O Severo era meu amigo, eu o amava e ele deu um tiro na própria cabeça.

Eu o conheci jogando bola. Era cerca de um palmo maior do que eu. Pernas finais. Barriga grande. Bem grande. Grande mesmo.    Moreno. Colocaram-no em meu time, como centroavante, e eu achei uma temeridade alguém com aquele biótipo jogar ali. Naquele    campo, ocorria uma reunião de várias figuras escoladas de campeonatos da várzea. Um jogo de final de tarde poderia, a qualquer    momento, se tornar uma batalha pela vida e pela honra. Com mortos e feridos.

Ele acabou com a partida. Usava a bunda imensa para deslocar qualquer zagueiro. As pernas finas tinham os chutes mais fortes que já vi. Cerveja dá chute forte, sempre dizia, quando bebíamos na roda depois dos jogos. Era hilário vê-lo jogar, pois desafiava todas as leis da física e da coerência. Ele era assim: engraçado, ingênuo, gentil e desconcertante.

Nos muitos anos em que jogamos e convivemos, não me recordo de vê-lo elevar a voz e ficar brabo com alguém. Não me lembro de uma falta dura que tenha feito. Lembro que, em um certo campeonato, levou uma entrada feia e maldosa por trás. Daquelas para intimidar o centroavante e, com um pouco de sorte, tirá-lo do jogo. O jogador falou alguma bobagem, enquanto Severo ainda se contorcia com dores no chão, e foi para a barreira. Ele não respondeu. Pediu-me para bater a falta e, obviamente, deixei. Tirou um dente e afrouxou outro do rapaz, que saiu carregado. Eu disse que ele tinha um chute forte. E certeiro.

Há centenas de histórias sobre ele. Algumas posso contar. Outras, não. Lembro quando ele narrava a sua chegada a Portugal. Um garoto, saído direto de Rio Grande/RS, para um time da segunda divisão na Europa. O próprio treinador fora recebê-lo. Disse a ele que ficasse tranquilo, que cuidaria bem dele, e começou a falar no seu “puto”. Depois do décimo “puto”, Severo quase pulou do carro, apavorado, pensando que havia sido enganado, como tantos outros que vão para a Europa. Conteve-se, até porque não tinha dinheiro algum. Ficou ali, sofrendo naquele carro, esperando pelo pior e torcendo pelo melhor. Ao chegar na casa do técnico, descobriu que “puto” era o apelido português para menino, e foi apresentado ao filho.

Era uma das pessoas mais sem ritmo que conheci. Nas rodas de samba, só poderia tocar dois instrumentos, o chocalho de algodão ou o violão de cordas de seda. Mas estava lá, rindo e fazendo rir. Alguém que todos queriam por perto.

Aposentou-se cedo do futebol, com os dois joelhos estragados. Naquele tempo, certos problemas nas articulações não tinham conserto. Mesmo assim, continuava jogando as suas, ou melhor, as nossas peladas. Os joelhos às vezes inchavam, tornando as pernas ainda mais finas. Pareciam azeitonas espetadas por palitos de dente, como aqueles petiscos servidos em coquetéis.

Como era querido por todos que o conheciam, virou vereador. Logo ele. Foi mordido, digerido e cuspido de volta pela prática política. O que voltou foi um homem um pouco diferente. Ainda alegre, mas com uma nota triste no olhar. Uma nota que virou um concerto inteiro com o passar de algum tempo.

Por essas coisas da vida, não convivemos muito nos seus últimos dois anos. Dizem que ficou mais recluso, irritadiço e ciumento. Quase paranoico. Os amigos e familiares, vendo a mudança de comportamento, tentaram fazer com que buscasse auxílio médico. Ele foi, mas não seguiu com os tratamentos.

Lembro a última vez que falei com ele. Aquele abraço e aquele beijo melado na bochecha, que ele sempre me dava com um sorriso franco no rosto quando nos reencontrávamos. Falamos bastante. Eu estava com saudade e ele também. Os dois levemente bêbados. Contou-me que tinha comprado um detector de metais para caçar tesouros. E que tinha visto um disco voador. Pior. Que tinha sido seguido por um disco voador e batido, inclusive, algumas fotos.

Obviamente, achei aquilo muito estranho. Mas, enfim, era o Severo. Ele sempre tinha este dom de me surpreender. Como na vez que cavou um fosso e começou a criar tilápias para fazer linguiças de peixe. De onde vinham estas ideias?

Mesmo eu estando alegre e alcoolizado e mesmo sendo ele que contava aquilo, eu devia ter percebido, naquela noite, algo de estranho. Algo que não ia bem. Talvez tenha visto, mas achei que não precisava fazer nada.

Pouco tempo depois, ele disparou contra a própria têmpora.

O fosso ainda está lá. Acho que tem algumas tilápias nele. O meio político continua sórdido. O futebol também segue. Ele sempre segue. Os centroavantes estão mais magros. Não jogam tão bem. E não são engraçados.

Quando olho para o ataque, às vezes, tenho um relance do seu braço pedindo a bola, com algum pobre zagueiro escondido atrás de seu corpanzil. Mas ele não está lá. Está na minha imaginação. E no meu coração.

Acima de tudo, continuamos jogando, pois essa é a essência da vida.

Por Daniel Nonohay


Daniel Nonohay é natural de Porto Alegre. É casado e pai de duas filhas. Juiz do trabalho, escreveu o seu primeiro romance à mão, em dois cadernos pautados, quando tinha 17 anos. É autor de artigos técnicos, na área do Direito, e políticos que foram publicados em livros, jornais e sites. Organizou livros de coletâneas. É colorado. Atuou como professor e é pós-graduado em Direito do Trabalho, Direito Processual do Trabalho e Direito Previdenciário. Foi Presidente da Associação dos Magistrados do Trabalho do Rio Grande do Sul. Atualmente, aproveita cada segundo livre para escrever, a sua grande paixão (depois, é claro, das “suas mulheres”). Mais informações, acesse seu site oficial.