregam instrumentos e capacetes que indicam atividade mineradora.

Essa história contada por meio das imagens representa a chegada do homem branco e sua tomada de poder, ação que resultou em enormes mudanças na dinâmica dos povos escravizados. A líder africana, com seu traje típico e seus símbolos, trazia esse ponto da cultura local, que foi arrancada e substituída pela influência europeia.

Outra obra, a “Troca pela vida”, de Ndidi Dike, a única artista mulher da exposição, trata dos materiais que foram usados como moeda para comprar vidas, como conchas, espelhos e bebidas alcóolicas, e elementos da escravidão, como o açúcar extraído e as correntes usadas nos negros. Essa obra aborda a dominação político-empresarial, por meio das relações comerciais.

Uma das salas com exibição de conteúdo audiovisual traz o vídeo de uma performance feita por Jelili Atiku. O artista se pinta com uma tinta expessa preta e veste um traje, feito por ele, com espelhos e outros objetos amarrados à cabeça, e longas fitas de tecido amarradas aos braços com bolas nas pontas. Atiku interage com o público e com um caderno, e a performance debate o peso das palavras e o poder da palavra falada, e quais delas desejamos perpetuar no mundo. Por isso, na sala em que o vídeo é exibido, são disponibilizadas canetas para que os visitantes deixem mensagens nas paredes brancas. Muitas delas fazem alusão à resistência da cultura negra e à luta contra o racismo no Brasil.

Essa resistência é feita também pelo cabelo, tema da obra de J. D. ‘Okhai Ojeikere. O fotógrafo nigeriano, que faleceu em 2014, capturou a arte montada nos cabelos das mulheres negras por meio de mais de mil fotos em preto e branco que mostravam tranças com formas pontiagudas, redondas, em forma de arco, entre muitas outras. A composição das imagens dão a elas um ar cult, assim valorizando os penteados e concedendo-lhes o status de arte, o que também luta contra a dominação cultural e contribui para a promoção de uma nova autoestima, não mais baseada nos cabelos lisos e nas perucas, marcas da colonização cultural europeia que ditava outros padrões estéticos.Em outra sala, é debatido o papel do negro africano no espaço de trabalho. O fotógrafo senegalês Omar Victor Diop posa para diversas fotos em trajes históricos, baseados em pinturas dos séculos XV a XIX, retratando personagens que quebraram com o que se esperava, naquela época, ser o negro na diáspora, ao terem estudos, estilo e confiança. Porém, as fotos de Diop não são apenas remontagens das pinturas, uma vez que trazem algo mais: elementos do mundo do futebol. Os apitos, cartões vermelhos, luvas e bolas estão inseridos para fazer uma crítica a esse mundo do esporte que muito promete, mas nem tanto cumpre.

Em entrevista para o jornal “The Guardian”, o fotógrafo explicou: “Futebol é um fenômeno interessante que para mim muitas vezes revela onde a sociedade está em termos de raça. Quando você olha para a maneira que a realeza do futebol africano é vista na Europa, tem uma mistura muito interessante de glória, adoração ao herói e exclusão. De vez em quando você vê cantos racistas ou cascas de banana sendo jogadas no campo e toda a ilusão de integração é despedaçada da forma mais brutal. É esse tipo de paradoxo que estou investigando em meu trabalho”.

Outra questão que também pode ser levantada é a de como o negro é enxergado no mercado de trabalho e da posição que eles ocupam no imaginário das pessoas, que deve ir muito além de exclusivamente jogadores de futebol, o que as fotos debatem ao trazer personagens das mais diversas profissões segurando objetos do mundo do futebol. Os bonequinhos de madeira na obra “Mil homens não conseguem construir uma cidade”, do nigeriano Abdulzaraq Awofeso, também abordam a questão do trabalho ao serem uma representação de como o africano era usado para colocar de pé a cidade que institucionalmente o escravizava, explorava e excluía.

