Tackle, ruck, maul, scrum. Você sabe do que estou falando? Há alguns anos eu também não sabia. Tratam-se de jogadas pertencentes ao Rugby. Vamos nos aprofundar nesse esporte na matéria de hoje.

O rugby (lê-se râguebi) é originário da Inglaterra, um esporte de muito contato físico e intenso. Pra quem está de fora, aparenta ser nada mais que brutalidade. Um esporte ‘bruto’. Adjetivo que pouco tem a ver com os valores que sustentam a prática desse esporte.

Assim como futebol e vôlei, o rugby também conta com modalidades diferentes. Sendo a olímpica seven, a mais praticada é o rugby de quinze, e há também o de praia, toque e cadeira de rodas.

O rugby é disputado por dois times de 15 jogadores e dois tempos de 40 minutos contínuos. Diferentemente do futebol americano (que muitos confundem), no rugby não tem muito uso de equipamentos. Sendo usada apenas caneleira, boqueira (protetor bucal) e, não obrigatoriamente há também uma espécie de capacete chamado Scrum Cap.

É importante salientar a ideologia que sustenta um time de rugby. A começar pela primeira regra que você deve saber antes de praticar: você nunca pode se colocar à frente de quem está em posse da bola. Todos do time correm atrás do jogador que está na jogada. Os valores são de cooperação. Mais até que outros esportes. No rugby o trabalho em equipe é primordial. E o que aparenta ser violento para quem está de fora, para quem está de dentro, é pura técnica e tática.

A prática de rugby beneficia muitos aspectos da nossa fisiologia. Liberação de neurotransmissores que são responsáveis pela sensação de prazer, o exercício físico em si que fortalece o corpo, aumenta o condicionamento e é super benéfico à saúde.

Existem muitos aspectos sobre a prática de rugby que são bem explicitados por alguém que pratica. Para tanto, o treinador e jogador Bruno Mira nos concedeu uma entrevista, explicando de dentro como se dá a prática do esporte e tudo àquilo que gostaríamos de saber. Mira nasceu no Rio e teve seu primeiro contato com o rugby em uma transmissão da copa do mundo de 2003 pela ESPN. A partir daí buscou um local para aprender e praticar o esporte, foi então que conheceu a UFF Rugby, passando por clubes como: Niterói Rugby e Carioca Rugby, e uma convocação para Seleção Fluminense em 2012.

Títulos:

  • 3º Lugar Estadual Série A 2008 – UFF Rugby.
  • Vice-Campeão Estadual Série A 2009 – UFF Rugby.
  • Campeão de Torneios Universitários Brasileiros em 2010 – UFF Rugby.
  • Fundei o time Carioca Rugby em 2012.
  • Convocado para Seleção Fluminense em 2012 para amistosos contra clubes da Argentina.
  • Campeão Estadual Série A 2013 – Niterói Rugby.
  • 8º Lugar Brasileiro Série A de Rugby 2013 – Niterói Rugby.
  • Vice-Campeão Estadual Série C 2013 – Carioca Rugby.
  • Vice-Campeão Estadual Série B 2014 – Carioca Rugby.

Letycia Miranda – No Brasil, o rugby ainda é um esporte pouco praticado e muito desconhecido. O que te motivou a praticar essa modalidade?

Bruno Mira – Eu sempre gostei de esportes, havia jogado futebol no São Cristóvão e Handbol em intercolegial, além de praticar artes marciais como luta-livre. Um dia ao ver TV eu conheci uma modalidade que parecia com Football Americano, mas não era tão parado, era bem dinâmico, era mais lutado como luta-livre e se usava muito os pés como no futebol brasileiro. Eu estava assistindo nada menos do que a transmissão da Copa do Mundo de Rugby de 2003 pela ESPN Brasil. Além de descobrir e me apaixonar pelo esporte naquele dia, eu ainda descobri um ídolo, Johnny Wilkinson, pois ele me lembrava o Zico, e como flamenguista e fã do Galinho, fiquei encantando com a qualidade daquele jogador. Mais tarde conheci os All Blacks (Nova Zelândia) e devido a minha ascendência indígena me identifiquei ainda mais.

L.M – O que você que falta para o rugby atingir maior popularidade no país?

B.M – Como professor de Educação Física, eu tenho que criticar a monocultura que ocorre em todas as esferas de cultura no país música, etc e não seria diferente com o esporte. Enquanto as práticas esportivas não forem difundidas como práticas de saúde, lazer e cultura o esporte dominante e de massa, que é o futebol, continuará com a sua hegemonia cultural sobre os demais, e não apenas ao Rugby. Eu acredito que apenas uma política educacional séria de difusão e prática do esporte como objeto cultural, poderá fazer com que modalidades menos conhecidas atinjam popularidade. Como professor eu sempre levo o rugby para as minhas aulas na escola, e o retorno e interesse das crianças pela modalidade é sempre positivo.

L.M – Como você passou do amadorismo para o profissionalismo?

