Um dos maiores prazeres da vida, sem dúvida, é ler um livro – ou melhor, devorá-lo – que te tire dos eixos. Que te faça rir, chorar, espernear, tudo sem sair do lugar, tendo que mover os braços para não ficarem dormentes de segurar aquele pequeno objeto na mesma posição por horas. Não é todo livro que te causa isso, e mesmo quando não causam, não significa que sejam ruins. São, apenas, a forma mais comum de se fazer literatura.

É aí que entra Miranda July. Diretora, escritora, roteirista, artista e gênia. A americana, nascida em Vermont, oferece em seus livros mais do que apenas histórias. July acerta bem no ponto fraco do ser humano: a habilidade de se enxergar no outro. Além de minha autora preferida, ela também escreveu o livro que mais causou todas as reações que descrevi no início. “É claro que você sabe do que estou falando”, lançado em 2008 pela editora Agir, reúne 16 contos previamente publicados em revistas como New Yorker, Zoetrope e The Paris Review, contados com uma irreverência que só cabe a quem pode tratar com tanta segurança e propriedade da coisa mais comum entre todos nós: o cotidiano.

As pequenas histórias narram o diálogo da autora com seus leitores, trazendo à tona situações engraçadas e muitas vezes humilhantes, mas com uma graciosidade e leveza que te coloca em posição de ouvinte por vontade própria. Você lê cada frase e solta risadas, como se tivessem conversando – você e a própria Miranda – na varanda de sua casa, tomando uma taça de vinho branco num dia nublado. É uma leitura confortável, quase necessária, para se passar o dia. Ou a semana. Ou a vida.

Dentre todas é difícil escolher uma preferida, mas “Equipe de Natação” talvez tenha sido a mais tocante. “O Quintal Compartilhado” é a mais caricata em relação à nossa habilidade de criar um romance de mão única, existente apenas em nossas ilusões platônicas.

Miranda tem outros livros igualmente deliciosos, mas esse, em especial, é daqueles que você precisa ter na estante para reler de tempos em tempos e sentir novamente aquele gostinho de poder ser você mesmo, com sua vida cotidiana comum e patética, e ser grata por isso.

Pra quem gosta da autora, vale conferir também seu sucesso cinematográfico “Eu, Você e Todos Nós”, de 2005, escrito e dirigido por ela, além de ainda estrelar como a protagonista. A facilidade que ela tem em passear pelos diversos formatos artísticos para se expressar é o que garante que ela seja mais próxima de nós do que qualquer outro autor.