Outro assunto, que está no eixo temático Drama Urbano, é exposto em obras como a de Andrew Tshabangu, artista da África do Sul que fotografa, em preto e branco, albergues muito precários, habitados por pessoas vindas de vilarejos à procura de oportunidades de trabalho em Joanesburgo. Elas vivem de forma simples e economizam tudo o que podem para mandar o que poupam para casa. Como diz o próprio artista, “Nenhum ser humano merece se hospedar nesses albergues, mesmo hoje em dia. Também me interessa a maneira como estas imagens parecem abrir espaço para questionamentos, instigando a curiosidade. Há esta bela quietude, um senso de serenidade, e, ainda assim, dentro disso, há algo de perturbador sobre elas”.

Em outras obras que seguem a temática urbana, vemos discussões acerca das mudanças de dinâmicas e aparência nas cidades, e do que é estar dentro e fora, rua versus apartamento, segurança versus violência. Karo Akpokiere segue nessa linha de análise urbana ao criar uma série de desenhos que mostram anseios e problemas da população da cidade de Lagos, na Nigéria. As ilustrações fazem referência à cultura da cidade, mas é usada a linguagem visual comum ao design gráfico e à propaganda presentes no ambiente urbano, lembrando, também, capas de jornal ou cartazes de protesto, e assim abrangendo tópicos políticos, econômicos e sociais. Os desenhos são baseados em experiências de sua vida cotidiana e dos problemas notados ao trabalhar e viver em Lagos, mas são questões que podem criar identificação com diversos públicos, já que desigualdade de classes, restrições de mobilidade e infraestrutura decadente, para citar alguns dos pontos abordados, não são elementos apenas de Lagos.

São exibidos, em duas salas separadas, dois vídeos belíssimos, cada um à sua forma. “Inzilo”, de Mohau Modisakeng, sul africano, traz o luto através de uma performance densa e tocante, gravada de modo cuidadoso e capturando até os pequenos detalhes, como uma fumaça escura se dissipando no ar. Já “Cambek”, de Binelde Hyrcan, angolano, mostra quatro meninos em uma praia da Angola brincando de motoristas e conversando em um carro feito de areia. Na conversa e na brincadeira inocente das crianças, estão temas de pobreza, migração e desigualdade.A última linha temática da exposição, as Exposições Musicais, é apresentada ao público de modo interessante e divertido. Foram montadas estruturas compostas de blocos, cada uma com tons de uma cor, e nelas são transmitidos videoclipes de músicas do gênero “Naijapop”, a música popular nigeriana, que surgiu de uma origem humilde, mas já alcançou reconhecimento global.

Nessa experiência sensorial, somos covidados a sentar e colocar fones para entrar na música e analisarmos a estética e a linguagem dos clipes de Naijapop, que são guiados por quatro correntes: dinheiro, poder, Deus e sexo. Vemos a cidade de Lagos, com seus sons, espaços, cores e arquitetura, como pano de fundo desses artistas. O texto na parede da sala explica o porquê dos tons de cores e a lógica da ordem dos clipes: “O espaço dividido por cores vivas abrange quatro temas existenciais que alimentam os desejos e obsessões dos habitantes de Lagos. A explosão de emoções esboça uma ordem clara que define as etapas para o sucesso: primeiro, o Dinheiro (Amarelo), depois, o Poder autoadquirido (Vermelho), seguido da ilusão de um privilégio especial e acesso a um Deus pessoa (Azul) e, afinal, a suprema gratificação, o Sexo (Roxo)”. Após passar por cada uma das estações sensoriais, você atravessou Lagos.A última obra, em uma sala à parte das demais, é baseada na ideia de ruínas e inspirada nos acontecimentos ocorridos em muitos países árabes, principalmente durante a “Primavera Árabe”. As ruínas, segundo o artista egípcio criador da obra, Youssef Limoud, são o resultado da violência, seja ela causada pelo homem, pela natureza ou pelo tempo. Sua instalação conta com elementos diversos, como areia, terra, pedaços de metal e de madeira, e com uma iluminação mais escura, com algumas pequenas lâmpadas acesas, assim criando um ambiente intenso e calmo ao mesmo tempo, como uma espécie de templo em ruínas. O templo remete à paz, à religiosidade, enquanto seu estado em destroços é desestabilizante.

A exposição é tão diversa e rica, que, se nos debruçássemos sobre todas as obras e assuntos abordados, esse texto se transformaria em um livro. Por isso, é preciso ver por si para aproveitar tudo o que a mostra tem a oferecer, que é muito.

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