B.M – O esporte no Brasil é no Máximo semi-profissional, pois apenas os atletas de seleção brasileira recebem o “bolsa atleta”, que é um projeto de fomento ao esporte concedido pelo governo federal aos atletas que representam o país em competições internacionais. Eu só pude atingir nível nacional quando comecei a jogar pelo Niterói Rugby, onde pude disputar o campeonato brasileiro de rugby o “Super 8”, e ter a honra de ser campeão estadual do Rio de Janeiro em 2013, pelo mesmo clube.

L.M – Como é a rotina de um jogador profissional de rugby?

B.M – São três treinos semanais de duas horas cada, totalizando seis horas de rugby por semana, mais uma hora e meia de academia por seis dias, totalizando nove horas de academia entre musculação e preparação física. Durante o Super 8, ainda havia uma hora de preleção tática às segundas, dando um total de dezesseis horas de treino semanais, em um clube de ponta que disputa o torneio nacional como o Niterói.

L.M – Você joga em que posição e como se dá sua atuação nessa posição?

B.M – Comecei como Hooker (camisa 2) na UFF, onde também fui Meio-Scrum (camisa 9), e também fui Ponta (camisa 11 e 14), posição que também ocupei no Niterói. Mas a posição que sempre gostei de jogar pelas minhas características de armação era de Abertura (camisa 10), pois eu gostava de trabalhar a criação das jogadas pra linha e pensar/estudar o jogo, muito semelhante ao meio-campista do futebol. E também a posição do meu ídolo Johnny Wilkinson (risos).

L.M – Qual foi o melhor e o pior momento da sua carreira no rugby?

B.M – Ser campeão estadual em 2013 pelo Niterói, e fazer meu primeiro jogo pelo clube que eu fundei e onde estreei como abertura no Carioca Rugby, com certeza foram os meus melhores momentos. Meus piores momentos foram a morte do meu amigo e irmão de time José Fernandez (O Argentino), que morreu em campo jogando pelo Carioca Rugby em decorrência de um Aneurisma, e a minha saída do mesmo clube, pois o ambiente se tornou insuportável pra mim após seu falecimento.

L.M – O que você acha da atuação da seleção brasileira?

B.M – A seleção brasileira feminina é o nosso exemplo a ser seguido, depois do resultado nas olimpíadas elas se tonaram ranking 9 do mundo, o que é um grande feito para o rugby brasileiro, além de serem sempre campeãs sul-americanas derrotando potências do esporte num contexto mais amplo como a Argentina e Uruguai. A seleção masculina vem recebendo grandes investimentos e incentivos e vem evoluindo num ritmo mais lento, ocupando a 39ª posição no ranking mundial. Ainda se tem muito que trabalhar no masculino.

L.M – Quais são as maiores dificuldades do esporte?

B.M – A sua baixa popularidade, e o preconceito, pois quem não conhece o Rugby o ignora, e quem ouve falar e não o pratica o taxa de violento, e esse é um estigma que estamos tentando desconstruir. Como ex praticante de artes-marciais posso assegurar que o Rugby é seguro e não é violento, é viril, disputado e um jogo duro, mas não é violento, e esse é um preconceito a ser superado.

L.M – Quais são os maiores benefícios?

B.M – Treinar qualquer coisa vai te deixar bem fisicamente, e com o Rugby não é diferente. Mas pra qualquer jogador de Rugby que você perguntar ele sempre vai dizer do bem psicológico que faz, somos quase todos obcecados por Rugby, viciados em Rugby, é o tipo de coisa que quando entra na sua vida pra sair é difícil, por isso é muito comum se encontrar amistosos ou até torneios de veteranos para jogadores acima de 60 anos de idade.

L.M – Qual foi o melhor time que já enfrentou?

B.M – Foi o Pasteur Rugby (PAC), os enfrentei pelo Niterói no brasileiro de 2013, e na época perdemos de 65 x 0, foi uma grande experiência e aprendizado, inclusive mudou muito a minha cabeça como jogador e treinador. Naquela partida, o Oitavo (camisa 8) Júnior Orioli jogou muito e acabou com o jogo. Infelizmente o Pasteur acabou vice-campeão naquele ano, mas era um time muito rápido que atacava muito pelos lados e fazia muitos pontos.

L.M – Que conselho daria para quem pretende começar a prática de Rugby?

B.M – Compre um protetor bucal, pois é o único equipamento de segurança recomendado para a prática de Rugby, e procure o clube da sua cidade, fortaleça o Rugby na sua comunidade, pois o Rugby é um esporte de cooperação que fortalece o espírito comunitário, integrando mais as pessoas e as suas localidades. O Rugby é muito forte nas cidades do interior do estado do Rio de Janeiro como: Friburgo, Cabo Frio, e por ai vai. No próprio estado do Rio não é da capital o time mais tradicional e sim o Niterói Rugby, time da cidade vizinha o maior detentor de títulos estaduais, e o único do estado a estar com presença constante na primeira divisão do rugby brasileiro desde sua fundação em 1973. Conquistando inclusive seis títulos nacionais, e contando com jogadores convocados para as seleções brasileiras masculina e feminina.

Estádio de Rugby